Em volta, carne morta

Por Gabriel Philipson

No primeiro ano de um estudante de medicina, o calouro entra em contato com as famosas geladeiras com pedaços de gente morta, podres, conservadas. É memorável e inesquecível a primeira aula em que o freezer é aberto e, ao invés de cerveja, o sujeito se depara com nada mais nada menos do que carne de gente morta.

Ao mesmo tempo, ao calouro de  filosofia é aberto outro freezer igualmente inesquecível. A primeira aula em que se passa mais de duas horas refletindo-se apenas sobre o título de uma obra é de tal forma impactante que se sai de tal modo zonzo que poucos, até o fim dos seus anos de aprendizado conseguem se distanciar para refletir sobre o ocorrido. A mensagem é, aqui e ali, a mesma: é bom, jovens, que vocês aprendam a lidar com isso, pois se vai daqui para pior.

A medicina é uma profissão da morte. A atividade do médico é a prevenção, o diagnóstico ou a preparação do sedativo. É possível que se viva daqui 90 anos muito mais tempo – não infinitos, mas pelo menos 910293283299120239420192342843 anos –, mas para isso precisaremos que nossos políticos parem de construir tantos presídios e pontes e invistam em hospitais ou descansos felizes para idosos: pois é isso e unicamente isso o que a medicina pode promover: uma vida pastosa, com cheiro de álcool, e sonolenta.

Em paralelo, o ‘filósofo’ ou ‘historiador da filosofia’ se relaciona diretamente com a morte em sua profissão (sim, profissão). Ele é um baluarte de pensadores mortos, ele reflete sobre a morte e ele a prepara, na medida em que procura compreender o sentido da vida. É verdade que essa última atividade parece em grande medida esquecida e estranha aos nossos colegas. É que nos tornamos meros médicos. Tanto porque fazemos diagnósticos de nosso tempo – e quase sempre chegamos à conclusão que só está em nosso poder aplicar sedativos (esses são os apocalípticos) –, quanto porque para isso fomos minuciosamente preparados através de aulas dissecativas. Pode-se dizer que nosso departamento é especialista nisso: dissecação. Ao ver o quadro A lição de anatomia do Dr. Tulp, de Rembrandt, vejo os colegas e professores com quem topo nos corredores. A filosofia como história da filosofia para a tradição uspiana é uma filosofia dissecativa. O corpo da imagem é Descartes, ali vejo o professor, com um braço aberto, os alunos atentos, fascinados e completamente perdidos… –
coitado de Descartes, tantas vezes identificado com a leitura estrutural, acredito que se ele pudesse se levantar, todo  rasgado e fétido, e, por um milagre alla Frankstein, voltasse a viver e lhe fosse explicado o que acontecia, preferiria voltar ao seu descanso perpétuo. E assim, aquilo para que a filosofia procura dar uma resposta, quer dizer, de onde viemos, para onde vamos, qual é o sentido da vida permanece completamente esquecido – ou quando lembrado, como agora, tendemos a rir, abrir um sorriso amarelo e classificar aquele que lembrou como ingênuo: – há tanta coisa mais importante que a filosofia deve tratar! E geralmente se trata apenas disso: repetir O que fazer? de Tchernichevski, assim como Lênin o fez, ou re-re-re-…fundamentar a ciência em bases seguras. A filosofia como dissecadora se torna não apenas mais uma ciência, mas uma ciência inferior a todas as outras, porque subjugada a si mesma e à sua criatura: a ciência.

Contra esse quadro macabro, pareceu a alguns que era necessário dizer sim à carne. Era preciso devorá-la – e assim mesmo, toda aberta, podre, dissecada. É claro que não sem qualquer método, sem filiação a uma escola estrangeira para validar o passaporte ao inferno do diabo de Flusser, sem isso não há academia! Então, o aluno de filosofia entra em contato com a fenomenologia – ou ‘uma’ fenomenologia –, temperada com Nietzsche e a moda Merleau-Ponty (essa poderia aparecer no bandejão, ao invés dos famosos bifes a fantasia). Como na cozinha da bruxa de Fausto, a Noite de Walpúrgis é assim preparada. O que se assiste nessas aulas é um festival pagão assimilado pela racionalidade em que o ator eleva a carne sobre a qual até então nos debruçamos muito sérios e distintos a totem, a amor, a alimento. Se comem os pensadores. O que se faz ali não é muito diferente do que se vê no documentário Os Mestres Loucos de Jean Rouch. Ali, nós, os selvagens, os bárbaros, assimilamos a civilização europeia, seus mais altos valores, a chamamos de carne e a antropofagamos em um ritual: lá, representada em um cachorro comido cru, aqui, em um texto tantas vezes dissecado, agora estripado e saboreado, sangrento, também cru, em meio a sapatadas. Assumimos as identidades europeias em meio a babas diabólicas e depois… no dia seguinte, ou mesmo logo ali, depois da aula, voltamos ao nosso cotidiano: um é policial, outros advogados, médicos, homossexuais (militantes e não militantes), psicólogos, dançarinos, budistas, pedófilos, agitadores políticos, professores de yoga, de capoeira, de karatê, de ensino médio, de berçários, filhinhos de papai, aposentados, cristãos, pais…

Contra isso aparecem os selvagens vegetarianos, que comem soja industrial. Soja industrial é a abstração da pretensa linguagem lógica pura. Não é à toa que a coisa é para poucos. Comida insossa, esses já vão se acostumando desde cedo aos sucos pastosos que ingerirão a revelia de suas vontades em suas velhices em uma cama de hospital, já desprovidos de carne e intelecto. Esses já não servem mais para dissecação futura.

Outubro/novembro de 2012

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