Da impossibilidade de heideggerianismo autêntico no Brasil

Por Gabriel Philipson

Espero que o jornal possua vida longa. Contribuo aqui com reflexões inspiradas em meu período de intercâmbio, a fim de que seus frutos não se restrinjam apenas a mim.

O título é polêmico e os polemistas de plantão certamente direcionarão suas honestas críticas ao que chamarão de um intuito do autor de meramente polemizar, afirmando que a polêmica pela polêmica reside no terreno da aparência.
Antes de deixarmos ao léu essas vozes carolas que defendem a profundeza argumentando em águas rasas se faz necessário apontar como elas já se movimentam em terreno arreado pelo pensamento de Heidegger – para os não crentes, que assim se caracterizam acreditando haver uma seita heideggeriana no mundo, a situação atual é tal que até eles precisam sapatar Heidegger para ver se encontram algum terreno para seus semeares ao vento: esses são os heideggerianos às avessas, assim como Pascal e Merleau-Ponty são cartesianos em aparência e profundidade.
Esse domínio absolutista do pensamento de Heidegger parece ser antagônico com a outra tese defendida aqui da impossibilidade de ser heideggeriano no Brasil. A princípio nada é mais fácil do que repetir os dizeres de alguém, ainda mais em um país cuja sina nada expressa melhor do que a esforçada Portuguesa de Desportos, e em que os intelectuais, salvo raras e ótimas exceções, se contentam mais em reproduzir um autor do que em o pensar. Ora, nesse ponto, é verdade, os sabiás e papagaios de nossa terra possuem sua elegância de tal modo que em terras estrangeiras sentimos a ausência da fauna canarina. As críticas que tem sido feitas no exclusivo alto círculo intelectual brasileiro de Heidelberg, concentrado no simpático clube de capoeira, parecem ir nesse sentido: aqui não se papagueia como em nossa terra, e as discussões em aula não são profundas, pois ninguém leu o autor profundamente como no Brasil. É de se notar novo uso da categoria de profundidade e aparência para fácil desqualificação sumária do contato com o outro que o desafia a pensar para compreendê-lo. Fica-se a pensar como é que a fauna daqui caracteriza as papagaiadas verde-amarelas.
O caso Heidegger, no entanto, é especial. Não apenas do ponto de vista das polêmicas em torno de seu nazismo e antissemitismo, reativadas de tempos em tempos para a felicidade do mercado editorial, mas também do ponto de vista das plantações de seu semear. Quando falo da impossibilidade de ser heideggeriano no Brasil falo da impossibilidade de papagaiá-lo autenticamente, o que não exclui a já corrente possibilidade de papagaiá-lo em um outro sentido, de realmente repetir ipsis literis sua forma. Quando falo de papagaios, de ‘ismos’, me considero inclusivista, pois penso que o papagaio humano também é capaz de reproduzir um conteúdo com sua própria forma. A repetição – e agora não faço uso da diferenciação entre forma e conteúdo – é sempre uma descontinuidade em relação ao original. O neokantismo é o exemplo mais triste disso, enquanto o neoplatonismo o mais frutífero. A filosofia, contudo, é em certo sentido nada mais do que esse fenômeno. Como as mônadas leibnizianas que se refletem e refletem o refletido, o refletido do refletido, e assim por diante, assim caminha a filosofia em sua história e cada pensador, como espelho, é reflexo dos outros pensares, assim como de seu tempo e para o seu tempo. Heidegger, como talvez um dos filósofos que mais se debruçou sobre os historiadores da filosofia, não foge desse exemplo.
Há tanto em Heidegger de Platão, Aristóteles, Hegel, Kierkegaard, Nietzsche, Husserl, Dilthey… É justamente a sua imensa capacidade de reflexão que me permite voltar a afirmar o domínio de seu pensamento ainda na atualidade. A sua reflexão como interpretação do passado e de nosso tempo é paradigmática para as nossas reflexões, principalmente porque nossas reflexões se baseiam seja diretamente em seu espelho, seja em espelhos por ele espelhados. Aqui cabem alguns nomes já clássicos da filosofia contemporânea, os quais incluo de cabeça seja por serem diretamente influenciados por Heidegger ou por criarem polêmica com ele: Foucault, Sartre, Merleau-Ponty, Hannah Arendt, Lacan, Derrida, Deleuze, Lebrun, Rorty, Quine, Carnap, Escola de Kyoto, Gadamer…
