Beleza, machismo e erotismo

Por André Scholz

(Diálogo: o texto de André Scholz dialoga com as crônicas “Beleza, Nudez e Erotismo” e o artigo “Amar a Mulher, Amar o Desejo – Notas sobre Literatura e Psicanálise”, de André Paes Leme, publicadas na edição nº 0 deste Jornal)

 

A mulher não existe… Porque a mulher não é espécie, é gênero! Somos todos mulheres!
Caminhava pelo nosso prédio depois de conversar com uma amiga. Ela achou machistas os textos de meu xará, publicados na última edição deste mensário. Me pego na reflexão: por que machista? Que existe um pensamento machista que permeia as relações humanas, não resta dúvidas (ver, por exemplo, o texto de Marisa Lopes, “Para a história conceitual da discriminação da mulher”). Que há um ímpeto de transformar a mulher em objeto, igualmente. Estapafúrdio seria supor que inverter a relação findaria com sua existência: o machismo é uma relação.
Andando até o prédio da história, começo a observar um rapaz que surge no horizonte. Como erotizar o homem? A sensualidade do homem incomoda, ainda mais se notada por um igual. A habilidade poética, tão evidente no texto de meu colega, me falta. A natureza não é generosa, mas reproduzo como posso.
Os seus cabelos o incomodam e, desavisadamente, seus dedos tentam mantê-los atrás das orelhas. O ato inocente, despido de qualquer intenção sexual, é erótico, um convite. A cor profunda de seus olhos se destaca em um rosto com uma barba revolta, e a sutileza do toque do cabelo se contrasta com a aparência levemente selvagem que inadvertidamente ele cultiva. Seu corpo é esguio e a camisa um pouco aberta monta um quadro provocador. Seus pelos despertam o tato, convidam para brincar com eles assim como ele brincava com o seu cabelo. Seus braços fortes foram feitos para o enlace. Cada vez mais próximo, vislumbro seus detalhes. Em um canto da testa há uma cicatriz, mas ela não é suficiente para arruinar o quadro. Ao contrário: a sua existência lhe confere autenticidade. Ela tem a sua história e o seu mistério, é mais um elemento para despertar o desejo. Sua roupa, com marcas de suor, exala virilidade. O masculino tem seus segredos: a curiosidade faz pensar como será a forma de seu sexo. O pênis, sempre presente nas expressões cotidianas, causa desconforto quando tratado como objeto de desejo. Dizem que é vulgar, mas creio que se assustam porque é real. Alguém se aproxima. Ele sorri. Os dentes imperfeitos criam um sorriso genuíno, perfeito, descentralizador. Há algo mais sublime que a alegria estampada em sua face? Por um breve momento fico a alguns centímetros de distância de meu objeto, mas ele passa fugazmente. A vista, porém, não termina. Suas costas e suas curvas têm a sua beleza. Podem ainda ser admiradas sem o medo de ser percebido. Os cabelos bagunçados, o gingado e as suas formas não deixam de ser instigantes. A despreocupação no seu andar é signo de uma segurança deliciosa. O corpo, ainda que escondido, não perde a sua nudez, mais interessante porque escondida. Agora distante, ele se perde no horizonte do que passou. Em uma palavra, ele era absolutamente lindo.
Volto à minha reflexão. A natureza – não posso deixar de novamente constatar – não distribui igualmente as suas forças. Alguns tão belos, alguns tão feios… penso, a princípio. Em outro dia talvez não perdesse alguns momentos de minha tarde admirando o rapaz que passou. Mas foi um momento perdido? É motivo de uma epifania: se a natureza não é generosa, não devemos ser generosos com ela? A beleza pode ser encontrada onde menos se espera, onde não se olha. O outro não é para mim um objeto, mas uma ocasião de fruição. Sublime como é, tratá-lo como objeto seria um desrespeito formal. Observar a beleza é um ato de machismo? Ser capaz de reconhecer no outro – em qualquer outro – a sua beleza me parece antes um ato de amor. Um amigo hegeliano lembra-se de Kant, num momento de lucidez: o sublime inspira respeito. Em tempos que se fala tanto de sexo (mas pouco se faz) o encontro do belo no cotidiano parece perversão. Será que é?

Agosto de 2012

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: