Eu me importo com esse debate: espaço estudantil, espaço comunitário

Por André Scholz

É natural, em tempos sem graça, idealizar o passado. Essa atitude, muitas vezes conservadora, pode ser um pouco indelicada em alguns casos. Por exemplo, quando a homenagem aos heróis do passado é feita de maneira a justificar certas ações do presente; visando equiparar-se ao sacrifício deles, tenta-se justificar as suas próprias ações. A memória anda em debate na esfera pública brasileira. Por um lado é salutar, por exemplo, a Comissão da Verdade (aquela instituída em nível federal) com excelentes quadros, como Paulo Sérgio Pinheiro. Por outro lado, certo discurso corrente em nossa universidade parece ofender o passado sem que os porta-vozes desse discurso percebam o que dizem (supondo que sejam mais ingênuos do que mal intencionados). “O cara então ajeitou o meu pescoço, tranquila e profissionalmente, como preparando-o para arrancá-lo com o certeiro golpe, caso o sujeito lá do outro lado dissesse que sim, que me conhecia”. Comparar essa violência, que Salinas e tantos outros sofreram, ao que ocorre hoje na universidade é farsa histórica e utilização imoral das tragédias de nosso País, da vida de tanta gente… Não, não parece que a coisas são as mesmas que “naquela época”…

Na última edição deste hebdomadário, o texto “Eu não me importo com esse debate” (*) defendeu a tese de que os espaços estudantis da universidade são locais de “resistência ou oposição ao poder político vigente”. Uma primeira questão seria se essa resistência e oposição é mesmo cláusula pétrea. Se for, poderíamos chegar ao absurdo de nomear Reitor um dos líderes de quem defende esta posição, só para ver o que acontece. Explodiria ele numa nuvenzinha de contradição como o Descartes da piada “Eu não penso que…”?

É no mínimo intrigante defender que o poder institucional da universidade seja idêntico ao da ditadura. No que se refere aos espaços, a questão fica ainda mais interessantes se considerarmos que, para falarmos só do nosso prédio, o Espaço Verde é um espaço estudantil há muito pouco tempo, desde a unificação das bibliotecas da FFLCH apenas. O espaço “de resistência ou oposição” foi resultado de acordo com o poder ao qual se supõe que se deva resistir e se opor. Curioso…

Mas há questões ainda mais sérias nesse debate. Gostaria apenas de aventar outra hipótese, continuando também a pequena reflexão que publiquei neste jornal, no texto “Qual o papel das instituições estudantis?”.

A universidade realiza atividades de ensino, pesquisa e extensão. O espaço é, assim, dividido em salas de pesquisa, salas de aula, salas de reunião, salas de professores, salas de informática, auditórios, museus, cinema, entre outros. A convivência nesse espaço se dá nos corredores, nos pátios e nas lanchonetes, por exemplo. É natural que seja assim. São nesses espaços de convivência que se integram funcionários, alunos, professores e o público externo que participa das atividades de extensão, constituindo assim uma comunidade acadêmica. Essa comunidade é composta em sua maioria por estudantes. Não podemos participar, enquanto alunos, da administração da universidade (**), embora com nossos representantes e até o fim da graduação muitos de nós comecem a entender como funciona um gigante burocrático do tamanho da USP. Na pós-graduação suponho que o comprometimento com a pesquisa acabe impedindo muitos colegas de continuarem tão presentes nos espaços de convivência. Os professores e funcionários estão em local de trabalho, muitas vezes utilizando os
espaços públicos apenas como local de trânsito…

A comunidade que se forma no espaço da universidade tem interesses próprios. Da convivência surgem interesses comuns, dissensos políticos, culturais, estéticos, etc. Esses interesses vão além do ensino, pesquisa e extensão concebidos pela administração institucional e são tão voláteis tanto quanto se alteram alunos, funcionários e professores. A criação de um espaço estudantil parece adequada justamente com o surgimento destes interesses e dissensos. Uma parte do espaço da universidade gerida pela própria comunidade é algo que pode fortalecê-la enquanto tal e fortalecer a própria universidade. Ora, se nós estudantes somos maiorias dentro da comunidade, não nos caberia organizar atividades que visassem esses interesses comuns? Debates políticos, culturais, estéticos, etc. Que mais nos interessa? Discussão de livros de literatura, de trabalhos de filosofia que não tem espaço na academia, filmes, festas, organização de jornais…?

