Que vivam os fantasmas de nossas ditaduras!

Por Lucas Paolo Vilalta

Em agradecimento a Patrício Guzmán,
por uma memória obstinada.

Ouvia de vez em quando o som das palavras

e notava a diferença. Porque as palavras que

ouvira até então, e então fiquei sabendo, não

tinham nenhum som, não vibravam. Eram

sentidas, mas sem som, como as que se ouvem durante os sonhos.

Pedro Páramo, Juan Rulfo

 

Hay o no hay cadáveres?
Desapareceram com esta pergunta. Não há corporeidade para enterramos sob o signo da verdade. Por Comissão da Verdade, é preciso, sim, que nos venham os corpos, os fatos, as interpretações, que se escarafunche o deserto das miríades de ossículos de nosso esquecimento. Ainda estão vivos aqueles que choram por aquilo que não pode mais ser encontrado. Todavia, se sumiram com nossos corpos, e monumentalizaram nossa falta de memória no histórico, no subjugo do sagrado, na aura da experiência política de tempos idos, não nos arrancaram a possibilidade de intuir a sobreposição de tempos, coexistência, o pairar de espectros sobre nosso presente.
A sexualização/sensualização do traumático teve seu momento, a força do disruptivo contra o erigir de monumentos, contra a fixação de fatos, contra a absorção de uma experiência que não poderia ser absorvida. Entretanto, cabe a nós, agora, mais do que nunca, superar a ironia e o cinismo; resignar-nos aos únicos gestos éticos possíveis: por um lado, encontrar e ouvir os testemunhos, por outro, oferecer-nos ao que não se pode pensar, tampouco sentir: na ausência dos corpos, permaneceram os espectros.

O que nossa geração pode oferecer aos mortos e torturados de nossas ditaduras? O (im)pôr-se no entrelugar de dois tempos que nunca poderemos viver plenamente: um ontem que nunca nos será desvelado e um hoje assombrado de reminiscências, de uma necessidade de não afirmar ou negar mais aquilo que possamos julgar como realidade, mas permitir que uma virtualidade suspensa, que nunca se atualizará, se instaure em nosso cotidiano. É preciso viver os espectros que nos rodeiam e sentir a pele se eriçar com os sussurros utópicos que eles dirigem aos nossos ouvidos. Se houve um sonho transmudado que se tornou irreconhecível, os arautos e atores dele estão a nos impregnar a respiração de uma sufocante necessidade de um vir-a-ser outro, nosso e deles também. Contra a perpetuação e imposição de um esquecimento, ofereçamos não uma memória fixada no irrepresentável, no inefável, mas um devir engendrado pelo perpétuo incômodo de existirmos, de coexistirmos com os espectros de um passado que se não pode ser plenamente lembrado, deve ser inteiramente vivido.

Agosto de 2012

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