Os retratos de Salinas

Por Michel Amary

Escrever uma biografia é como pintar um retrato! As cores são as palavras que se interpõem ao desafio da página em branco:  apresentar uma imagem de nosso personagem. O retrato não inventa história, não cria ficção, por mais absurda que a  história que se conte seja, mas faz das faculdades da imaginação um dos grandes instrumentos do retratista que precisa  transpor do melhor modo aquele que deve falar ao silêncio mórbido do papel É necessário imaginar antes de retratar.  Quando a imagem de quem nós retratamos pede a forma, já são outros critérios para os quais devemos estar atentos, o retrato deve descrevê-lo, riscar seus traços, salientar suas características, dar-lhe uma justa proporção, seja em seus erros,  seja em suas glórias. Quando pintamos ou escrevemos também somos juízes de nossos objetos, devemos ter a delicadeza no toque ao expressar uma alma e a frieza da mão que pesa sobre o caráter de todos nós. É importante achar a posição precisa entre o eclipse de um passado que assombra e a luz que não falta àquele que retrato. Então, a percepção e a memória também se fazem imprescindíveis. Ao falar de alguém não retratamos apenas o ser humano, mas o seu espaço, seja ele claustrofóbico como um cubículo escuro em um porão qualquer pelo qual a luz aparece fulgurante, ofendendo o ódio cego de determinadas ratazanas antropomorfizadas, seja em um quarto solitário no centro da cidade pelo qual o sol corta a janela, derretendo as certezas da razão. O tempo, como a razão, caminha incerto e são as variâncias climáticas e temporais que, sobretudo, realço sobre aquele que pretendo retratar. Mas, espera aí, eu não estou a escrever uma biografia! É bom que a razão me impeça de cair na tentação de realizar algo que não estou capacitado a fazer. Realmente não vou retratar uma vida, seus personagens, seus lugares, seus tempos, suas histórias; não darei as cores sóbrias daquele sobre ao qual falo: Luiz Roberto Salinas Fortes. O que posso fazer é apenas um comentário que dê os meus matizes sobre este que só posso conhecer postumamente. Um comentário que também não deixa de ser um retrato, talvez na melhor forma do  simulacro, um retrato sobre o retrato; uma metalinguagem sobre os personagens, os lugares e a história de vida; um retrato  sobre as impressões subjetivas de alguém que se autorretratou para conceder a si uma anistia ampla, geral e irrestrita e a nós a liberdade de poder dizer seu nome.

Belo, tímido, talentoso! São esses os relatos daqueles que o conheceram. Um menino interiorano que veio estudar direito no Largo de São Francisco e se interessou por filosofia. Um jovem Salinas que despertava o elogio das meninas na mesma proporção em que Sartre lhe chamava a atenção. Quantas foram as tardes na Maria Antônia em que ele passava  falando sobre o filósofo francês despercebido dos olhares interessados que lhe destinavam. Guardemos esse Salinas, ainda inocente e encabulado, em um porta-retrato da lembrança. Os suores noturnos que já o atormentavam desde cedo, as dúvidas existenciais que sempre o perseguiram, as inconstâncias de um pensamento próprio que se direcionava ao ceticismo sobre a razão e sobre o tempo é que são os primeiros retratos de que quero falar. Posso sentir a angústia de seu modo de pensar, a consciência sobre sua fragilidade emocional, tipicamente humana, que, mesmo amedrontada, não se deu por vencida e com coragem enfrentou tudo o que estava por vir. Salinas se sentia fora do mundo e realmente o estava. Sua existência não era compatível com as barbaridades que havia ouvido sobre Auschwitz e que se teciam por debaixo dos panos verde e amarelo da pátria mãe gentil. A caricatura mal feita do autoritarismo, do terror, dos instintos mais repulsivos que não sou capaz de vislumbrar só poderia ser piada de mau gosto para um entusiasta de Rousseau. Com pesar, é pelo riso sádico e totalitário do leviatã que Salinas descobriu que, no meio de lobos, o anacrônico é ser humano!

É impossível não pensar em como aquela personalidade carregada pelas incertezas que o amadurecimento não tratou de acalmar, pelo entusiasmo da juventude, pelos sentimentos que nos fazem humano, e pela capacidade de pensar além de  sua época, teria recebido o duro golpe que recebeu do destino. Em como o já filosofo Salinas poderia justificar para si a dor física de uma realidade deformada que nunca foi a sua. Se os homens se encontravam aos ferros, Salinas conhecia o pau que o sustentava de cabeça para baixo enquanto esfolavam as suas costas. Um mundo ao contrário que certamente fez Salinas desejar o fracasso de uma das maiores das questões metafísicas, a união o corpo com a alma. A tortura foi abominável, cruel, inumana, não há adjetivos capazes de descrever o tamanho sofrimento que ele relatou. Por isso também tenho que me retratar com Salinas. Aqui faço meu segundo retrato, não aquele que mostra a essência da pessoa, mas aquele que pede desculpas. É quase indigno escrever sobre Salinas sem sentir a dor física e psicológica que ele se submeteu ao retratar suas memórias. Sou incapaz de sentir o sofrimento que está além de qualquer um que não tenha o vivido. As sequelas vão além das têmporas que aliviavam a clamor do corpo, o espírito pede piedade no reviver de toda sua história, inúmeras e inúmeras vezes. A prisão sem motivos, sem por quês, sem conhecimento do que se fez, ultrapassa a realidade das alegorias de Kafka, a aflição do desconhecimento, a angústia da dúvida, a dor da tortura, o medo de sentenciar amigos à morte, se repetiram não apenas do Doi-Codi ao Deic, mas também nas incontáveis noites de insônia sobre a máquina de escrever em que repassava o mesmo sofrimento a cada letra lida por seus pensamentos.

Meus colegas e eu já não podemos compartilhar o mesmo espaço que Salinas. Que lembranças teríamos das aulas sobre Platão que o tiraram da luz e o levaram para a mais profunda das cavernas? O que teríamos aprendido se a nossa vontade geral prevalecesse? Ah, que cursos maravilhosos poderíamos testemunhar. É lastimoso não poder mais contar com seus valiosos ensinamentos sobre ética e política. Infelizmente nunca poderemos reaver os volumes do Capital pelos quais tinha tanto apreço e certamente foram queimados em alguma fogueira da censura. Também não podemos devolver a dignidade, a saúde e o futuro que lhe roubaram naqueles fétidos porões. Mas há uma coisa que nós estudantes, que também fomos destituídos de sua presença, podemos: fazer, de sua memória, vida! Ainda que Salinas não quisesse ser visto como um herói, achava-se covarde demais para isso, precisamos devolver a moral à justiça, necessitamos recobrar dos fatos sua verdade histórica. É por isso que devemos fazer com que seu cálido retrato fale. Retratos falados não são apenas aqueles que, esquecidos, estão comidos pelo mofo nos empoeirados depósitos da repressão; mas também aqueles retratos que contados de pessoa a pessoa, vivem, e ao viver dignificam a memória daqueles que se foram para que a história não mais se repita nem como farsa e nem como tragédia. É essa a emergência da Comissão da Verdade da USP: fazer um retrato da verdade para que, em um pedido de perdão, a história oficial se retrate com todos aqueles que, Fortes como Salinas, deixaram suas vidas nas mãos do inquisidor para que não tivéssemos nunca mais que passar por isso.

Outubro/novembro de 2012

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