Beleza, nudez e erotismo

Por André Paes Leme

“A roupa é um meio de se atingir a nudez”. Nenhuma metáfora se aplicaria melhor a essa asserção de Georges Bataille do que a cena de abertura de Les Innocents Aux Main Sales, de Claude Chabrol, em que uma “pipa” cai sobre o derrière da divinal Romy Schneider que se encontra deitada nua no gramado. Por outro lado, nada o desapontaria mais do que a nudez esvaziada do trágico signo da morte, da irredutibilidade do corpo em dissolução, ou seja, a nudez desprovida de erotismo. “O erotismo”, dizia ele, “é tudo o que está ligado à sexualidade profunda. Por exemplo: sangue, terror, crime, tudo o que  destrói indefinidamente a beatitude e a honestidade humana”. Certamente, Bataille não aprovaria uma nudez teórica que instrumentalizasse o corpo em complemento de um ato discursivo e se realizasse em plena disputa (pasmem!!!) com uma projeção de slides. Enfim, nada mais estranho ao poeta que uma nudez programada e programática, ainda mais quando tal  espetáculo recebe o esdrúxulo título de: “A abertura da Vênus”.

Enfastiado com tal forma de “inovação acadêmica”, retirei-me da sala em questão e me pus a caminhar lentamente pelo cinza opressor dos corredores do prédio de filosofia. Olhar cabisbaixo, mas atento. Sempre há alguém cuja presença é mais conveniente não notar. Tomo a direção do prédio de história. No caminho encontro amigos e sigo em sua companhia. Entre risos, divagações e a velha e boa conversa fiada acendo um cigarro. A fumaça eleva-se como uma névoa quase tão espessa quanto o borrão de languidez assentado em meu espírito. Distraio-me da conversa por um instante e meus olhos acompanham, oscilando levemente à esquerda, a leveza daquela névoa de fumaça desfazendo-se em plena ascensão. Nesse momento, quando já não esperava mais nada daquela nublada quinta-feira marcada pela pura exterioridade de uma “performance” gélida, o arrebatamento se mostrou ainda possível.

O fluir do tempo, contínuo jogo de espelhos, caleidoscópio partido da indiferença, ávido e destruidor converteu-se em “uma prodigiosa intuição do instante tomado em toda a sua complexidade”. Surgia diante de meus olhos uma beleza capaz de aplacar todos os sentidos da incompletude e cujo deslocamento parecia regido por um princípio geral de instabilidade. Tudo isso excedendo-se de um rosto transcendente sobre o qual pairavam olhos risonhos, de um castanho inquieto e impenetrável. Tal inquietude prosseguia nas sobrancelhas perfeitamente arqueadas e no atrevimento dos cílios semicerrados. A sinuosidade dos lábios, comedidamente frescos e salientes, formava uma boca pequena que desfrutava indiretamente de certo movimento análogo ao dos olhos. Entre ambos, um nariz róseo, fino, de caráter circunspecto e limiar ligeiramente arrebitado completava, centralizado pouco acima da altivez das maçãs, o desenho sublime de faces opulentas. Cabelos castanhos, ao melhor estilo “joãozinho”, liberavam a nuca e as orelhas do claustro que lhes imporiam longas madeixas, ressaltando assim a lasciva inclinação tátil dessas regiões. O conjunto do rosto, emoldurado por tal corte de cabelo, acrescentava à moça toda uma perdida delicadeza cinematográfica, fazendo-a superar análogos instantâneos de uma mesma beleza presente, por exemplo, na Jean Seberg, de Godard, ou na Mia Farrow, de Polanski. Um pescoço longilíneo, daqueles que por vezes fazem com que a cabeça nada tenha a ver com o corpo, ligava tal aparição a uma silhueta esguia, cujo movimento eu detidamente acompanhava com os olhos, mas sem jamais conseguir completar o percurso infinito daquele corpo. Em uma palavra, ela era absolutamente linda.

A imagem desfez-se na fumaça de meu cigarro. Passado o instante, parava há alguns metros de nós a moça que eu soubera também pintura. Profundamente bela, conversava despreocupadamente com outras duas, como se, em seu gestual minimalista, se revelasse a importância menor que a beleza assume diante de si mesma. Uma nova tragada e penso se devo ir até ela. Na seguinte concluo que não. Como dizia Rachel de Queiroz: “parece que é mesmo uma das virtudes da beleza essa renúncia de nós mesmos que nos impõe, em troca de sua contemplação pura e simples.” Alguns cigarros mais tarde e então a moça partira bruscamente na noite calma de nosso estacionamento. Já passara também da minha hora de voltar pra casa. Mas não sem a certeza de que, naquele dia, a verdadeira nudez, ironicamente, se me apresentara em calças pretas e uma pequena blusa verde…

Junho de 2012

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