O espaço estudantil não é, necessariamente, um espaço de “resistência e oposição” ao poder vigente. Ele pode ser complementar a este poder. Uma comunidade organizada pode ser instrumento de pressão muito mais forte que grupelhos que querem se passar por uma comunidade organizada. O espaço estudantil é um espaço público em que a os interesses da comunidade podem ser realizados – como aqueles que elen camos acima e outros tantos dos quais não temos nem ideia do que possam ser… Um espaço que permaneça acessível mesmo que o interesse seja apenas por um local de convivência.

E, afinal, “resistência e oposição” a quê? Não seria melhor “interlocução e transfor mação”? A oposição à política do reitor não precisa ser uma oposição de trincheira, por mais que discordemos de suas concepções políticas. A cada quatro anos há eleição. Por que não disputar lá? Mesmo que se queira modificar a estrutura, ela parece porosa suficiente para que esse debate seja institucional. O que ganharíamos com isto? Legitimidade, qualidade, comunidade, políticas coletivas…? Não vou entrar em meandros da discussão sobre o que ocorre na reitoria. A estrutura atual é evidentemente ruim, mas isso não pode ser mudado de cima para baixo. O problema começa nos cursos. Como discutir com a reitoria e propor debates em escala universitária (dado o tamanho na USP isso quer dizer quase em escala nacional) sem antes ter debates em cursos e  faculdades? O reitor pode, assim, ser inacessível. Diretores também. E chefes de departamento? Vejamos na Filosofia.

Nos últimos três anos, tivemos três: Moacyr, Roberto e Milton. Moacyr deu aula no primeiro ano durante quase todos os anos em que esteve na chefia, estando pelo menos duas vezes por semana no prédio. Lembro-me quando fui seu aluno e, depois, como diretor do CAF, que jamais encontrei nenhuma resistência gratuita a nenhuma proposta de atividade do Centro Acadêmico. Foi ele que, por exemplo, autorizou o uso do site institucional Departamento para hospedar o site do CAF. Moacyr era mais entusiasmado com o Centro Acadêmico do que eu próprio em alguns momentos. Chegou a propor trazermos músicos para atividades a cada quinze dias entre as 18:15 e 19:15 (já tinha até nome para propaganda, “de 15 em 15”), colocou o CAF em um debate com o MEC sobre Ensino à Distância na época que a UNIVESP era a ordem do dia, nunca negou uma reunião e até articulou atividades do centro acadêmico com a diretoria, inclusive movimentando a Comissão de Qualidade de Vida com a proposta de discutir como fazer uma lanchonete no prédio… Embora não estivesse mais no Centro Acadêmico durante a gestão do professor Roberto Bolzani, vi de longe o seu empenho durante, por exemplo, a greve de 2011 e a ocupação da Diretoria, quando ele ganhou uma moção de louvor, oferecida pelo CAF, agradecendo o seu desempenho exitoso nas negociações. A gestão do professor Milton acaba de começar, mas sempre o vejo pelo Departamento conversando com alunos. Não acredito que qualquer colega estudante de nosso Departamento possa reclamar da acessibilidade de nossos professores. Ainda preciso destacar a participação dos professores Caetano Plastino e Márcio Suzuki na vice chefia, professores extremamente atenciosos e disponíveis. Por fim, mas não menos importante, temos que nos lembrar da Mariê. O capo di tutti i capi. Mais simpática e acessível é algo impossível ou inimaginável…

O CAF tem, eventualmente, realizado atividades em cooperação com o Departamento. Mas acho que é pouco. Muito pouco. Nossas atividades parecem cada vez mais voltadas apenas aos estudantes. A divisão categorial em professores, alunos e funcionários foi naturalizada e assimilada mais pelos alunos que pelos outros. As três “categorias” são tão diferentes assim? Muitas vezes me parece que todos temos os mesmos interesses, todos querem uma educação melhor, um espaço mais agradável…

