Filosofia oriental: por que não?

Por Lucas Nascimento Machado

Lembro-me quando, no ano de 2006, ao ingressar na filosofia, durante uma daquelas aulas introdutórias, em que três professores se uniam para responder as perguntas dos alunos sobre o curso, uma aluna levantou uma pergunta curiosa: por que não havia, na grade curricular, cursos sobre a filosofia oriental?

Não lembro, exatamente, a resposta do professor; lembro, contudo, que ela remontava a algo desse gênero: não há cursos sobre filosofia oriental, porque não existe filosofia oriental. Qualquer que seja o pensamento oriental, ele não se encaixa no tipo de pensamento, ou no modelo de pensamento filosófico, que é o que estudamos aqui.

Na época, não sabia virtualmente nada sobre o pensamento oriental, de tal maneira que, por mais que a resposta do professor me parecesse incerta, não dispunha de recursos – nem, para sermos sinceros, de motivação – para problematizá-la. Acabava de ingressar na filosofia; não tinha conhecimento nem informação o bastante para me posicionar a esse respeito. Não tinha como me colocar a favor da aluna que queria cursos de pensamento oriental ou do professor que afirmava não haver filosofia oriental, pois simplesmente sabia muito pouco sobre filosofia, quer dizer sobre pensamento oriental, para ser capaz de me posicionar de qualquer maneira minimamente justificável sobre essa questão.

Muitos anos depois, por um mero acaso, acabei me deparando, por meio de um amigo, com alguns comentários sobre Nagarjuna, um pensador budista. Imediatamente me interessei por ele – ao ponto de, assim que terminei de ler esses comentários, já ter ido procurar na internet onde poderia conseguir os seus livros. Suas considerações sobre como as coisas não teriam ‘substância’ alguma, sobre como o próprio critério do conhecimento seria relativo, e o modo profundamente original com que as fazia captaram imediatamente o meu interesse – inclusive em suas relações, mencionadas nos comentários, com filósofos modernos e contemporâneos, como Hume e Wittgenstein. Nesse ponto, mesmo que ainda não tivesse verdadeiramente parado para reconsiderar essa questão, me parecia claro que, mesmo que não houvesse ‘filosofia’ (de acordo com alguma definição específica dessa) no oriente, havia, contudo, ideias interessantes e perspicazes, de profunda agudeza lógica e conceitual que, sem dúvida, poderiam ser aproveitadas por aqueles que estudam filosofia…

Algum tempo depois, uma discussão no grupo do facebook da filosofia da FFLCH acabou levantando (também de maneira surpreendentemente inesperada) uma discussão sobre filosofia oriental. Alguns defendiam que ela existe, se por filosofia entendermos algo bem geral como ‘formas de pensamento conceituais e racionais’; outros defendiam que, filosofia, tal como a entenderíamos atualmente, enquanto pensamentos profundamente sistematizados, não existiria – embora existisse, de todo o modo, algo como o ‘pensamento oriental’, tão digno de atenção quanto qualquer filosofia. De qualquer maneira, alguns alunos concordaram que seria interessante estudar o pensamento oriental, quer pudéssemos chamá-lo de filosofia, quer não. E foi assim que surgiu o Grupo de Estudos Sobre o Pensamento Oriental.

Como primeiro objeto de estudos, o grupo aderiu à minha sugestão de estudarmos Nagarjuna, que, já há algum tempo, me interessava. Escolhemos uma de suas obras traduzidas para o inglês – The Fundamental Wisdom of The Middle Way – e separamos a leitura dos capítulos por meses, de modo que, ao final de 2012, tivéssemos concluído a leitura do livro.

