Os selvagens são felizes? – Pierre Clastres

Tradução por Juliano Bonamigo

(original: texto inédito intitulado Les Sauvages sont-ils heureux?, escrito em 1965/1966 e publicado em: ABENSOUR, Miguel & KUPIEC, Anne (orgs.). Cahier Pierre Clastres. Paris: Sens et Tonka, 2011, pp. 89-90.)
Os selvagens são felizes? Eis, certamente, uma questão da qual jamais escapam os etnólogos no retorno de suas viagens. E, no entanto, ela quase não possui sentido ao ser colocada evidentemente a partir da ideia de felicidade que possui o questionador, ou que foi formulada para ele. Questão sem resposta, portanto, sem resposta séria em todo caso. Pois para o senso comum a causa já está entendida: o homem das sociedades primitivas vive na infelicidade. Imagem incessantemente veiculada à escassez dos Selvagens nus, sempre assombrados pela angústia de assegurar uma subsistência que a falta de reservas não permite jamais garantir. É preciso, por consequência, civilizá-los, é um dever humanitário… Certeza em verdade, é claro, que não chega a comprometer o pessimismo do ponto de vista oposto: eles são bem mais felizes do que nós! Enfim, a questão é mal colocada, pois ela é uma questão nossa, homens do Ocidente, depois da maldição inaugural: tu ganharás teu pão com o suor de teu rosto.
O que se pode dizer, por consequência, dos selvagens quanto à questão da felicidade? Ela não lhes concerne, eles não se perguntam: nós somos felizes? Eles se mantêm aquém de uma questão que incomoda somente àqueles que viveram, primeiramente, a experiência da infelicidade. Traiçoeiramente, a questão da felicidade se transforma em interrogação a respeito da infelicidade. Pode ser que os Selvagens saibam muito sobre a possibilidade da infelicidade e sobre os meios de conjurá-la, pois se eles se situam aquém ao mesmo tempo do bem e do mal, isso não se deve à incapacidade infantil de pensar essas distinções, como afirma a estúpida tese evolucionista que vê nas sociedades primitivas a infância da humanidade, mas sim à sua recusa decidida do que para eles poderia ser a infelicidade. Sob quais condições evitaremos o que é mal? Tal é o problema dos Selvagens. Como eles o resolvem? Pelo conservadorismo.
Expliquemo-nos. As sociedades primitivas são habitualmente caracterizadas como igualitárias e acéfalas. Em outros termos, elas ignoram a estratificação e a desigualdade (não há classes sociais), elas ignoram toda instância de poder separado e centralizado (elas são sociedades sem Estado). O que elas ignoram, na verdade, é a divisão na sociedade, a divisão entre ricos e pobres, a divisão entre dominantes e dominados. Mas isso não é, de
os selvagens são felizes?
jeito nenhum, apontar para as principais figuras daquilo que nós nomeamos alienação: alienação econômica no trabalho explorado, alienação política na obediência àqueles que comandam. Ora, ignorar a alienação é conhecer, não de maneira abstrata, mas no quotidiano coletivamente vivido, a liberdade. Isso fica claro, posto que as sociedades primitivas sabem muito bem distinguir o bom do mau: elas ignoram a alienação porque elas a recusam, elas a recusam porque elas preferem a liberdade.
Paixão pela liberdade na recusa da servidão: é seu próprio ser que as sociedades primitivas querem preservar ao conjurar o mal absoluto, a infelicidade que será a divisão na sociedade. É nisso que elas se revelam profundamente conservadoras: os Selvagens manifestam uma hostilidade declarada à mudança, pois eles sabem bem que a irrupção da inovação na sociedade não poderá se realizar sem a aparição correlativa da divisão, da desigualdade, da alienação. Daí o discurso que sociedades mantêm sobre si mesmas pela voz de seus chefes: cuidemos escrupulosamente em respeitar as normas outrora fixadas por nossos ancestrais, não mudemos nada da ordem que eles nos ensinaram. Compreendem-se assim as consequências desse imobilismo deliberado das sociedades primitivas: nada há nelas daquilo que consideramos primordial, essa busca em direção ao crescimento econômico, à acumulação e ao consumo de bens; nenhuma luta por um poder que as impede de existir: elas preferem dedicar seu tempo livre aos jogos privados do amor ou às festas coletivas que celebram a amizade.
Os povos felizes não têm história. É disso, de fato, que se trata: tornar impossível a divisão na sociedade, interditar a desigualdade geradora de alienação, manter a sociedade na repetição dela mesma, isso é justamente conjurar o espectro da História, é bem aí que se revela a ideia selvagem de felicidade. Eles dizem outra coisa, esses Índios brasileiros que em 1562 Montaigne interrogou em Rouen: “Disseram antes de tudo que lhes parecia estranho tão grande número de homens de alta estatura e barba na cara, robustos e armados e que se achavam junto do rei (…) se sujeitassem em obedecer a uma criança e que fora mais natural se escolhessem um deles para o comando. Em segundo lugar observaram que há entre nós gente bem alimentada, gozando as comodidades da vida, enquanto metades de homens emagrecidos, esfaimados, miseráveis mendigam às portas dos outros (em sua linguagem metafórica a tais infelizes chamam “metades”); e acham extraordinário que essas metades de homens suportem tanta injustiça sem se revoltarem e incendiarem as casas dos demais. “

Agosto de 2012

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