Dois dedos enforcados de prosa

Por Caio Sarack

“Vi as lágrimas dos oprimidos, mas não há quem os console; o poder está do lado dos seus opressores, e não há quem os console.”
Eclesiastes

Quando o último amante morrer enforcado nas tripas do último homem livre.
– Pedrão, ouve isso aqui. Imagine um rapaz que está de cócoras e em volta do seu pescoço existe uma corda. Agora, assumindo a visão do rapaz, que é limitada (completamente restrita pela corda) se estendem um par de pernas e esta corda segue a altura delas. Tem uma dimensão? Quanto tem de comprimento? Aliás, a corda tem comprimento? A resposta parece clara, existe sim um início e fim dela. Seguindo um cálculo simples e de primeiro grau poderíamos colocar: x cm = dimensão da corda. Melhor! Se colocarmos em uma régua, numa reta coordenada, teríamos facilmente o ponto zero: meu pescoço; final da corda: x cm. Ora, minha reflexão: como pode alguém que está dominado pela corda olhar para cima e ver onde ela termina? Pode ter semelhança no que narrei com o Beckett…não em qualidade, claro, mas em assunto… No entanto é assim que eu vejo o espelho do social.

É este o modo que vejo o som e a fúria da vida serem direcionados e transcorridos pelas paredes da corda. A vida mantida.
– Rapaz, acho que isto – estarmos envoltos por ela – não é muito o que nos impede de ver o comprimento da corda. Não será que esta corda não existe, Enoc? Será então pior o nosso tormento: somos nós os pontos de origem da tal régua coordenada e de tal maneira apertamos nossos pescoços como que abotoamos a camisa? E não afrouxam… Mais do que isso, já que chamou Beckett pra conversa, eu tenho dever cívico: chamo o minerinho de Itabira e a suas especulações: que o homem sabe de si pra falar das suas criaturas? A corda distante, longa em volta do seu pescoço é, se não é me repetir sobre os botões, seu conflito dado? Não é do homem, “como quer ser destino, fonte”, perecer e vencer diante de si mesmo?
– Pedrão, mas me explica uma coisa. Não é simples, mas tenta ver se você fica tão inquieto quanto eu. Eu estava nas páginas, amareladas pelo tempo, do Agostinho. O tempo marca, rasga e queima. E vi que lá, Deus, em toda sua Grandeza e Simplicidade simultâneas, nos fez com vontades. Mas que Deus é este, Pedro, senão uma corda? Que pulsa nervosa com nosso sangue: a corda parece ter ela sangue nas veias a medida que vai apertando nosso pescoço. Chegamos a ouvir a corda, senti-las no ouvido. Se há na pulga mais perfeição que no homem, há na corda também esta diferença conosco. Não é ela que torce em si mesma sua força, mas no desespero do homem.
– Enoc, tentemos entender juntos isto… O desespero não pode ser a tal corda, o que eu falei de perecer frente a si mesmo, é o homem dado em conflito. É na fome que comemos e é não podendo comer que roubamos o fruto da árvore do bem e do mal. A saciedade é boa, o estômago cheio não questiona a procedência do banquete. Há no desespero do homem algo que mostra os nossos nós, não que ele seja a corda. Quando Deus cooptou a morte de toda a nação do pecado, elegeu a cidade dos peregrinos: o novo mundo: como pode, no cume da Vossa Onisciência, não ouvir os gritos de súplicas dos condenados, das crianças e amores legítimos dos amantes que lá se enredavam? Os banquetes interrompidos, para que um filho do grande pecado, Noé, e seus filhos eleitos fossem viver o escárnio do Mundo, criado fora da eternidade, marcados para a vida e morte do Messias. As portas da Arca são as marcas de Cristo. Tentou nos trazer a salvação, Enoc. Eu me pergunto, em que o desespero do homem o amarra na ira de Deus? O desespero é o afrouxar desta corda? A salvação morreu afogada com o primeiro morto do Dilúvio. Tem de haver as implosões das arcas.
– Desesperemo-nos cada vez mais? Mas isto, Pedro, não é perder sua estabilidade? Como o homem ama e faz filhos sem a calma da família? Nada pra você é construir? Só há implosão?
– Não sejamos assim simplistas, se eu falei que o desespero é a morada da liberdade, não é por ser um local; com porta e tranca, mas como um homem e uma mulher que transam na cama improvisada. Sem interesse igual, vão se descobrindo. Imagine que ela encontre nele algo que a incite tensão, e ele veja os seios fartos, toque neles. Ambos interessados, no meio do sexo, vão se cavando um o outro, vivendo a dureza do sexo, ele dentro-ela cora. Morde, lambe o pescoço. Ela mostra os olhos, vira o rosto para o lado, ele inunda os dedos, vão juntos. Ele cora, sua. Ela treme e se toca. Entende, Enoc, que coisa como desespero não necessariamente tem fim em si mesmo, mas sim nos mostra as beiradas do abismo?
– Mas essa corda não parece afrouxar. E a corda, Pedro?
– Da corda, é verdade… Eu sei tão pouco, parece que ela é parte extensa minha, uma excrescência. E como qualquer coisa em mim, jaze a vida. É circunstância.
– Encontro as cordas. A natureza incidiu sobre elas suas raízes e ramos, como uma trepadeira que nos ilude a parede e parece que lá só há folha e vida.
– Enoc, você me fez pensar numa coisa. E se nós somos essa parte sem vida da corda? Somos, eu digo, não de forma essencial, “nascemos e somos fadados”, mas que esta corda drenou a vida que nos foi dada no nascimento. Lembro no gauche na vida a primeira noção deste dreno. O nó no pescoço é um germe de semente daninha, de comigo-ninguém-pode vistosa e bonita, mas – mesmo que seja nociva e mate o que lhe ronda – é orgânica e criatura de Deus. O parasita veste a roupa de comensal!
– E mais do que isso, Pedrão… Acho que esta corda é a simbiose. Um adorno infeliz que cravou feito a coroa de espinhos do nosso Senhor. É impossível pensá-Lo sem o sangue lhe escorrendo o rosto, mesmo que o sorriso apareça. A corda era comensal… o tempo, que também amarelou as páginas do bispo que estava lendo, fez a corda comer as sobras… mas depois fez comer o banquete até drenar a nós que íamos sentar pra janta. Mas, Pedro, a corda não tem saciedade, ela não enche o bucho.
O riso afoito de ansiedade. Sempre se foge do silêncio, porque é lá que a corda estreita.

Agosto de 2012

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