Contudo, muito além de estudarmos Nagarjuna, as discussões do grupo, como seria de se esperar, estenderam-se para muitas outras questões e pensadores. Pensadores indianos foram frequentemente mencionados, tal como o Shankara, e comparados com filósofos ocidentais, tal como Plotino; discussões enérgicas sobre as diferenças entre pensamento oriental e ocidental (e mesmo se haveria tais diferenças) foram feitas e levaram ao levantamento de várias questões e ideias. Aos poucos, fomos descobrindo como diversas pessoas em diversas regiões do mundo já estudam seriamente o pensamento oriental (tal como o Jay L. Garfield, comentador do livro de Nagarjuna que estamos estudando, ou Adrian Kuzminski, autor do livro Pyrrhonism: How The Ancient Greeks Reinvented Buddhism, ou Dasgupta, em seu The History of Indian Philosophy) e questionam a filosofia como patrimônio exclusivo do ocidente (Tal como Johannes Bronkhorst em seu Pourquoi la philosophie existe-t-elle en Inde?, ou Justin E. H. Smith, sem seu artigo Philosophy’s Western Bias). De uma forma geral, descobrimos que, em universidades de filosofia mundo afora, já não é questão de se perguntar se há ou não filosofia oriental; de fato, nessas universidades, cursos já foram dados sobre “Metafísica e Epistemologia na Índia”, tal como na Universidade de Heidelberg, ou sobre as “escolas heterodoxas de filosofia na Índia”, no King’s College London. Nessas universidades, a questão de se há ou não no oriente formas de pensamento dignas de serem chamadas de filosofia e dignas de um estudo filosófico sério já deixou de ser um problema.

E nossas ‘descobertas’ não pararam por aí: de fato, descobrimos que algumas dessas pessoas, estudiosas do pensamento oriental, estavam muito mais próximas de nós do que imaginávamos. Professores da Letras da USP (como a professora Lilian Gulmini, que tem uma tese de doutorado sobre Shankara e o Advaita Vedanta, ou o professor Miguel Attie Filhom, que dá aulas sobre filosofia e história do pensamento árabe) já estudam seriamente o pensamento oriental e, na UFMG, já há cursos na filosofia que se propõem à ‘leitura de textos da filosofia oriental’. Inclusive, alguns anos atrás, houve, na própria filosofia da USP, um colóquio cujo tema era a relação entre filosofia oriental e ocidental, e já temos mesmo alguns pesquisadores que estudam autores árabes como o Muhiyyddîn Ibn’Arabî.

Se todas essas ‘descobertas’ nos pareceram fatores importantes para problematizar a afirmação de que não existe filosofia no oriente, eu diria, contudo, que o fator mais relevante para essa problematização foi simplesmente esse: o de contato com os textos DE pensamento oriental e SOBRE o pensamento oriental. Pois é muito difícil não ter a impressão de que um mero contato inicial com esses textos já bastaria para dissipar uma boa parte dos motivos que podem levar a crer que não existe filosofia oriental. Basta termos contato com Nagarjuna para percebermos a força lógica e racional de sua dialética, que, em vários momentos, se aproxima da dialética cética pirrônica; basta lermos a introdução do Indian Logic, de Jonardon Ganeri, para percebermos a profundidade e complexidade das discussões e da lógica indiana; basta começarmos a ler The History
of Indian Philosophy, de Dasgupta, para percebermos que há algo no oriente que não apenas podemos identificar como filosofia, mas também como história da filosofia, quer dizer, uma história de debates e discussões em torno de questões filosóficas centrais que definem os rumos e as propostas de diferentes escolas ou correntes filosóficas.

Ora, se basta um contato puramente inicial para dissipar alguns dos motivos centrais que poderiam levar a crer que não existe filosofia no oriente – que não haveria pensamento racional e conceitual em torno de questões centrais, que não haveria uma história da filosofia, que não haveria textos passíveis de estudo filosófico, etc. – parece-nos, então, que, ao menos em alguns pontos, só pode manter essa opinião quem, na verdade, ignora o que existe no oriente. Em outras palavras, parte dos motivos que autoriza o julgamento de que não haveria filosofia no oriente não se deveria a uma avaliação minuciosa – ou, na verdade, a qualquer avaliação – de seus produtos culturais e de sua história, mas sim de um completo desconhecimento ou de um conhecimento muito superficial e fragmentário desses. Em larga medida, muitos dos argumentos que poderiam nos levar a crer que não há filosofia no oriente são incapazes de se sustentar, a partir do momento em que há uma confrontação mínima com a literatura produzida por pensadores orientais e sobre o pensamento oriental.

