Sobre as eleições para o DCE

Coluna do CAF

Presenciamos uma grande eleição para o Diretório Central dos Estudantes, quórum de cerca de mais de cinco mil votantes em relação à eleição do ano de 2010, mas ainda apenas 17% dos estudantes da universidade. Para tal efeito, o processo eleitoral de 2012 foi o mais polêmico e disputado dos últimos anos, dada a intensa polarização em torno da greve estudantil do ano passado: de um lado, a mobilização de uma esquerda fragmentada (rasamente caracterizada numa divisão entre “esquerda moderada” e “esquerda radical”) acerca de pautas urgentes do movimento estudantil; de outro, um setor contrário ao movimento grevista, que, embora se dissesse apartidário, estava ligado a grupos de estudantes que já haviam formado chapas de direita em eleições anteriores, acompanhando o movimento de outras chapas que têm se organizado em outras universidades, tendo, inclusive, vencido eleições para DCE na UNB e UFRGS. Entretanto, a disputa que se deu em torno dessa polarização teve um caráter geral de despolitização, sendo marcado principalmente por discursos superficiais e, muitas vezes, meramente acusatórios.

O que queremos dizer é que a vitória da esquerda deve ir além do simples número de votos. Uma análise sincera não pode deixar passar a qualidade da campanha e da mobilização política em troca de uma quantidade inchada de óstracos na urna. Ora, será que tivemos uma vitória, também do debate político e da capacidade de articulação conjunta da esquerda nessas eleições? Ou o custo da nossa vitória foi justamente o risco de nosso enfraquecimento e a falta de honestidade ao lidar com nossos inimigos?

Pelo nosso discurso, certamente deixamos a desejar. Para usar termos correntes: faltou programa e sobrou acusação. De todos os lados o que vimos foram campanhas centradas no medo e na desqualificação. Medo dos grevistas comunistas, medo da direita mais forte do que nunca, e medo dos grandes pequenos partidos com suas garras prontas para atacar os inocentes estudantes. O discurso raso, nominal ou personalista não diz nada que não seja uma despolitização qualitativa num processo de mobilização numérica. Convém superar a superficialidade que ronda os discursos do movimento estudantil: a capacidade de formulação só surge se aliada à coragem de ir além das praias seguras, das fórmulas e das bandeiras repetidas à exaustão. Vale a pena desencantar o olhar e nos prestarmos ao trabalho de analisar aquilo que, muitas vezes, deixamos passar como natural ou inevitável. O próprio modelo de processo eleitoral vigente, por exemplo, dá as condições de possibilidade de que as fraseologias levianas imperem e, além disso, conduz à existência de chapas hegemônicas, condicionando um comportamento político eleitoreiro baseado em adesão aos grandes grupos.

Todos os discursos são perpassados por certa generalidade que impede uma compreensão mais clara das especificidades existentes em cada programa. Tem-se a impressão de uma enorme semelhança, a despeito de sutilezas, entre o que cada chapa propõe, de sorte que se torna quase impossível aos estudantes uma escolha clara e distinta, com base em uma real concordância com determinado programa político. Universidade em Movimento, Não Vou Me Adaptar, Quem Vem Com Tudo Não Cansa, Reação e 27 de Outubro era a ordem das cinco chapas na cédula de votação. Enquanto gestão do Centro Acadêmico de Filosofia presenciamos eleitores do curso que sequer sabiam dos programas e propostas de todas as cinco concorrentes. Característica de um processo eleitoral que, decerto, não ocorreu apenas em nosso curso, mas revela uma despolitização geral dos estudantes.

Qual o resultado dessa despolitização mais profunda para a subsequente organização dos estudantes? A fragmentação da esquerda e o fortalecimento real da direita – justamente o contrário daquilo que, no limite, parece ser o nosso ponto de contato. O descompromisso dos grupos da esquerda de debater programaticamente é a contrapartida de um discurso lotado de acusações infundadas e denúncias gratuitas. Em passagens em salas, por exemplo, membros das chapas  chamavam o voto através de ofensas às outras, além da repetição vazia dos problemas gerais da universidade.

O descolamento entre o discurso político e a realidade vivida pelos estudantes está na base de todo esse processo. A ascensão da direita, por exemplo, pauta central nessas eleições, foi tratada com excessiva negligência. O surgimento de setores conservadores na política estudantil tem que ser, é claro, objeto de reflexão por parte da esquerda. Não é mais possível ignorar a organização da direita no movimento estudantil da USP. Cabe a nós fazer com que essa aparição no cenário político seja encarada como fato saudável da disputa política. Afinal, nosso fortalecimento deve se dar na prática e, se temos confiança nas ideias que defendemos, não podemos temer debater abertamente com também esse grupo de estudantes.

O que vimos, contudo, foi uma mistificação do crescimento da direita. Foi construída uma política que se utilizou desse fato como justificativa para uma atuação no mínimo questionável durante as eleições. De certo modo, muitos dos votos às chapas de esquerda foram apenas uma espécie de ostracismo da direita, desviando a crítica às deficiências de seus programas. Não podemos nos esquecer de um ponto que o movimento estudantil sempre fez questão de ressaltar: os meios importam tanto quanto os fins. É inegável que a direita, nos últimos anos, tem crescido e se organizado. A questão importante, agora, é o que faremos para combatê-la politicamente. O terrorismo é, de todas, a pior tática. A política do medo é criticável sobretudo porque pode trazer resultados nefastos para o movimento estudantil. Por exemplo, como a estória nos ensina desde que somos crianças, é por criar ameaça quando ela não existe que acabamos ignorando a ameaça real. A questão, então, é se acreditaremos quando o lobo realmente bater à nossa porta. Superestimar a direita agora, inconsequentemente, pode significar subestimá-la depois, a um preço terrível.

Assim, devemos nos voltar à análise crítica dos conteúdos programáticos, isto é, em vez de nos precipitarmos com as opiniões que já damos por certas, tal qual aquela clareza que cega, convém termos a honestidade de ouvir uma proposta e saber criticá-la por seu conteúdo, e não por qual grupo político a apresenta. A luta contra a direita não tem que se dar somente entre as chapas internas do movimento estudantil, mas, sobretudo, entre a política de direita do Governo do Estado, representada, na nossa universidade, pela figura do reitor e suas políticas administrativas, e a política de esquerda do movimento estudantil, sindical e de docentes, que luta por uma universidade de fato pública e de qualidade.  Não negamos o avanço da política de direita no movimento estudantil, mas temos claro que a real luta dos estudantes e a real união da esquerda não foram nem de longe representadas nesse processo eleitoral, nem levadas a cabo, na prática, por nenhuma das chapas.

Resultado das Eleições para o DCE
100% das urnas apuradas (58 de 58)
13.134 votos contabilizados

Totais:
Não vou me adaptar: 6.964 (51%)
Reação: 2.660 (19%)
Universidade em movimento: 2.579 (19%)
27 de Outubro: 503 (4%)
Quem vem com tudo não cansa: 254 (2%)
Brancos: 46 (0%)
Nulos: 128 (1%)

Fonte: http://usplivre.org.br/2012/03/30/apuracaodce-usp-2012-parciais/

Junho/2012

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