Trabalho de base

Por Duanne Ribeiro

Em 22 de março a Filosofia realizou uma paralisação de aulas. A ação havia sido decidida em assembleia como parte do calendário de mobilização do curso. Essa mobilização é, pelo menos em parte, uma extensão da greve do ano passado, e pretende “trabalhar a base” (nos cursos) as condições de reivindicação. Cumprindo a decisão, o CAF e uma série de alunos interromperam a aula do professor Márcio Suzuki à noite — a interrupção desencadeou um evento interessante.

Os alunos em aula foram chamados a um debate sobre a estrutura de poder da universidade — era a atividade prevista para a paralisação, uma apresentação do Grupo de Estudos Sobre a Estatuinte a respeito desse tema e das mudanças nas regras da pós-graduação. A conversa acabou ocorrendo, teve cerca de três horas e foi bastante rica. Não é esse o meu tema; quero me restringir aos primeiros momentos da interrupção.

Uma discussão começou entre os paralisadores e alguns alunos. Um deles se pôs a discutir a legitimidade da assembleia e as ações do movimento estudantil (ME), criticando a origem mesma da paralisação. Notando que vários erguiam a mão, um estudante que acompanhava o CAF se dispôs a organizar a ordem de fala, listando inscrições — como em assembleias. Aquele aluno então se indignou: “Quem te escolheu para coordenar? Alguém o elegeu?”. Como havia a atividade, alguém do CAF pediu aos presentes que fossem ao debate. Outro aluno disse: “Mas estamos conversando aqui!”. De um lado, se argumentava que esse era o motivo da paralisação; do oposto, que a discussão iniciada ali era de igual relevância.

Mas eram determinações coletivas feitas pela instância deliberativa máxima dos estudantes de Filosofia. Era um planejamento anunciado pela entidade representativa desse curso, que foi eleita por voto. Era apenas uma sugestão de organização baseada em práticas correntes. Por que essa oposição? Por que a indignação?

Algumas respostas comuns poderiam atribuir esses eventos a um desinteresse político (que seria uma explicação ruim, já que estavam agindo politicamente), ou a uma contrariedade reacionária (que seria simplista), ou à incompreensão da rotina do movimento (que talvez seja otimista e até prepotente demais). Penso que um caminho mais fértil de análise é este: o denominador comum desses desacordos é o sentimento, por parte dos alunos, de estarem acuados pela racionalidade própria do ME. Como se seu campo de ação fosse determinado, previamente e sem seu consentimento, por essa racionalidade. Como se pudessem falar, só que em um local designado para tal, dentro de um sistema de inscrições, de um arcabouço.

Não discuto se estão de fato acuados. Se pudermos concordar que essa é a postura subjetiva desses alunos, é bastante. Como se forma esse sentimento? Nos casos em pauta, parece ser como segue. É tomada como premissa a regra de inscrição. Só que não há motivo para ninguém aceitá-la a priori; seria necessário propô-la ao grupo e esperar pela concordância. É tomado como fato dado que o debate do dia será o planejado. Porém surgiu ali um fórum que se quer independente. Não será absorvido, não absorverá. Seria necessário descobrir as áreas de contato entre ele e nossos propósitos.

Isto é, esse sentimento se formaria do ato de pôr uma pessoa em posição e sob expectativas que são discrepantes com sua autoimagem. E evitá-lo significa partir não do que esperamos de alguém já definido pelas nossas suposições, mas da  situação própria do outro. Talvez seja esse o sentido profundo de trabalho de base.

Junho de 2012

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