Não que com isso queiramos dizer que toda a defesa de que não há filosofia no oriente só possa ser produto da ignorância. Talvez, o que esteja em questão sejam certas definições de filosofia, segundo as quais seria possível dizer que o pensamento oriental não é ‘filosófico’. De fato, é possível que haja algo que separe, em larga medida, boa parte do pensamento oriental de certo contorno que a filosofia ocidental adquiriu nos tempos modernos. Entretanto, é igualmente plausível que, segundo outras definições, seja difícil, senão impossível, dizer que o pensamento oriental não é filosofia; de fato, se pensarmos mais em termos de filosofia ocidental antiga e medieval do que moderna, torna-se praticamente impossível não perceber as aproximações naquilo que haveria de característico nessas filosofias e, mais do que isso, naquilo que as caracterizaria como filosofias. Ninguém questiona que Santo Agostinho fosse filósofo, apenas pelo fato de ter sido religioso e de sua filosofia ter se apoiado em princípios religiosos; por que deveríamos fazer diferente com pensadores orientais que, sem abdicar dos ensinamentos de suas religiões ou dos textos sagrados, tal como os Vedas, buscavam, contudo, fornecer uma explicação e justificativa racional para eles? E se, por vezes, o pensamento oriental se preocupa mais com o ‘modo de vida’ do que com a elaboração de uma teoria sistemática, não se pode dizer o mesmo de muitos filósofos antigos ocidentais? E, se é assim, por que só poderíamos chamar esses últimos de filósofos?

Talvez, na verdade, mais do que nos perguntarmos se há ou não filosofia no oriente, tenhamos que nos perguntar: quais motivos levam a querer defender que não haja filosofia no oriente? Por que levar tão a sério se, em um ou outro sentido da palavra, não haveria filosofia no oriente? A pergunta sobre “o que é a filosofia”, afinal, já não é, por definição, uma pergunta filosófica, aberta a tantas respostas diferentes quanto qualquer outra questão filosófica? Nesse caso, por que insistir em uma definição de filosofia que exclua o pensamento oriental? Seriam os motivos que levam a essa insistência, eles mesmos, frutos de considerações filosóficas? Ou seriam motivações e considerações de outro gênero, políticas, institucionais ou  mesmo ideológicas, que estariam na origem dessa persistente relutância em admitir as correntes de pensamento oriental no rol daquilo que chamamos de filosofia?

Seja como for, uma coisa parece certa: é desejável a abertura da discussão sobre o pensamento oriental: pois, qualquer que seja nosso posicionamento sobre ele, parece-nos sempre indesejável que, em vez de se fundamentar em argumentos e razões, ele se fundamente em preconceitos e desconhecimento. Nesse sentido, a 1ª Jornada de Filosofia Oriental da FFLCH/USP, que, no momento em que esse artigo foi escrito, estava para ser realizada no dia 28 de setembro, na sala 14 do prédio do Depto. de Filosofia, das dez da manhã às oito da noite, se propõe precisamente a trazer essa discussão para o âmbito de nossa faculdade, para que todos aqueles que se interessarem pelo assunto possam ter um contato inicial com ele e começarem a inteirar-se a seu respeito. Esperamos, dessa forma, que essa Jornada seja apenas um começo para o debate e  o estudo sobre o pensamento oriental, por meio do qual nós poderemos, quem sabe, contribuir para que ele seja mais profundamente estudado e discutido em nossa faculdade, em sua significância filosófica e no que ele pode contribuir para nossos estudos filosóficos. Para aqueles que já quiserem começar a fazer parte dessa discussão, convido-os a participarem do nosso Grupo de Estudos Sobre o Pensamento Oriental, no link https://www.facebook.com/groups/grupodeestudospensamentooriental/.

.: Referência Básica:.

Nagarjuna, The Fundamental Wisdom of The Middle Way. Tradução e comentário: Jay L. Garfiel. Oxford, Oxford University Press, 1995

http://bit.ly/nagarjuna1

Tradução alternativa (e bilíngue):
http://bit.ly/nagarjuna2
.: Referências Complementares:.
Nagarjuna, A Grinalda Preciosa
http://bit.ly/grinalda
– Sobre o budismo:
Entrevista de Paulo Borges ao filósofo romeno Ciprian Valcan sobre budismo, filosofia, Cioran, Oriente e Ocidente
http://bit.ly/paulociprian
“Se vires o Buda, mata-o !” – Ensaio sobre a essência do budismo, Paulo Borges
http://bit.ly/matabuda
– Vídeos da 1ª Jornada de Filosofia Oriental da USP
http://bit.ly/1ajornada

Outubro/novembro de 2012

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