O legado de Sokal: dezesseis anos depois do affair

Por Igor de C. e S.C.

“¡Todo es igual!
¡Nada es mejor!
¡Lo mismo un burro
que un gran profesor!”
(Cambalache, Enrique Santos Discepolo)
“Now heaven knows, anything goes”
(Anything Goes, Cole Porter)

Dezesseis anos se passaram desde a publicação do escrito irônico dos físicos Alan Sokal e Jean Bricmont. A história é simples: incomodados com o aparente vale tudo dos cultural studies e, mais do que isso, com o mal uso do jargão científico,  empregado para conferir uma aura de erudição e respeitabilidade a trabalhos vazios, Sokal e Bricmont submeteram uma paródia ao conceituado periódico americano Social Text. O trabalho foi feito seriamente: cada linha do artigo – “Transgressing the Boundaries: Toward a Hermeneutics of Quantum Gravity”, um título por si só divertido – parece cuidadosamente pensada como sátira aos vícios e cacoetes que imperam no mundo acadêmico. Dezenas de notas de rodapé se aglutinam, formando uma verdadeira barricada, atrás da qual o texto, tímido, se esconde entre afirmações inebriantes e delirantes, sempre de mãos dadas com um sem número citações de eminentes intelectuais das humanidades. Mas, a despeito da total sandice que permeava o ensaio, ele foi aceito. Não como paródia, mas para compor uma edição especial da Social Text. Daí para frente, a polêmica havia se instalado sem haver volta possível e o debate, no mais das vezes muito pouco civilizado, correu o mundo. Nossos trópicos não foram exceção, e tiveram seu epicentro no jornal Folha de São Paulo, que recebeu artigos de autores tão díspares quanto possível. Agora, após o baixar da poeira, talvez seja possível arriscar alguma conta dos mortos, se é que houve algum.

Após a publicação de um segundo artigo, onde o embuste era cuidadosamente deflagrado, os autores expuseram suas preocupações: trazer à luz a nudez do(s) rei(s), identificados por eles como eventuais impostores, assim como sua quase necessária ligação com as teses do relativismo epistêmico cognitivo. A preocupação foi, em boa parte, política: declaradamente de esquerda, os autores criam que parte desse falatório, invariavelmente ligado ao pensamento esquerdista, era grande responsável pelo enfraquecimento de um movimento que, antes de tudo, devia se opor a desigualdades. O debate não seguiu por aí, entretanto, e acabou por derrubar outras máscaras no caminho.

O tom geral ficou entre a seriedade e a brincadeira, pendendo muitas vezes mais para a segunda do que para a primeira. O objetivo era fazer a plateia, atônita, rir dos monarcas despidos. E dificilmente o leitor não se sentirá impelido ao riso, frente aos absurdos cuidadosamente recolhidos e expostos na vitrine satírica de sua obra. Ficamos sabendo, por exemplo, do sexismo intrínseco à equação de Einstein, que “[…] privilegia a velocidade da luz em comparação com outras velocidades que nos são vitalmente necessárias.” Segundo os autores, esse uso despudorado de termos científicos só servia para inebriar o leitor, que se achava perdido em meio a um conteúdo hermético no qual ele frequentemente não era versado de modo algum. Resta saber se os flagrantes ridículos eram suficientes para o descarte de tudo o que nisso tivesse tocado, ou seja, de qualquer coisa que acenasse, ainda que sutilmente, ao relativismo; algo negado pelos autores, mas que parece implícito na chacota.

Mas voltemos ao Brasil: aqui, o debate foi relativamente acalorado. Primeiro, em relação ao artigo; depois, acerca do lançamento do livro de Sokal – por aqui, “Imposturas Intelectuais”. A comoção geral começou por parte dos setores mais conservadores do espectro político: pintou-se um Sokal que desmascarava as fantasias irreais próprias do esquerdismo, sobretudo em sua variante acadêmica, também dita notória por seu ávido corporativismo e ímpeto de  censura. O leitor mais atento – aquele que leu o texto antes de partir para as resenhas – podia notar o conteúdo falacioso da conclusão, já que os autores assumidamente tentavam separar o joio do trigo, não incendiar toda a colheita. Infelizmente, esse tipo de argumentação periférica – isto é, que ataca pessoas e posições políticas em lugar de ideias e argumentos – ainda grassa em grande parte do debate, seja ele científico, filosófico, político. Também infelizmente, essa estratégia não é exclusiva de um círculo marginal do conservadorismo agressivo. Quem passar os olhos cuidadosamente sobre parte das polêmicas quase onipresentes em nosso tempo, verá uma triste repetição desse comportamento. Tornou-se impossível discutir seriamente uma infinidade de temas, tal é seu imbricamento com picuinhas puramente ideológicas. Assim, é triste ver que basta dizer que algo é, digamos, uma investida conservadora para, automaticamente, invalidá-lo. Todo o trabalho cuidadoso com argumentos, verificação de fatos, clareza e rigor vão por terra, já que uma palavrinha mágica – mutável de acordo com o lugar a ser proferida – dá conta de todo o trabalho.

A conta dos mortos é extensa. A rigor, em um nível mais fundamental, ninguém morreu: o “pós-modernismo” continua seu curso silencioso nos meios acadêmicos; os cientistas continuam seu trabalho nos laboratórios, à revelia do que qualquer trabalho revelador dos estudos relativistas  das ciências. O todo já perdia, à época, com o divórcio cada vez mais escancarado entre as ciências humanas e naturais. Agora, continua a perder, em um ritmo que parece não ter se alterado muito. O estado das coisas não sofreu um abalo com as propostas de Sokal, cujas posições positivas, senão ingênuas (não acredito que o sejam), são ao menos carentes de grande relevância para os estudos filosóficos das ciências. A desonestidade intelectual continua viva e sempre presente nas praças: as públicas e privadas, de tijolos, papel ou bits. Podemos tirar  alguma lição de tudo isso, além do evidente sentimento de derrota imposto àqueles que acreditaram em um debate franco? Acredito que, sim, há muito a ser aprendido. Entre outras coisas, arriscaria dizer que não fazem mal ao filósofo a humildade na discussão e a iconoclastia atenta na leitura. A filosofia, enfim, tem pouco a ver com o culto a personalidades.

P.S. Preferi não dar nome aos bois no concernente ao debate brasileiro. Não por qualquer mistificação, mas para não tornar o texto uma guerra de egos. De qualquer forma, há um sumário extenso, com todos os textos publicados ao redor do  mundo, os brasileiros inclusos, na página acadêmica de Sokal: http://www.physics.nyu.edu/sokal/.

Outubro/novembro de 2012

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