Sobre o espaço estudantil, ou: eu não em importo com esse debate

Por Murilo Magalhães

No início das aulas, alguns estudantes dão recados sobre atividades do movimento estudantil. Uma dessas atividades que tem ocorrido são debates sobre espaço estudantil. Não acredito que ao escrever esse texto, e publicá-lo nesse jornal, estarei “ampliando” a discussão com mais pessoas, mas somente divulgando com mais precisão minha opinião sobre o assunto. O porquê de começar o texto já afirmando isso faz parte da análise aqui presente.
Atualmente, muitos não sabem que em vários prédios de diferentes unidades da universidade existem espaços (salas, corredores, andares) destinados exclusivamente aos estudantes. Em alguns lugares, como no prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, a existência desse tipo de espaço estava presente desde a sua fundação. Lá, existe um piso (ou andar) onde o diretor não pode construir lojas sem a permissão dos estudantes. Em outros locais, como na FFLCH, esses espaços foram “conquistados”. Mas pra quê um espaço dos estudantes? E por que muitos não sabem que tais espaços existem?
No prédio dos cursos de Ciências Sociais e Filosofia (prédio do meio da FFLCH), há o Espaço Verde, local destinado a fins estudantis. Ali ocorrem as festas e reuniões do movimento estudantil. O pouco uso cotidiano desse espaço, o formato de sua gestão, sua manutenção e possível reforma estão sendo debatidos entre alguns poucos estudantes.
Diante de inúmeras questões que surgem sobre esse assunto, considero que a primeira que deve ser debatida é a atual relevância de um espaço estudantil na vida de um estudante. Diariamente, vemos a maioria dos estudantes entrando e saindo faculdade e não utilizando esse espaço.
Em minha opinião, alguns limitam a discussão ao afirmarem que o Espaço Verde é pouco habitado devido à sujeira ali presente. Existem também justificativas frágeis para a pouca participação dos estudantes no movimento estudantil: desorganização, bagunça, guerra dos partidos esquerdistas, etc. Assim como também existe uma justificativa para a pouca “politização” do brasileiro.
Se para os estudantes de arquitetura, a Ditadura Militar foi mais gentil permitindo-lhes um prédio, para os estudantes de Filosofia nem isso foi permitido: restaram prédios temporários mais parecidos com caixotes que até hoje são utilizados. Nesses caixotes surgiram de maneira improvisada tudo: corredores, salas de aula e cursos. Por fim, nos piores locais, foi possível “fundar” os atuais espaços estudantis1.
Esses espaços foram fundados como locais de resistência e liberdade. Locais em que as liberdades democráticas – expressão e manifestação – estariam garantidas e por isso os estudantes poderiam fazer reuniões e falar sobre política livremente. Portanto, assim como a finalidade, a existência desses espaços ocorreu devido a uma situação de resistência ou oposição ao poder político vigente.
Mas havia mais estudantes participando do que hoje? Talvez não. Em alguns filmes da época da ditadura, é possível ver que as expressões “minoria radical”, “os terroristas”, “os baderneiros” já era bastante difundida tanto dentro como fora da universidade. Na ocupação do CRUSP, diziam que ali, local onde existiu a sede da UNE, estavam somente drogados, punks e bolivianos2. Naquele período a Cidade Universitária não tinha muro, e por isso a oposição universidade-cidade versus universidade-condomínio não existe numa proporção como hoje. Pergunto: se fosse feito um plebiscito no Brasil, será que a maioria da população era contra a ditadura militar? Ou eram sempre os mesmos (de sempre) “radicais” protestando…
Será que as nossas atuais críticas ao movimento estudantil não eram as mesmas daquela época? Existe solução para essas críticas somente por via de um processo político interno ao movimento estudantil ou elas também estão presentes para além dos muros do campus?

Notas
1 – ler O Corredor das Humanas, publicação do Grêmio dos estudantes da FAU (GFAU).
2 – assistir ao filme A Experiência Cruspiana, disponível no YouTube (http://bit.ly/expcrusp)

Agosto de 2012

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One Response to “Sobre o espaço estudantil, ou: eu não em importo com esse debate”
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  1. […] última edição deste hebdomadário, o texto “Eu não me importo com esse debate” (*) defendeu a tese de que os espaços estudantis da universidade são locais de […]



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