O CAF, a gestão e o jornal

Coluna do CAF

Talvez convenha, antes de mais nada, lembrar das diferentes posições que vemos por dentro da tal massa chamada “movimento estudantil”. Além dos diferentes partidos que atuam e das relações diferentes com os recortes da comunidade externa à universidade, a distinção que mais nos interessa neste texto é sobre o papel conferido às instituições. Grosso modo, há aquela posição de que o esforço deve ser empreendido fora das instituições estabelecidas, sendo sua intenção pressionálas, não disputá-las. A outra consiste em um esforço de estar inserido na estrutura e buscar mudanças por dentro. Se essas posições não definem comportamentos totais de indivíduos ou de grupos, pelo menos elas orientam a tomada de decisões em casos particulares. Um exemplo: como deve agir o movimento estudantil em busca de maior participação nas instâncias deliberativas das unidades e da universidade? Essa pergunta não só põe em questão a possibilidade real de hierarquizar as estratégias, como também – e quem sabe principalmente – a necessidade de uma ação única e totalizadora da massa “movimento estudantil”. Mas esse ponto fica para depois.

Por ora, pensemos na posição do CAF nesse quadro. Trata-se de uma instituição estudantil inserida em uma estrutura universitária, possuindo assim relações de diferentes graus e natureza com as outras instituições: o departamento de filosofia, a diretoria da FFLCH, os outros centros acadêmicos da faculdade, o DCE, centros acadêmicos mais distantes, o Sindicato dos Trabalhadores da USP, a prefeitura do campus etc. É uma possibilidade lógica que uma gestão opte por ir contra o departamento de seu curso e com a administração de sua faculdade, visando a pressioná-las por fora, mas nossa gestão considera essa escolha no mínimo complicada enquanto entidade. Distingamos também, portanto, gestão e entidade.

A gestão do centro acadêmico consiste na chapa vencedora nas eleições – costumam existir três ou quatro nas Ciências Sociais, por exemplo, e em nosso caso, temos a tradição de chapa única, e a última eleita, quem lhes escreve, é a gestão Cafcofonia. Já a entidade é a instituição que, em teoria, representa as pessoas de um grupo (nosso caso: os estudantes de Filosofia). Dizemos “em teoria” porque já há um tempo vem sendo feita a crítica ao critério da representação para estabelecer legitimidade e à possibilidade mesma de se representar uma vontade geral abstrata, preferimos pensar a entidade enquanto espaço de construção coletiva da vida política. De modo que, se por um lado sabemos que CAF e gestão se diferem, por outro acreditamos que gestão e estudantes dispostos a participar da construção – política, artística, acadêmica, etc. – do curso podem e devem se articular conjuntamente. Interpretar a atual gestão como um grupo que pretende fechar-se em si mesmo, em uma atitude militontesca, é, no mínimo, demonstrar desconhecimento de causa.

A distinção entre entidade e gestão é perdida quando o centro acadêmico se torna instrumento de atuação de um grupo em benefício próprio. Do ponto de vista do movimento estudantil, em geral, a USP é um verdadeiro jogo de War: quanto mais centros acadêmicos seu coletivo ou grupo possuir e quanto mais soldados aí estiverem inseridos, maior será seu poder de direção e de decisão em conselhos de centros acadêmicos e maior será o recrutamento de novos militontos. O que deveria ser garantia mínima das gestões de centros acadêmicos – que a entidade esteja em contato direto com seus estudantes – se torna posição política que também precisa entrar em disputa. A última passagem de gestões do centro acadêmico da Letras (CAELL), quando o PSTU saiu e o MES-PSOL entrou, significou, por exemplo, um rearranjo do diálogo (para não falar “negociações”) entre esses dois grupos que compõem a atual gestão do DCE. Citamos isso a fim de indicar que existe uma diferença entre a gestão do CAF e a de CAs que são geridos por alguns coletivos políticos, e que essa nunca foi a realidade da filosofia. Porém, faz-se importante lembrar que o CAF está nesse contexto de disputa.