As atividades mais realizadas pelos estudantes são as assembleias, cujo objetivo, por definição, é decidir, não debater. Ilude-se quem defende que há debate na assembleia. Lá há disputa por convencimento e voto. A comunicação é instrumentalizada pela retórica de quem quer vencer uma disputa momentânea, tendo que, para isso, fazer parecê-la muito mais importante do que ela realmente é. As pessoas costumam reclamar de quem aparece sempre no prédio e não vai às assembleias. Isso é um absurdo. As pessoas que sempre estão aqui já são membros de uma comunidade e utilizam o espaço comunitário. Não precisam ir à assembleia para dar diretrizes do que querem, já que estão sempre aqui. Afinal, porque aceitariam a premissa das assembleias de que só há uma maneira legitima de deliberação se, pela prática, reiteram sua recusa a ela no dia a dia? A assembleia instrumentalizada pode fazer barulho, mas sem estudantes lá sua legitimidade e eficiência é zero.  Muito pior, me parece, são aqueles que aparecem na assembleia, mas não frequentam o prédio no cotidiano…

O espaço estudantil é um espaço comunitário. Ele é estudantil porque é, ou melhor, deveria ser gerido pelos estudantes (***). Nós somos maioria da comunidade, temos tempo para passar tempo nos espaços e temos interesse nisso, pois convivemos mais tempo e, mais importante, porque é nele que nos formamos… Aos estudantes não deveria caber realizar as atividades que o poder institucional não realiza, seja por que não é responsabilidade dele, seja porque ele não é priorizado, ou seja, por que ele não pode realizar? (Como defendi no texto anterior, o debate político não pode ser feito na sala de aula, uma vez que a assimetria entre professor e aluno faz com que a autoridade da sala de aula não seja democrática, o que seria condição para a constituição de uma esfera comunicativa). E o que ganharíamos com isso? Parece-me que seria elevar o nível do debate e dos debatedores. Seria formar gente não apenas academicamente, mas também comunitariamente. Alguns grupos, é verdade, têm medo de debates sérios, medo inconsciente que parece às vezes uma resistência estrutural à percepção da fragilidade dos absurdos que defendem…

Vejamos o nosso espaço estudantil, por fim. Atualmente, são os corredores do prédio e as lanchonetes. O outro espaço, o Espaço Verde, cuja gerência é dever dos estudantes, é, na prática, uma ingerência. Grudento, fedorento, nojento. Inabitável. Nem sempre foi assim. Em 2009 ele ficou limpo durante uns dois meses, mas não deu tempo das pessoas passarem a frequentá-lo (afinal, demora tempo a voltar a um lugar marginalizado) e ele ficou sujo novamente. Uma vez ajudei a limpá-lo. Encontrei um rato morto. Uma menina disse que pegou sarna. Outra foi assediada ao deitar-se no sofá. Atualmente o Espaço Verde, espaço estudantil por direito, foi privatizado por interesses individuais. Tem a turma do bilhar que fica com o barulho insuportável mesmo se houver assembleia, a turma que usa o espaço para secar camisetas do partido, a turma que fuma no lugar em que não pode fumar… Até os centros acadêmicos o abandonaram e realizam assembleias em sala de aula!

A comunidade tem, de fato, resistido e se oposto ao espaço estudantil. Resistem ao não frequentá-lo. Opõe-se ao recusá-lo. Ou há quem ache que ignorar sistematicamente as reuniões que discutem o que fazer para melhorá-lo é desinteresse?

Felizmente a situação pode mudar quando nós, a comunidade, decidirmos… Mas que fique claro que não foram os  estudantes que abandonaram o espaço: foi o espaço que abandonou a comunidade.

Notas
(*) Embora discorde do texto de Murilo, sobretudo da afirmação que cito, não me endereço especificamente a ele. As premissas a que tento me opor aqui são outras, são públicas e não sei se são compartilhadas por meu colega.

(**) A questão da administração da universidade é complexa e extremamente importante. Fica para mês que vem.

(***) Ser gerido pelos estudantes não é sugerir uma autogestão (situação atual), o que me parece privatizar o espaço aos interesses de quem mais o frequenta. Mas alongar essa reflexão também é para outro momento.

Outubro/novembro de 2012

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