Com a palavra, as vadias

Por Mariana Luppi

Compareci no dia 26 de maio à marcha das vadias de São Paulo. Não trato esse texto como uma reportagem, uma vez que não entrevistei pessoas, nem tirei fotos próprias, mas achei importante, mesmo com certo atraso, comentar a manifestação.
A primeira Slut Walk ocorreu no Canadá no ano de 2011, em resposta a um policial que, no contexto de aumento dos estupros na Universidade de Toronto, pediu que “as mulheres evitassem se vestir como vadias (sluts, no inglês original), para não serem vítimas”.
A manifestação paulista desse ano é de grande interesse para se refletir sobre aspectos da cultura machista os quais em geral são pouco considerados, nublados pelos direitos sociais alcançados pelas mulheres no século XX, os quais criam uma ilusão de igualdade na vida social presente.
É importante destacar algumas das palavras de ordem da manifestação, que tratam de forma ampla a luta contra o machismo. Antes, no entanto, devo fazer uma ressalva: o ambiente acadêmico, intelectualizado, não está livre do machismo. Por vezes, no ambiente do nosso curso parece que o machismo é algo ultrapassado, produto de mentes ignorantes. É fácil observar o problema com olhos pseudocientíficos (e um pouco de preconceito de classe) e dar ao nosso próprio machismo licença poética.
Tratemos então de reivindicações da realidade, que eu selecionei de cartazes e divulgação na internet:
Acredite, minha saia não tem nada a ver com você: a noção de que o homem está no centro da vida social exige que se pense que todas as ações da mulher estão voltadas para ele. Historicamente, em muitas culturas a mulher sempre precisou (e em muitos lugares ainda precisa) estar sob os cuidados de um homem (pai, irmão, marido, cafetão). Embora essa realidade pareça distante da nossa, o comportamento (as roupas, as ações, as palavras) da mulher continua em geral sendo interpretado como voltado para o homem. O pior é que o estupro e o assédio são por vezes justificados com base nesses comportamentos, e as mulheres são educadas para se vestirem de formas que não “provoquem” essas atitudes dos homens. Mesmo que não haja consequências mais graves, apenas julgar os desejos sexuais das mulheres pelo que elas vestem já demonstra como há uma tendência a pensar que as mulheres não têm nada mais a expressar com suas roupas e suas ações do que a relação com os homens.
Menos violência, mais orgasmos: a violência contra a mulher continua existindo, em todas as classes sociais, porque, ao contrário do que se poderia imaginar, ela não se baseia em nenhum tipo de falha na educação formal, mas sim na compreensão, novamente, de que o centro da vida da mulher deve ser um homem. A mulher lhe deveria, então, obediência e fidelidade. Procurando não simplificar uma situação variada, é possível fazer essa generalização. O motivo pelo qual é grave que um homem bata em uma mulher não é sua suposta fragilidade e caráter indefeso, mas o fato de que essa violência se fundamenta na noção de que a mulher é sempre uma propriedade de um homem. Assim, mesmo que não se chegue à situação de violência, a construção de um relacionamento centrado no homem é o problema. Por isso a palavra de ordem pede “mais orgasmos”. O prazer e a satisfação feminina não são em geral objetos de preocupação dos homens, o que torna ainda mais unilaterais os relacionamentos.
Nem santa nem puta, livre: O machismo dita que a mulher não deve procurar prazer, as mulheres que buscam satisfação sexual, que querem sentir prazer, que não querem ter suas vidas centradas em um ou mais homens são tachadas de vadias. Ainda hoje, dois paradigmas mitológicos parecem definir as mulheres, pelo menos no campo de seus comportamentos sexuais: Maria e Madalena.
A liberdade sexual da mulher não cabe nesses paradigmas, e em geral os homens ainda não conseguem entendê-la. Ela ainda é entendida como vadiagem. Ecoando mais uma palavra de ordem da marcha, se ser livre é ser vadia, somos todas vadias.

Agosto de 2012

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