Rasgando seda para Guinga

Por Lucas Braga

Rasgando Seda é o novo disco de Guinga. Gravado com o Quinteto Villa-lobos, o registro celebra o cinqüentenário do maior conjunto de câmara brasileiro, executando um repertório exclusivo de nosso compositor vivo mais importante – e desconhecido ao grande público.

Guinga permaneceu por muitos anos como uma face oculta da música brasileira, prestigiado na coxia, mas sempre longe da ribalta – conheceu Milton Nascimento no festival em que defendeu “Travessia” (no mesmo festival, Guinga classificou “Sou só solidão”, aos 17 anos); jogou futebol no Polytheama, o time de Chico Buarque (que letrou uma de suas canções, “Você,  você”, e cantou em quatro discos do amigo boleiro); tocou violão na emblemática gravação de “O mundo é um moinho”, de Cartola; batia ponto na boemia carioca com Eduardo Gudin e Nelson Cavaquinho; era amicíssimo do então casal Paulo César Pinheiro e Clara Nunes (ele, letrista frequente; ela, gravou duas de suas canções).

Alcançou relativo sucesso com as canções “Bolero de Satã”, em 1979, na voz de Elis Regina; “Senhorinha”, tema da novela Sinhá Moça (na versão original, a música ficou por conta de Ronnie Von (!). No remake, na voz do autor); e “Catavento e Girassol”, em 1996, com Leila Pinheiro. Seu primeiro disco solo só veio em 1991. O reconhecimento foi tardio. Contudo, Rasgando Seda é o maior testamento fonográfico de sua magnitude no cancioneiro popular brasileiro.

As doze faixas do disco vasculham a obra do compositor e trazem duas inéditas: “Ellingtoniana”, em homenagem ao compositor norte-americano Duke Ellington, e “Valsa de aniversário”, que possui a função dupla de festejar o aniversário de sua filha mais nova e selar o encontro com o Quinteto.

As músicas receberam tratamento camerístico do Quinteto Villa-lobos. Para ganharem projeção e densidade, os  andamentos das músicas foram desacelerados, o que permite liberar as canções de Guinga da clausura de seu violão e expandi-las em arranjos sofisticados, que conferem a sua obra uma envergadura sinfônica.

Não é a primeira vez que suas canções recebem tratamento orquestral. Discos como Delírio Carioca, Suíte Leopoldina e Noturno Copacabana tiveram algumas faixas com essa roupagem. A novidade é um disco inteiro dedicado a sua obra vestida a rigor.

“Rasgando Seda”, a música que intitula o disco, é uma das mais jobinianas de suas peças. É um choro-canção que extrai do período mais importante da obra de Antonio Carlos Jobim – de 1973 a 1975, com os discos Matita Perê e Urubu – suas  soluções harmônicas e contracantos, com a peculiaridade violonística da obra de Guinga (e o arranjo competente de Vittor Santos). Não por acaso, lá pelo final da introdução, há uma sutil citação às primeiras cinco notas de “Nuvens  Douradas” – uma marcha-rancho presente em Matita Perê.

Isso faz com que o disco adquira uma carga simbólica muito grande, na medida em que o Quinteto, que leva nome de nosso maior compositor, homenageia Guinga e cita o período mais sinfônico (e desconhecido) da obra de Tom Jobim. Toda a linhagem direta de nossa melhor música é reverenciada numa tacada. E isso é o que torna o álbum tão importante: o disco alcança o pódio rarefeito da produção mais pujante da música brasileira, no limite entre o popular e o erudito.

Rasgando Seda, portanto, retoma essa linhagem do ponto onde Antonio Carlos Jobim nos deixou, há quarenta anos. Os discos de Tom tiveram silenciosa potência sísmica. Receberam pouca repercussão midiática na época, para desgosto do compositor, e até hoje não ganham a importância merecida. Trajetória semelhante se seguirá com o disco de Guinga. Mas daqui para frente, todo o ouvido sensível à música brasileira deve se atentar a seus próximos passos: qualquer pisada no calçadão do Leblon pode abalar os caminhos de nosso cancioneiro popular.

Andrés Segovia, o violonista responsável por trazer o violão – instrumento essencialmente popular – à sala de concerto, dizia que o violão era uma orquestra vista por binóculos ao contrário: uma mini-orquestra. Guinga realiza um movimento análogo, maximizando o instrumento, tornando-o uma coisa só com o Quinteto Villa-lobos, em algum lugar entre os coretos das praças e a sala de concerto. Ou, nas palavras do próprio compositor, “no coração do ouvinte”.

Junho de 2012

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