Ponto de partida

Por Fernando Rondelli

Toda argumentação lógica envolve um retorno aos elementos mais básicos, aqueles que são evidentes por si mesmos, de modo que é não apenas desnecessário, mas impossível, procurar destrinchá-los em unidades mais simples e irredutíveis. Não é por acaso que este é o procedimento adotado no método cartesiano, cujo autor figura entre os maiores nomes da história da Filosofia, justamente por conta do rigor de seu método e dos resultados atingidos através da aplicação deste mesmo método. No interior da discussão filosófica e científica, sempre marcada por ferrenhas disputas de opinião e por um processo de crítica contínua, este conceito de “retorno ao mais elementar” detém o mérito de ser praticamente inquestionável.

Mas se, por um lado, no campo da pesquisa acadêmica e científica, o conceito é levado a sério e utilizado como meio de legitimar novas teorias, existe um outro campo que carece urgentemente da aplicação de um conceito similar: o campo da discussão política.

O que se observa por toda parte é uma completa desracionalização da discussão política: decisões baseadas em preferências individuais injustificáveis; dogmatismo incompatível tanto com o caráter lógicocientífico da política quanto com seu caráter humano; desprezo total pelos conceitos de “liberdade”, “sociedade” e “direito”, entre outros, cuja busca e aplicação prática deveriam constituir justamente o caráter primordial da ação política. Como consequência, o solo se torna fértil para a inserção indevida de interesses pessoais nas entidades institucionais supostamente democráticas, que passam a ser meras representações teatrais, despojadas de suas funções originais e então desprovidas de qualquer legitimidade.

Diante da gravidade do problema, para onde devemos desviar a nossa atenção? Qual é o inimigo a ser combatido?

A luta democrática, a tentativa de estabelecer uma sociedade justa e igualitária, através dos meios que se encontram disponíveis dentro dessa máquina circense e que são controlados por ela, é, apesar de necessária, insuficiente.

É como combater os sintomas e não se preocupar com o vírus.

A verdadeira base sobre a qual se assentam as condições tenebrosas que permitem a hegemonia de um pensamento conservador e antidemocrático é justamente o direcionamento que o senso comum sofre em direção à ignorância, em um nefasto procedimento de manipulação.

Portanto, ainda mais urgente do que combater os responsáveis pela utilização indevida do poder em seu próprio campo de atuação, é necessário lembrar que o pensamento democrático conta com bases lógicas que independem de qualquer forma de organização política ou social e, portanto, seu exercício e sua difusão podem e devem extrapolar essas formas de organização.

Na prática, caso exista realmente uma lógica aplicável a todos os intelectos, é este retorno ao irredutível que poderá nos possibilitar uma mudança estrutural no quadro da luta democrática, que nos leve a dar passos maiores do que algumas poucas vitórias conjunturais.

Junho de 2012

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