Do cinismo no movimento estudantil

Por Rafael Zambonelli

De acordo com Maquiavel, a reflexão sobre a ação surgiria na república porque, com ela, a experiência do tempo não se oculta. É somente a partir dessa experiência do tempo — e, portanto, da instabilidade e da indeterminação inerentes ao movimento da história — que se torna possível o advento de uma capacidade de agir que extrapole os limites institucionais estabelecidos e, com isso, concorra efetivamente para sua transformação. Visto que um dos grandes esforços empreendidos pelo florentino foi a destruição dos modelos ideais na política, é somente seguindo a verità effetuale, a “verdade efetiva das coisas”, que se pode orientar da melhor maneira possível a ação — e também pensá-la. Entretanto, o que vemos no movimento estudantil, de um modo geral, é justamente o velamento da experiência do tempo, que encontra seu fundamento em um determinado tipo de discurso suficientemente difundido ao ponto de se ter normalizado.

Contra o que, exatamente, luta o movimento estudantil hoje? Contra o projeto do Rodas/do governo estadual de privatização da universidade, diríamos. Falar em projeto é sempre uma referência ao futuro, a algo que, inexistente no presente, se tenta realizar. Em certo sentido, seria razoável, então, falar de um projeto de privatização. Porém, em nosso discurso, a temporalidade está desfigurada: entrevemos esse futuro unicamente a partir de um presente quase estático, relegando o passado à mera contemplação e, no máximo, citando-o a título de exemplo. Trata-se de
um processo típico da sociedade contemporânea, na qual “a continuidade do tempo (o tempo do projeto,
da comunidade, da história) é representada como uma sucessão de intervenções num presente deslocado do
fluxo denso da temporalidade”, como dizia Sarlo. No entanto, se temos a intenção de assumir uma posição
crítica no interior da sociedade, devemos nos furtar a essa unidimensionalidade que subtrai a história da política; se quisermos realmente seguir a verità effetuale, devemos retomar a experiência da temporalidade, de modo a tornar viva a relação entre seus momentos constitutivos — é preciso, a partir do presente, fazer com que o passado se presentifique enquanto um problema.

Assim, como compreender o projeto de privatização da universidade? Ora, desde a década de 60, com os acordos
MEC-USAID, um tipo de linguagem técnico-produtivista vem se inserindo na universidade — esses anos marcaram o ponto de virada no projeto de universidade, a saber, o abandono do projeto inicial de formação de uma elite esclarecida em benefício de uma profissionalização voltada para o mercado. Especialmente na década de 80, quando da “redemocratização”, a reformulação do ensino superior se deu fundamentalmente sob a óptica da inserção da universidade em um processo geral de racionalização da cultura, no qual a ciência se converte em força produtiva e se incorpora aos critérios de uma racionalidade instrumental, sendo fragmentada pela lógica da especialização e orientada pela lógica do mercado. Desse modo, a universidade, enquanto instituição, é pensada a partir de um cálculo racional (custo/benefício), em que se tenta impor uma relação direta entre universidade e sociedade, isto é, a universidade deve responder imediatamente às demandas sociais (entendidas, na verdade, como mercadológicas). Nada mais expressivo que o Plano de Metas da CAPES-CNPq, de 1987-89, no qual se colocava a necessidade de um planejamento racional da pesquisa face às necessidades de desenvolvimento global do país, com ênfase nas “áreas estratégicas”. A essa racionalização da cultura segue-se inevitavelmente um processo de mercantilização da ciência, no qual se busca quantificar aquilo que originalmente era apenas qualitativo. O elemento-chave desse processo é a avaliação permanente, subordinada ao critério da eficiência, da atividade universitária. Além disso, em virtude da racionalização formal, a gestão da universidade se torna ainda mais burocrática, visto que é representada como uma gestão técnica, e não mais política, que cuidaria apenas da eficácia produtiva da universidade.

Não pretendo, aqui, fazer um desenvolvimento detalhado de tal processo (cf. p. ex., Cardoso, Irene. Para uma crítica do presente), mas apenas ilustrar a perda da dimensão histórica de nosso discurso — e, com isso, os problemas de nossa ação enquanto movimento estudantil. Quando dizemos, por exemplo, que tivemos grandes “vitórias”, tratando de situações específicas em que conseguimos apenas evitar um retrocesso maior; quando lançamos ao futuro, ao campo do possível, o projeto de privatização, ignorando a mercantilização e a racionalização capitalista já em vigor (condição de possibilidade da privatização, sendo esta, aliás, apenas o final do processo), criamos a sensação de uma certa estabilidade, não nos apercebemos de que o movimento estudantil, por estar nesse campo da unidimensionalidade, está absurdamente atrasado em relação ao desenvolvimento do neoliberalismo na universidade. Não só ignoramos o passado desse processo, mas também nosso próprio passado. Enfatizamos nossas pretensas vitórias, lançando ao esquecimento nossas derrotas — a consequência disso é a normalização e a aceitação tácita daquilo que nos derrotou (a título de exemplo: ninguém mais se levanta contra os muros, contra a UNIVESP etc. Será que, daqui a alguns anos, se dará a mesma coisa em relação à PM ou ao novo regimento da pós-graduação?).

Maquiavel já alertava os jovens florentinos da mediocridade dos discursos dominantes de sua época. Em todos eles havia, principalmente, a ilusão de um ideal de estabilidade e a incapacidade de se relacionar com o passado para além da mera contemplação e ambos os elementos estavam ligados à manutenção do status quo, à dominação oligárquica que privava o restante dos cidadãos de uma real participação política. Ignorando a verità effetuale, o discurso dos dirigentes e historiadores era essencialmente cínico e, disfarçado de “sabedoria” e “prudência”, ocultava interesses muito bem determinados. Enquanto nos mantivermos nesse mesmo terreno, um posicionamento crítico em relação aos problemas da universidade, que possa resultar em reais vitórias para o movimento estudantil, está fora do horizonte. Não podemos nos esquivar da indeterminação e da incerteza, características fundamentais do movimento histórico, em nome de uma estabilidade ilusória — destruidora da experiência do tempo — que, como vimos, só favorece o fortalecimento da política de direita. Afinal, como dizia Irene Cardoso, o lugar da crítica é o presente, “mas não enquanto o imediatamente dado, e sim um presente construído tanto na sua relação com o passado quanto pelo distanciamento diante da percepção imediata. O modo de construção desse lugar realiza-se fundamentalmente por meio de um estilo de reflexão caracterizado por interrogações permanentes. A construção de questões faz desse lugar uma posição instável e sem garantia, mas, por isso mesmo, a condição de uma autonomia possível do pensamento crítico.”.

Junho de 2012

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