É compromisso de nossa gestão do CAF que os interesses de grupos isolados não pautem o trabalho que se faz em nosso curso – o que, no entanto, não impede que quaisquer propostas sejam consideradas, independentemente de sua origem. A realização do Jornal da Filosofia é expressão de sucesso nesse sentido. Se se afirma que ele é “autoorganizado” ou “independente” do CAF, entende-se simplesmente que as pessoas que o organizam são majoritariamente pessoas de fora da atual gestão, o que é ótimo! Afinal, se o jornal está dando certo, os diretores do centro acadêmico podem se ocupar de mais outras tarefas, como a eleição de representantes discentes, a campanha por uma Comissão da Verdade da USP etc. Logo, não há nenhuma contraposição entre o jornal e “o CAF” – na verdade, a gestão do CAF. Afirmar isso somente faria sentido se se tratasse de uma produção que deseja se afirmar independente de um centro acadêmico aparelhado por algum grupo indisposto a construir atividades com todos os alunos (e que mantivesse reuniões fechadas, entre outras características). O jornal é do CAF no sentido em que é de todos os estudantes de filosofia. Lembramos que a decisão de criar o jornal foi uma deliberação de uma assembleia dos estudantes de Filosofia, decisão esta que a atual gestão fez o possível para viabilizar, possibilitando, por exemplo, que essa deliberação se valesse das vias institucionais do CAF para se concretizar, bem como contribuindo com a divulgação, atualizando o mural, participando da organização da eleição do nome, que pretendeu abarcar o máximo de estudantes. Agora, não nos interessa a vaidade de dizer que se trata de uma iniciativa de nossa gestão, nós nos satisfazemos por ter garantido espaço para que ele se formasse com a participação de estudantes fora da gestão.

Reconhecemos também que mais poderia estar sendo feito, como a ideia antiga de um cineclube ou de um grupo de estudos sobre a universidade, indicando nossa concepção de que a vida universitária se estende para além das salas de aula. Mas por haver poucas pessoas na gestão e pela impossibilidade de dedicação exclusiva (afinal, também estudamos e trabalhamos), nos vemos constantemente com mais ideias do que com pernas, fracassando algumas vezes em exercer o papel da entidade de articular diferentes atividades estudantis – inclusive aquelas em diálogo com professores e funcionários, como o Diálogos Sinceros. Aliás, a diferença mais evidente entre qualquer grupo político que se organize e os membros da gestão propriamente dita é que estes estão comprometidos com os calendários institucionais, da entidade CAF, que amiúde excede o calendário da própria gestão. Por exemplo, o calendário institucional pode alterar-se bruscamente, de um dia para o outro, o que exige uma atenção e dedicação extra por parte dos membros da gestão. Talvez seja devido a essa responsabilidade, assumida no momento das eleições, que o número de membros na gestão seja, historicamente, tão baixo. E é, em geral, quando os membros da gestão tentam dar conta de seu calendário enquanto gestão e do calendário da entidade que muitas vezes falta perna.

Nossa abertura permanente à participação de qualquer estudante de filosofia – entendendo por participação, aliás, muito mais do que os costumes da vida militonta – não é pedido encarecido por ajuda para realizar atividades, mas uma decisão política! Não somos nós o movimento estudantil da Filosofia e quem quiser, que nos acompanhe. Se temos críticas ao que o movimento estudantil da USP vem fazendo – como temos –, então vamos apresentar contrapropostas pondo-as em prática em nosso curso: garantir um jornal em que não há predominância daquela repetição industrial de ideias e jargões, mudar o formato da reunião do CAF (por que não passar filmes curtos e debatê-los, por que não organizar discussões temáticas para além das coisas que precisam ser encaminhadas em reunião?), tornar o mural um espaço também profícuo à expressão dos estudantes, repensar a forma de se tirar decisões coletivas.

Tomar o CAF como um espaço maior que a própria gestão não só permite a participação de mais estudantes, como também afasta a atitude de atribuir a responsabilidade de realização de atividades somente ao grupo restrito eleito para ser gestão. Em verdade, acreditamos que o poder de atuação do CAF aumenta se mais pessoas participam das discussões e execuções. Temos nossas reuniões abertas todas as segundas-feiras às 18h, também temos nossos corredores e iniciativas como o jornal! Mas é preciso articular.

Outubro/Novembro de 2012

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