Erro de cálculo do M.E. “da USP”

Por Inauê Taiguara

Durante a movimentação política do final do ano passado na USP, mais especificamente durante a greve estudantil, um ponto específico foi demasiadamente martelado em todos os cantos: “Fora PM da USP!”. Este foi o slogan criado quando o convênio USP-PM foi assinado e que se amplificou no dia 27 de outubro, quando três estudantes foram detidos pela PM dentro do campus Butantã, ganhando maior destaque após o cumprimento de reintegração de posse do prédio da reitoria, fato este que resultou na prisão de 73 pessoas e na deflagração da Greve. “Fora PM da USP!” foi a palavra de ordem que pautou a mobilização dos estudantes – sendo também fator desagregador, pois estreitou plebiscitariamente o apoio à greve, dividindo os estudantes no debate superficial contra ou a favor da PM, sendo que haviam bem mais coisas em jogo.

Quando a movimentação se iniciou, em defesa dos três estudantes que foram presos por portar maconha, imediatamente um estereótipo bastante negativo dos manifestantes foi imaginado e veiculado nos meios de comunicação. Porém, muito pouco foi feito por parte dos estudantes para desfazer esta imagem e apresentar os motivos profundos que levariam à greve pouco mais de uma semana depois, e chego mesmo a pensar que algumas atitudes pontuais, tais como focar as críticas no fato da PM estar no campus, tão somente fortaleceram para tornar mais caricatural o movimento estudantil da USP aos olhos da população.

Recorro a um exemplo, vejam a cena: uma grande bandeira com os dizeres “Fora PM da USP!” puxando um ato na Av. Paulista e apresentando o ponto de vista dos estudantes à população. Qual é afinal o efeito desta bandeira na sociedade? A meu ver, não é nenhum pouco favorável a conseguir o que se espera, a saber, primeiro o reconhecimento da legitimidade das reivindicações de um grupo politicamente organizado e depois o atendimento das reivindicações por parte da autoridade competente. E por quê?

De um lado existem aqueles que defendem a PM e acreditam cegamente na importância e necessidade de tal instituição, mantida exatamente nos moldes em que ela atualmente se encontra. Quando veem estudantes protestando contra a presença da PM “na USP” – informados unilateralmente por meios de comunicação sensacionalistas – a sua reação natural será a de pensar: “se eles não querem a PM perto deles, é porque estão fazendo coisas erradas. A PM tem mais é que estar lá!”.

Doutro lado existem aqueles que conhecem, no seu dia a dia, e de forma bem mais intensa, a forma truculenta de agir da PM e não contam com a visibilidade que os estudantes da USP contam, quando querem protestar. Quando estes cidadãos veem estudantes protestando pela saída da PM “da USP”, muitos deles são levados a pensar, e com razão, que a atuação da PM no campus é fichinha quando comparada a forma com que ela atua cotidianamente nos bairros da periferia. A consequência  acaba sendo que muitos destes cidadãos – que reconhecem a legitimidade da pauta – também não simpatizam com as reivindicações do ME da USP, pensando que estamos muito preocupados com nossos próprios problemas e que acabamos por vê-los maiores do que são.

De modo que não conseguimos em nossas manifestações o apoio da sociedade civil. Ora, o fato é que o ME precisa justamente deste apoio, pois é a opinião da sociedade que faria a pressão necessária para que as autoridades competentes atendam as reivindicações – em especial no caso de uma greve estudantil, na qual não há um setor da economia sendo lesado. Se não temos modos de nos defendermos nos meios de comunicação que veiculam aquele estereótipo sensacionalista, precisamos, no mínimo, tomar mais cuidado com as bandeiras que levantamos e com os atos que potencialmente nos representam, refletindo previamente sobre as suas consequências. Fazemos atos na Av. Paulista para sermos vistos e darmos visibilidade a nossas reivindicações e, no entanto, o que mostramos veio a nos prejudicar. O “Fora PM da USP!”, que pode ter efeitos positivos dentro do campus, é um tiro pela culatra na Paulista, afinal, pergunta-se o cidadão comum, qual o propósito de querer que a PM não frequente o espaço físico da USP? Eis que as reivindicações do ME da USP parecem reduzidas a esta questão superficial e, por isso mesmo, esvaziadas de importância.

