Profanação – André Breton

Tradução por Diego Rosa e Larissa Barcellos

(Publicada originalmente na revista Sopro nº 36)

O jogo de xadrez é o corpo-a-corpo de dois labirintos.

Uma fraqueza constitutiva do jogo de xadrez: ele não se presta à adivinhação (ausência de uma enxadromancia).

A igreja cristã jamais proscreveu o xadrez. Ela proscreveu os dados e as cartas.

Para ser um bom jogador de xadrez, não é preciso muito espírito (Jean-Jacques ROUSSEAU): Diderot jogava xadrez muito mal e reconhecia de bom grado a superioridade de Rousseau que ganhava sempre dele.

A guerra moderna é um jogo de xadrez aperfeiçoado, comportando uma maioria de peças retrógradas.

A “rainha” do xadrez é um personagem suspeito. A facilidade dos seus movimentos sobre o campo de batalha leva a pensar que é um general disfarçado. A mulher está demasiado solitária com o jogador de xadrez (cf. Marcel DUCHAMP: Joueurs d’échecs, 1911). A verdadeira Rainha, sempre esperada, no xadrez e alhures, é aquela que foi pressentida por Barthélemy-Prosper Enfantin, chefe da religião são-simoniana (1796-1864).

A única partida legítima é aquela que só admitiria de um e de outro jogadores jogadas nunca antes feitas.

A liberdade filosófica é ilusória. No xadrez como nos outros jogos, cada jogada é carregada do passado indefinido do universo.

Para se abster de toda idéia de grandeza na competição, suportar reconhecer-se em uma pirâmide de cabeças de macacos.

Da sabedoria antiga guardar esta voz depreciativa que acompanhava o vencedor sobre sua charrete.

Somente a inspiração comanda, de noite como de dia: Em suma, nem todo cálculo é uma análise, um jogador de xadrez, por exemplo, faz muito bem um sem o outro. (BAUDELAIRE)

O verdadeiro Napoleão (o matador) era, no xadrez, de uma habilidade medíocre. Na tumba de Lênin, Praça Vermelha, descobrir-se-á um jogo de xadrez (partida começada, abandonada?) e bóias de pesca. Contrapartida (é preciso dizer): 2 grandes inovadores em arte – Marcel Duchamp, Raymond Roussel – trouxeram soluções novas a certos problemas do xadrez.

O xadrez é um jogo que não é um jogo, ele diverte muito seriamente. (MONTAIGNE)

É preciso mudar o jogo e não as peças do jogo.

1944

Agosto de 2012

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