Contudo Heidegger como espelho não se comporta como outros semeadores da história da filosofia. É que seu pensamento, por negar a metafísica e refletir Hegel e Nietzsche, possui um apelo ético mais forte do que muitos. Se sua entrada tardia no departamento de filosofia da USP se dá como o Platão do aristotélico Wittgenstein, esse Platão que se quer ver nele, a fim de lhe dar um carimbo de ‘estudável’, graças ao seu profundo conhecimento de lógica, que estranhamente tão tardiamente foi ‘descoberto’, só pode ser um pós-antiplatão, na medida em que suas sinalizações, ao negarem a verdade platônica como representação e a elevação de ‘bens e posses’ a substância ou essência como o como do sendo em Aristóteles, indicam outro caminho e caminhar. Isso pode ser compreendido quando se salienta o seu elogio aos pré-socráticos: a volta a eles, ao momento do pensamento poético, é tanto uma tentativa de destruir o jogo de espelhos da filosofia, quanto de semear não mais monoplantios, mas florestas.
Uma pergunta fundamental a se fazer aos filósofos é: a quem se dirigem? A quem, no caso, indica Heidegger uma outra via? Acredito que poderia responder: ao povo histórico de sua Heimat.
Esse povo histórico pode ser tanto entendido em sentido estrito quanto largo. Largo é o mundo ocidental que antes é iniciado pela filosofia do que ela inicia. Como parte da ocidentalidade não haveria porque não nos incluirmos como seus interlocutores privilegiados e procurar propagar, mesmo que de outra forma que a tradicional, o pensamento de Heidegger. Contudo, de modo estrito esse povo histórico é o europeu, composto principalmente pela junção de três categorias: o grego, o romano e o outro assimilado historicamente aos domínios do império, ou seja, os bárbaros (que já foram desde os macedônicos na Grécia, os judeus e cristãos em Roma, até os árabes já na Idade Média). Em certo sentido, o que eu estou propondo aqui é que o Brasil como metonímia da periferia do centro do império sistêmico ocidental da atualidade permanece barbárico. Ao chegar em Heidelberg participei de uma palestra de boas vindas da universidade em que recomendaram aos alunos estrangeiros: ‘quando em Roma, faça como os romanos’. Pode-se ver o protecionismo de fluxo de pessoas presente no centro do sistema atual sob essa visão como uma lição oriunda da queda do Império Romano, na medida em que é uma forma de manter as fronteiras povoadas e funcionando sistemicamente.
Mas não só aos olhares ingênuos de quem vive no centro rico do formigueiro humano vê-se o barbarismo no Brasil. A incapacidade de forma que se fala no campo teórico atual da literatura no Brasil é talvez a visão mais contemporânea dessa sensação. Ela é, como oriunda do pensamento de Bosi, fruto de uma apenas indicada comparação com o russo. A Rússia é para o europeu o arquétipo do outro, do bárbaro que quer ser europeu. São Petersburgo talvez seja o símbolo máximo disso, e Brasília, como cidade planejada para estimular o progresso, não deixa a desejar.
O progresso é o símbolo da ocidentalidade: é a ele que Heidegger se dirige. O heideggerianismo no Brasil, centrado na crítica de Heidegger à técnica e a uma tentativa de o usar para fortalecer um discurso exotérico, age nesse ramo de interpretação. Mas esse, embora necessário, é um heideggerianismo fraco ou ainda não autêntico, na medida em que não absorve todo o sugo de sua fruta. E não porque haja uma compreensão equivocada de Heidegger, mas, pelo contrário, porque não se refletiu o barbarismo que é o Brasil.
O barbárico do Brasil impede o heideggerianismo em sentido forte no Brasil por causa da eticidade do pensamento heideggeriano. O campo ético é o campo da prática, e a prática indicada por Heidegger não nos é dirigida. Aqui é preciso se pensar à brasileira. Esse modo de temperar limitou-se à literatura em sentido amplo, mas a filosofia em sentido estrito manteve-se sempre como um baluarte de estrangeirismos. O heideggerianismo seria apenas mais um, não fosse a sua peculiaridade que vem à tona.
Se em sentido estrito o heideggerianismo só pode ser tomado a sério pelos habitantes da Floresta Negra – e nem os filhos de grandes cidades europeias poderiam assim se reivindicar –, pode parecer que o discurso da peculiaridade brasileira é um discurso nacionalista, e por isso em terreno heideggeriano, na medida em que se dirige à sua Heimat. Mas não é preciso ir tão longe na busca por mal entendidos: meu objetivo com esse artigo era justamente mostrar que tanto é preciso se debruçar sobre Heidegger no Brasil dada a sua massiva influência sobre os autores contemporâneos, quer dizer, no próprio terreno do jogo da filosofia, quanto isso não pode significar um heideggerianismo e nem é suficiente para o pensamento brasileiro. As nossas palmeiras não são as mesmas árvores que rodearam Heidegger na Floresta Negra.

Agosto de 2012

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