É claro que os estudantes que levantaram a bandeira “Fora PM da USP” por certo tinham em vista fazer uma crítica à forma de atuação da PM em qualquer contexto político-social, mas na hora de apresentar o questionamento, restringiram-no ao lado interno dos muros dos Campi. A bandeira à sociedade não deveria ser “Fora PM da USP”, mas talvez “Fim da Violência da PM” ou “Reivindicação Política não é caso de PM” ou ainda “Por uma educação que nos ensine a pensar, não a obedecer” como a levantada pelos estudantes do curso de Filosofia, enfim, uma bandeira que não circunscrevesse tanto o âmbito da questão a nós, uspianos, afinal a atuação da PM é uma questão de toda a sociedade. Além disso, jamais poderíamos permitir que as reivindicações do ME ficassem aparentemente reduzidas a este único eixo, como de fato se deu.

A presença da PM na USP, imposta à comunidade uspiana que nem se quer foi consultada sobre o assunto, é um sintoma da forma de gestão Rodas. É contra ela e principalmente contra ela que os estudantes entraram em greve. Por trás da bandeira “Fora PM da USP!” está implícita uma crítica à forma como a reitoria vem agindo dentro da universidade. Não é à toa que um dos outros eixos da greve, deliberado juntamente com o “Fora PM da USP!”, tenha sido o “Fora Rodas!”. A questão é que há uma estrutura de poder permitindo essa atuação da reitoria e que, entretanto, surpreendentemente só foi questionada de fato três semanas após o início da greve, quando então se tornou eixo da greve estudantil a reivindicação “Por uma nova estatuinte!”. Mais uma vez os estudantes não souberam elaborar, organizar e apresentar a sua luta – nem à sociedade nem a muitos de seus pares.

Em suma, defendo aqui que quem realmente possibilitaria que as pautas da greve estudantil fossem alcançadas seria a sociedade, pois é ela que faria pressão sob as entidades competentes. O ME não foi capaz de convencê-la da importância da pauta, entre outros fatores, devido à incapacidade de articular uma estratégia eficaz para angariar o apoio necessário. A liberdade própria do ambiente universitário permite reflexões e críticas deste tipo (i.e. à presença militar para resolver conflitos de caráter civil), porém elas ganham maior legitimidade aos olhos da sociedade na medida em que extrapolam
os ‘recentes’ muros dos Campi. Se os estudantes levantaram uma bandeira pedindo a saída da PM da USP, a USP deveria aqui ser entendida como liberdade de pensamento e PM como controle ideológico e normativo. Este significado mais profundo não foi transmitido. E eis que toda a movimentação do ano passado não obteve as vitórias que dela se esperava.

O fato absurdo de 400 homens da tropa de choque terem sido mobilizados para retirarem e prenderem 73 pessoas de um prédio público, que lá estavam por motivos políticos, sendo ainda que não houve negociação alguma na reintegração – procedimento comum em casos deste tipo –, além de terem sido utilizadas bombas de efeito moral no CRUSP impedindo que os moradores de saíssem de suas casas, são fatos que foram muito mal aproveitado pelos estudantes mobilizados, e que foram encarado pela sociedade, pouco tempo depois, devido a ajuda dos meios de comunicação fantástico-sensacionalistas, como uma incursão rotineira da PM, ou seja, normalizou-se a exceção. Foi uma demonstração explícita
do autoritarismo presente nos nossos dias, à qual não conseguimos dar uma resposta à altura, e que somente precedeu as incursões da PM na cracolândia e em Pinheirinho – que, acredito que esta opinião seja consenso geral, foram muito mais sérias.

Quem sabe se tivéssemos oferecido uma resposta mais organizada, de modo a já naquela época termos apontado à forma problemática de agir da PM, não só dentro do campus, mas em qualquer lugar, estes outros eventos tivessem se dado de outra maneira, ao menos no que tange a resposta da sociedade diante deles.

Outubro/novembro de 2012

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