Meditação sobre a bomba – Peter Sloterdjik

Tradução por Fernando Sepe

(original: Die Kritik der zynischen)

Aqui nós temos que pensar adiante – assumindo a fundo que a extremidade e o meio correspondem mais profundamente um ao outro do que revelado a um primeiro olhar. Na superfície, o estilo de vida dos punks e do establishment parecem ser absolutamente irreconciliáveis. Mas no fundo eles são bem próximos. Erupções cínicas são lançadas para fora das massas da civilização. Por essa razão o filosófico, a aproximação compreensiva dos fenômenos, não deve se limitar aos excessos subjetivos, mas deve começar pelos excessos objetivos.

Excessos objetivos não são outros que os excessos de estrutura tensa que caracterizam nossa forma de vida, mesmo dentro de suas fases saturadas e dentro de períodos entre guerras. Ao fim da segunda guerra mundial, o potencial bélico era suficiente para o extermínio de cada cidadão da Terra. Enquanto nos aproximamos da terceira, o potencial de extermínio tem sido multiplicado por centena de vezes, talvez milhares. A atmosfera de uso brutal da força se torna mais densa a cada minuto. O potencial cresce e seu crescimento é, em uma análise final, o agente determinante de nossa história. A estrutura de força bélica se torna o sujeito do desenvolvimento, basta lembrarmos como na primeira e na segunda guerra uma enorme proporção de trabalho social fluiu por essas estruturas. No momento novas medidas são tomadas para intensificar esse processo, mas esse não é nosso tema aqui.

Frente esses difíceis fatos, a função da filosofia é a de colocar questões infantis, tais como: “Por que as pessoas não conseguem viver juntas?” “O que as leva a preparar sua mútua desintegração?” Filósofos são aqueles que podem colocar de lado o habitual, o cínico, o ilustrado contemporâneo – esse que sem grande esforço pode em duas, ou três sentenças, explicar tudo e dizer o porquê de a situação não poder ser alterada apenas com boa vontade. O filósofo deve dar uma chance à criança interior que ainda não entende tudo isso. “Estes” que ainda não entendem talvez possam colocar as questões certas e necessárias.

Todas as guerras são, na raiz, consequências do princípio de autopreservação. Na competição entre grupos políticos, a guerra tem sido um velho meio de estabelecer e defender a existência, a identidade e a forma de vida de uma sociedade dada contra as pressões de uma rival. Desde tempos imemoriais, realistas assumem um direito natural de autopreservação de um grupo individual e do uso da força militar em caso de ataque. A moralidade que legitima a suspensão da moralidade dentro de uma situação de guerra é a autopreservação. Aqueles que lutam por sua própria vida e por sua sociedade estão de acordo com a mentalidade realista, distantes de uma ética de paz. Quando a identidade própria é ameaçada, a proibição de matar é suspensa. Aquilo que constitui o básico tabu em tempos de paz se torna um dever em tempos de guerra; na verdade, uma matança generalizada e eficiente é ainda honrada como uma conquista valiosa.

Todas as éticas militares modernas, entretanto, aboliram a imagem do herói agressivo porque ela interferiria na justificativa defensiva da guerra. Heróis modernos querem ser apenas defensores, heróis da autodefesa. Todo comportamento agressivo é negado: todo soldado profissional vê a si mesmo como um protetor da paz e o ataque é apenas uma estratégia alternativa para a defesa. Esta constitui a prioridade última de todos os modos de comportamentos militares. Defesa, nesse contexto, nada mais é do que a contraparte militar para o que chamamos  autopreservação em filosofia. Esta negação de si cínica de toda moralidade é guiada pelo princípio de autopreservação, princípio que antecipa o “momento de verdade” e arma a si mesmo com uma “ética livre” sem restrições e ilusões.

Se nós olharmos o mundo hoje a partir dessa perspectiva, veremos uma ilimitada proliferação do princípio cínico da defesa. Ocidente e oriente, ambos armados até os dentes, confrontam-se uns aos outros como gigantes da autodefesa. Para que possam ser capazes de se defenderem, cada um produziu instrumentos de destruição suficientes para a absoluta aniquilação do humano, do animal e mesmo da vida vegetal. Nas sombras das armas atômicas as terríveis especialidades de guerra biológica e química são normalmente ignoradas. Em nome da autopreservação, um sadismo disfarçado de defesa floresceu nas mentes dos pesquisadores e patrocinadores da destruição; um velho mestre de tortura teria um complexo de inferioridade por comparação.

Entretanto, nós não queremos imputar nada de negativo para ambas as partes em jogo. Todos provavelmente fazem o que está dentro do campo do possível. Porém, esse campo tem em si suas peculiaridades más. Parece que uma certa forma de realismo chegou próximo ao seu limite imanente, a saber, este realismo que adota a guerra como ratio última da política de autopreservação em seu modo de cálculo. Este realismo não deve ser condenado de forma retrospectiva; ele teve seu  tempo e fez seu trabalho, talvez algo de bom, com certeza muito mal. Mas deve ser urgentemente observado como essa ratio última do realismo faliu.

Hoje em dia as “políticas de desarmamento” apenas aparentemente compreenderam isso. Pois, por detrás dessas políticas, as nações envolvidas em tal negociação cinicamente jogam de forma dupla. Enquanto elas falam e negociam, freneticamente produzem mais armamento. A questão, por mais estranha que pareça, é basicamente se apenas o armamento deveria ser perseguido, ou armamento mais conversa é algo melhor. Nesse sentido, eu diria, uma solução nunca será encontrada e a corrida armamentista apenas pode acabar em guerra. A  selvagem proliferação do princípio de defesa exclui todas as outras possibilidades.

