Os livros felizes não têm História: Juliana Bernardo e sua Carta Branca

Por André Paes Leme

“Um amigo andava desesperadamente atrás de um livro, mas
não conseguia encontrar em lugar algum. Após meses de busca,
passando pela Grand Central Station em Nova York, avista
uma moça que lia exatamente o cobiçado livro. Aborda-a. Conta
que andava atrás do livro e pergunta onde poderia encontrá-lo.
Ela diz que o livro é maravilhoso. ‘É para você’, disse. ‘Mas é
seu’, disse ele. ‘Era’, respondeu ela, ‘mas terminei de lê-lo. Vim
aqui hoje para dá-lo a você’”
Paul Auster

 

Certamente seria esta uma boa maneira – a descrita por Paul Auster – de se chegar aos versos de Carta Branca, o instável e saboroso livro de estreia da poetisa (e colega de depto) Juliana Bernardo. A instabilidade a que me refiro fica por conta dos sobrevôos que retiram ao leitor toda a pretensa segurança de um solo conhecido. Ler Juliana Bernardo é sobrevoar pequenos mundos desconhecidos que nos embalam o cotidiano. Poesia simples, versos limpos, comedidos, livres tanto na métrica quanto na vida, “uma suspeita de amor maior que morte“. Versos saborosos, sim, como o prazer de sentir que “só o tempo livre voa”.

“Como existir e ter palavra nesta história, em que a mulher mais bonita do mundo só conseguiu provocar uma guerra?” pergunta-se a talentosa Ana Rüsche, em inspirado prefácio, referindo-se aos versos de Juliana que fazem menção à Helena de Troia. Creio que a própria poetisa responda: “palavra de mulher: homem nenhum morreu de parto”. Amores, ruas, notícias calmas e apressadas desdobram-se das letras e páginas. Um pouquinho mais de ironia para sobreviver e dançar
na ventania. Uma celebração intranquila de cada um daqueles acontecimentos, que tanto entediavam alguém como Valéry, é isso o que leio nas linhas de Juliana. Transar e beber coca cola, há simplicidade maior que esta, na minha, na sua, na vida? A simplicidade grave de olhares que se tocaram, “do abraço das pernas que se desencontravam”. Em Juliana, até a neurose tem lá a sua beleza… Como quem examina de perto o chato nhéc da cama; como num sutil desesperar-se em água e vento: tempestade.

Se o leitor tem a impressão da leveza do vôo, acompanhando uma sílfide a versejar pelos ares, cinemas, jornais e foguetes… a elaboração dos versos lembra muito mais um tremular nas ondas, sem destino que não seja o signo de ondina. Água calma, água viva, do bolso à bolsa Juliana nos dá a estranha e agradável impressão de adormecer nas águas, em um mar de sonhos
recém-nascidos. Um mergulho profundo na sensação de alcançar o céu com um olhar trocado, uma carta não escrita, um papel deixado, uma árvore observada e já perdida: “minha vida água e vinho”.

Se escrevo aqui sobre esses versos que tanto me impressionaram, é porque passa-se algo de parecido com o encontro relatado na anedota de Paul Auster. Entretanto, a despeito de uma possível busca do leitor, trataria-se aqui de apenas dizer: “não confie na memória/ ela é um correio lotado de cartas brancas”. Enfim, escrever sobre Carta Branca é oferecer uma velha sensação, de livro em livro buscada, que quanto mais perto se encontra, mais distante parece.

Mas nem tudo é sentir. Há também ideia fixa, afinal a poetisa sabe: “não há lugar como nossa causa.” O poema que pulsa, que é causa, que existe no ritmo próprio da subsistência; ele resiste para que nós resistamos; poetar é a ideia fixa de sobreviver, de inventar palavras para o que não cabe nelas e assim seguir, tocar, alentar e… viver. Ora, como terminar senão com um pedido: Juliana, cara, faça logo o favor de brindar, com a sensibilidade da sua poesia, este nosso jovem (e ainda um
pouco tímido) jornal da filosofia.

Agosto de 2012

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