Erasmo Marmieládov

Por Caio Mello

“Finalmente, a civilidade emancipada, puramente individual,
converte-se em mentira. O que ela atinge no indivíduo é aquilo
que ela oportunamente silencia, o poder real ou ainda mais o
poder potencial que cada qual encarna.”
Minima Moralia, Adorno

“Compreende, será que compreende, meu caro senhor, o que
significa não se ter mais para onde ir? (…)porque é preciso que
toda pessoa possa ir ao menos a algum lugar…”
Marmieládov em Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski

Mulher robusta e feia, rosto fechado que vem do arado agreste nordestino, a cor barrenta, vermelho com marrom, dizia de onde vinha. Dois filhos, gêmeos e de nomes de anjo, “pertencentes a Deus”. Miguel e Rafael. “Oito anos atrás podia até dizer o contrário, mas hoje, hoje eu sou homem!” dizia primeiro pra si, soando bem, dizia em voz alta. Usava as calças largas, retas no corpo, camiseta ou camisa abotoada até o penúltimo botão, tinha a barba rala e mal-feita, antes de ir ao trabalho silente dos seis dias da semana, passava rente a navalha próxima ao pescoço, cortava-se ora acidental ora propositadamente, de sangue suportava só o seu, dado… quando bem entendia.

Morava em um cômodo ajuntado por cimento e tijolo na parede da cozinha, o quintal que antes se estendia, diminuiu-se em duas famílias, a sogra, Beatrice de Souza, a esposa, Solange. As mulheres eram fracas em suas teimosias. A sogra recém-viúva engraçava-se com um homem mais novo, dez anos. A esposa trabalhava pouco e perto de casa, os dois filhos quietos não lhe davam problemas, mas eram azarados e sempre lhes respingavam alguma arte dos vizinhos.

“Hoje, eu falo até com os olhos molhados, hoje o moleque arrebentou um para-choque de carro, deu um prejuízo, o rapaz, dono do carro, veio gritando comigo, falando alto perto da minha mulher, dizendo que tinha que brigar com o menino, que tinha de dar uma lição nele. Eu disse ‘calma lá, rapaz, o pai da criança sou eu, um dia sequer eu me mostrei como um sem-palavra, um rapaz que não cumpre o que deve cumprir?’, não!, aqui não, quem cuida do meu filho sou eu… E depois, antes de ir trabalhar mesmo, fiquei de coração cindido, machucado mesmo, quando o menino veio pra mim, deitado no sofá, e falou que não tinha sido por querer, que foi um acidente, que ele próprio não queria que eu passasse por toda aquela gritaria… Olha, olha só esse menino! É nesse momento que eu vejo que tudo o que eu suporto é por eles, eu suporto Beatrice, Solange nervosa, trabalhar minhas 10 horas… Eu banco a casa, eu banco os meninos e a Solange, e a mãe dela vem me dizer que eu estou lá de favor? Aguento pelos meninos”, Erasmo estava um pouco alto pela cerveja, desde o fim do expediente, o domingo para ele era a véspera do descanso merecido, o corpo moído, só o pó, era sinal de sua graça, como a penúria de Cristo, “Perdoe Beatrice, ela não sabe o que faz”. Ele pedia vez ou outra sua redenção, que o afastassem do cálice temporal da obrigação, “não quero, não, obrigado”. No fundo, naquele naco de humano que todos parecem mascarar e o  esclarecimento não consegue trazer luz, ele via no seu fardo o sorriso orgulhoso, que Solange não reclamaria caso ele quisesse transar no meio da madrugada, faria as posições mais humilhantes se fosse preciso, os filhos carregariam o homem extraordinário que foi em suas refeições, colégios, no seio das famílias que teriam. A bebedeira não o fez largar sua cruz e martírio, o beijo de Solange não é o tapa de Caterina, o calor do trópico, o costume de abusar, o favor em todos os estratos. Passada a madrugada fria pelas grandes árvores que banham a cidade que cresce, traria pra si a notável imagem do
pai e marido, cobraria de si ainda mais uma vez o rigor no trabalho. “O bom pai está senil, envelhecido, mas não há quem o deixe falecer… Eu faço isso pelos meninos”, disse Erasmo confundindo-se neles.

Outubro/novembro de 2012

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