Organizados e independentes, ou um pouco antes

Por Marcelo Soares

Entre as obviedades que mais precisam ser resgatadas nesses dias é que cada ser humano exprime uma percepção do mundo. Esse fato, quando destacado em algum discurso, normalmente o é para relativizar opiniões e situá-las todas em um mesmo nível horizontal — afinal, “cada um tem sua opinião”. Minha intenção é outra, no entanto: mostrar que a desconsideração dessa asserção óbvia condiciona o comportamento político, seja de militantes da USP, seja em considerações sobre as eleições que se aproximam. E isso ocorre muitas vezes conscientemente por vaidade, aquele julgamento de deter uma opinião esclarecida, ou inconscientemente por – digamos – um descuido com a argumentação, uma vez que já se adquiriu um hábito de pensamento.
Cada pessoa tem um ponto de vista do mundo porque essa visão consiste no destaque de certos elementos em detrimento de outros, um processo individualmente único e sobre o qual, no limite, temos muito pouco controle. Esses elementos são autores com que tivemos contato, aqueles cuja obra lemos um pouco mais, professores e aulas que marcaram, filmes, amigos, família, acontecimentos relatados jornais e sites, fatos resgatados em livros, assim como a maior ou menor repetição desses elementos em nossa imaginação. Uma historiadora, por exemplo, que afirma ser a economia o motor da história, dará realce ao fato de que foi o Ministério do Tesouro o primeiro a ser criado na Inglaterra, em 1066. É certo que essa opinião não se dá ao acaso, “agora vou acreditar que são as relações econômicas que pautam as mudanças históricas”, mas convém lembrar que se trata de causalidade recíproca: assim como certos fatos históricos e certas leituras desses fatos fizeram com que aquela historiadora formasse sua posição, essa visão também e simultaneamente faz com que ela dê destaque a certos acontecimentos e os leia de determinada forma.
Assim, aquela consideração de que “a USP é uma bolha” deixa de ser mera frase de efeito contra nós, playboys e intectuaizinhos de esquerda, e se mostra como problema sério: levamos verdadeiramente em conta a forma como somos reféns dos limites de nossa percepção do mundo? Esses dias, tenho estudado com maior afinco a posição política do PT e do PSOL no contexto atual, e ainda há muito a ser lido. E se eu soubesse como é a atuação do PT em algum estado do norte, por exemplo? Não é necessário ir tão longe: se eu tivesse mais informações sobre as eleições em certa cidade do interior do estado? Ou mesmo Campinas! E se eu tivesse informações sobre as zonas leste e sul de São Paulo, por exemplo? Enfim, se o conhecimento desses lugares mais ou menos distantes fosse tão imediato quanto o é de acontecimentos da USP ou de algumas regiões da cidade, minha visão de mundo decerto se alteraria, mesmo que pouco estruturalmente, havendo ainda certo grau de resistência a abrir mão de algumas verdades às quais já me acostumei.
Nesse quadro, a necessidade de unidade no movimento estudantil não pode ser mero discurso bonito e bem recebido, mas própria condição de decência na atuação política.
É reconhecido que um problema central do movimento estudantil da USP é sua fragmentação em grupos, muitos ligados a partidos, que disputam a gestão do DCE e de centros acadêmicos, falas em assembleias e outros espaços da universidade. Não se trata, aqui, de uma “briga entre organizados e independentes”. A organização em coletivos gera vantagens que não se deve menosprezar: por exemplo, a possibilidade maior de aprofundamento de ideias, uma vez que se trata de poucas pessoas e que conseguem se ouvir (em contraposição ao caráter supostamente democrático de assembleias e de alguns debates) e a possibilidade de atuação mais articulada, com divisão de tarefas e atuação em diferentes espaços (o que é evidentemente um problema quando fora de medida). O problema dos grupos consiste no que foi levantado por este texto: dado que se frequentam as mesmas reuniões, em geral com as mesmas pessoas, acostumam-se com as mesmas ideias e os mesmos métodos — e quando pessoas de diferentes grupos se conversam, sente-se um ar de negociação. A existência de grupos significa que no movimento estudantil há um rico conhecimento de diversas realidades: o coletivo A está sempre em contato com algum movimento social de periferia, o coletivo B tem experiência com o trabalho em câmaras e gabinetes, o grupo C tem um setor em outra cidade e está em constante diálogo com ele… Grupos organizados não aparelham entidades por vontade consciente, mas por acreditarem demais no que falam e repetem. A disposição para o diálogo não deve ser negociação, mas reconhecimento dos limites de sua visão de mundo — em outras palavras, o velho problema: quanto mais nos esclarecemos, mais tendemos a achar que estamos suficientemente esclarecidos.
É natural que façamos piadas e comentários viciados sobre outros grupos, mas saibamos ter cabeça fria no momento de fazer política. É uma pena se interpretarem minha postura anti-sectária e anti-bairrista como ingenuidade. Em relação à USP, perdemos muito por vaidade e por não sabermos conversar. Além disso, quem se diz “militante” se acostuma com aquela racionalidade própria do movimento estudantil que acua os outros estudantes, como Duanne Ribeiro pôs em questão em seu texto “Trabalho de base” na edição anterior desse jornal. Perdemos também a possibilidade de contato com perspectivas muito diferentes e não damos valor a debates estudantis que acontecem na FEA e na POLI, por exemplo, que são igualmente importantes aos debates sobre repressão política e militar organizados por aí.
Quanto às eleições, sabemos que o contexto em que estamos é bastante complexo. É preciso resgatar a memória e não nos desviar “da indeterminação e da incerteza, características fundamentais do movimento histórico, em nome de uma estabilidade ilusória”, como foi um dos apontamentos de Rafael Zambonelli na edição anterior (em “Do cinismo no movimento estudantil”). Mas entendo que, apesar disso, no fim temos que momentaneamente escolher um partido ou candidato e apertar o botão. Entretanto, o voto é apenas um dos pontos da discussão, não pode ser o fim da conversa: “Mas então, em quem você vai votar?” Assim a vida fica mais chata, sei bem, algumas piadas começam a perder a graça e fica mais difícil trabalhar os argumentos. Mas me parece que maturidade é assim.

Agosto de 2012

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