Brasil: um país de “Zés”

Por Ivan Nizer

Hoje o que me parece é o desvirtuamento vulgar e superficial daquela ideia aristotélica de que quem não se interessa por política é dominado por quem se interessa. Participar de política não é tratar de assuntos pessoais. E não me dirijo aos políticos, porque esses são naturalmente criaturas movidas a poder e corrupção. Me refiro ao cidadão comum. Me é peculiar e até cômico notar que pessoas cotidianamente apáticas e indiferentes politicamente, em período eleitoral tornam-se “analistas políticos”, “cidadãos exemplo” e outras bizarrices. Trata-se na realidade de uma constatação microcósmica de um fenômeno político global: a transformação da política num negócio pessoal. A pessoa que tem um terreno apoia o candidato que promete asfaltar aquela rua (devido à valorização imobiliária), o artista que tem um projeto apoia o candidato que, se eleito, se compromete a lhe fazer secretário(a) de cultura, o “zés” apoiam quem der um emprego (comissionado, é óbvio) para ele, amigos e família, enfim… E na raiz desse grande momento de participar do negócio chamado política, que ocorre a cada eleição, lá estão de um lado os “zés” tentando salvar politicamente a tragédia das suas escolhas pessoais de vida e a constituição federal de 1988, autorizando os criminosos cargos em comissão, de outro. Mero detalhe: no atual regime jurídico-administrativo, o Presidente(a) do Brasil tem 60.000 cargos em comissão (ele pode NOMEAR 60.000 PESSOAS LIVREMENTE). Imagine o que pode fazer o prefeito de São Roque-SP (cidade de 80.000 habitantes, longe dos holofotes da grande mídia), por exemplo… O Poder Judiciário editou a súmula vinculante nº 13 (proibindo toda espécie de nepotismo na máquina do Estado brasileiro). E DAÍ ????? Logo, a versão moderna do pensamento de Aristóteles de se interessar por política, na verdade, hoje se traduz em se afastar da política, pois na feira há mais ética, respeito e costumes populares. Enquanto a farsa do voto obrigatório se mantém, no dia das eleições vou votar de novo no “Issac Newton”, e depois voltar pra casa, tomar um vinho, assistir a última temporada dos “Simpsons”, dar um pulo na piscina do clube, ligar para uns parentes, tomar um chopp com um amigo e conversar com as pessoas no caminho: ou seja, conviver eticamente com as pessoas, porque isso sim é se interessar por política.

Agosto de 2012

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