A última guerra se tornou uma “questão interna” da humanidade bélica. Nesse ponto encontramos a questão central de ir para além do princípio de autopreservação com sua arcaica e moderna ratio última da guerra. Para esse imprevisto embate do aspecto interior contra o realismo nefasto da política de autodefesa, os mais fortes aliados são necessários. Nesse  sentido, nós não estamos sem esperança, pois há uma grande variedade de arsenal. Ele contém, na verdade, todo tipo de monstruosidade: gases nervosos, armas biológicas, granadas psicodélicas, raios mortais, etc. Não queremos, de forma alguma, não dar a devida atenção a esses elementos. Mas o filósofo é atraído muitas vezes para a bomba H, pois o modo de operação nuclear desafia a contemplação mais do que tudo. A fissão nuclear é um fenômeno que nos convida a meditação e, poderíamos dizer, a bomba nuclear dá ao filósofo o sentimento de nela realmente poder tocar o núcleo do que é o humano. Sendo assim, a bomba basicamente encarna o último e mais enérgico esclarecedor. Ela ensina a entender o significado da cisão. Ela deixa completamente claro o que significa Me colocar contra Você, um Nós contra Eles do ponto de vista de uma disposição plena para a morte. No ápice do princípio de autopreservação ela nos ensina como acabar e  conquistar os dualismos. A bomba carrega a última esperança e objetivo da filosofia ocidental, mas sua pedagogia nos é estranha. Ela é tão cínica e extremamente dura que apenas pode nos lembrar dos mestres Zen do oriente que não hesitavam em socar a cara dos pupilos caso isso auxiliasse no avanço em busca da iluminação.

A bomba atômica é o Buda do ocidente, um perfeito e soberano aparato, sem limites. Ela se mantém imóvel em sua ogiva, pura realidade e pura possibilidade. É a epitome das energias cósmicas e a participação humana em sua elaboração pode ser compreendida como o mais incrível desenvolvimento da racionalidade técnicocientífica, o triunfo da racionalidade técnica e sua negação (Aufhebung) em direção ao infinito. Com ela nós deixamos o campo da razão prática onde os fins são perseguidos a partir de meios apropriados. A bomba há muito deixou de ser um fim, pois sua infinitude de sentido excede todo fim possível. Porém, desde que ela não mais pode ser um fim, ela então deve se tornar um meio de autoexperiência. Ela é um evento antropológico, uma extrema objetivação do espírito do poder que trabalha por detrás do instinto de autopreservação. Ainda que nós tenhamos a construído para defendermos a si mesmos, na verdade, ela nos lança em uma situação de indefesa sem paralelos. Ela é a consumação do humano em seu pior aspecto. Nós não podemos alcançar um mal maior.

A bomba é realmente o único Buda que a razão ocidental poderia entender. Sua calma e ironia são infinitas. Não faz diferença como ela realizará sua missão, seja através do silêncio, ou de uma nuvem de fogo. Assim como o Buda, tudo que poderia ser dito é dito através da existência. A bomba não é pior e nem mais real do que nós. Ela é apenas um desdobramento nosso, uma essência. Ela já é corpórea como um todo e nós ainda nos encontramos separados dela. Frente tal máquina de destruição, considerações estratégicas não são apropriadas, mas uma atenção plena o é. A resposta à bomba não deve ser dada pela luta, ou pela resignação, mas sim pela experiência-de-si. Nós somos a bomba. Nela, o sujeito ocidental está consumado. Nosso mais extremo armamento nos faz indefesos, fracos do ponto de vista da razão, racionais do ponto de vista do medo. A única questão que resta é se nós escolhemos o caminho externo, ou interno – se o insight irá vir de uma reflexão crítica ou de bolas de fogo sobre a Terra.

Todos os “caminhos externos”, não importa o quão bem intencionados eles sejam, nos levam em direção a questão bélica.  Todos os “caminhos interiores”, ainda que pareçam extremamente irrealistas, apontam em direção a uma real pacificação. O desenvolvimento do mundo moderno nos levou para um ponto além, onde o caminho externo – política – e o caminho interno – meditação – falam a mesma língua. Ambos estão certos que apenas um “relaxamento das tensões” pode nos ajudar. Todo segredo está na arte de conceder, de não resistir. Meditação e desarmamento descobrem uma estratégia de comum interesse. Ora, mas que resultado mais irônico de nossa modernidade! A grande política para nossos tempos é, em uma análise final, meditar sobre a bomba. Uma profunda meditação que realmente busque construir a bomba dentro de nós. Meditação trabalha de forma gentil tudo que se encontra solidificado e encrustado no que chamamos de identidade. Ela dissolve a armadura em que o ego se fundamenta e que o faz se sentir como o grande defensor dos “valores essenciais” (os estrategistas bélicos dizem: “nós temos os melhores valores”). A bomba é uma maldita máquina irônica que não é boa para nada, porém produz grandes e poderosos efeitos. Ainda que ela seja nosso Buda, ela contém também o sarcástico demônio em si. Deveríamos nos colocar dentro dela para sentir o que significa explodir no cosmos a partir de uma completa dissolução do eu. Isso pode ser feito a qualquer hora. (…)

Nota da Edição:

Essa tradução corresponde a um trecho da primeira parte do livro de 1983 do filósofo Peter Sloterdjik Crítica da razão cínica.

Junho de 2012

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