Somos todos Pussy Riot!

Por André Paes Leme

“No verão, confinamento intolerável, no inverno, frio insuportável.
Todos os pisos estavam podres. A sujeira no chão tinha
uma polegada de espessura; alguém poderia tropeçar e cair…
Éramos empilhados como anéis de um barril… Nem sequer
havia lugar para caminhar… Era impossível não se comportar
como suínos, desde o amanhecer até o pôr-do-sol.”
(Fiódor Dostoiévski)

Em 23 de Abril de 1849, sob a acusação de conspiração contra o regime do Czar Nicolau I, fora encarcerado Fiódor  Dostoiévski. O regime autocrata russo, temendo a onda revolucionária que varrera a Europa alguns meses antes, passara a perseguir obstinadamente toda e qualquer forma de oposição à sua supremacia. O autor de Crime e Castigo era membro de uma organização conhecida como Círculo Petrashevsky, um grupo de intelectuais, com certas tendências socialistas, dispostos a discutir e a intervir na situação política do país.

De todas as acusações que pairavam sobre o romancista, a principal delas referia-se a uma leitura pública da famosa carta aberta em que Bielínski estraçalhava os pressupostos reacionários sobre os quais repousavam parte da obra de Nikolai Gogol. A despeito de sua errante trajetória, tal missiva acabou por tornar-se um dos mais importantes documentos históricos da literatura russa do XIX. Nela, ao comentar como Gogol fora desonesto ao reduzir os ensinamentos de Cristo à pregação da Igreja Ortodoxa, Bielínski acusava: “A igreja surge como hierarquia, portanto defensora da desigualdade, aduladora do poder, inimiga e perseguidora da fraternidade entre as pessoas – e continua sendo isso até hoje.”

A sociedade de então não suportara tamanho acinte. Como ousar, ainda mais em público, um ataque tão direto ao clero? Dostoiévski fora detido e condenado à morte. O texto dele que colocamos aqui em epígrafe é a descrição que o autor nos oferece da prisão a que fora recolhido. Não bastasse a situação desumana em que se encontrava, Dostoiévski ainda teria de passar pela simulação, orquestrada em pessoa pelo Czar Nicolau I, de seu próprio fuzilamento. Seu destino seguinte fora um campo de trabalhos forçados na Sibéria, onde o inferno multiplicou-se. Dostoiévski sairia de lá apenas em 1854 para então tornar-se um dos maiores escritores da literatura universal.

Mas nossa história ainda está longe do fim. No ano de 1930, Vladimir Maiakovski, o poeta da revolução bolchevique,  encontrava-se em um agudo estado de depressão. Stálin finalmente se instalara no comando do Partido Comunista e da burocracia estatal e colocara em funcionamento uma enorme máquina de guerra pronta para aniquilar todos aqueles que se colocassem no “caminho da revolução”. O humor corrosivo da poesia de Maiakovski e o caráter metafórico de sua produção teatral haviam se tornado muito mais vanguardistas do que exatamente proletários. Sua arte já não se enquadrava nos padrões políticos do realismo soviético. Sua voz dissonante se tornara dissidente. Aos 36 anos, o mais brilhante criador daquela geração, acossado pela perseguição stalinista, suicidou-se. Um claro sintoma de que o comunismo soviético padecia fortemente de um autoritarismo que mais tarde seria a causa de sua ruína.

Em 1937, foi a vez de Asja Lacis, atriz, diretora de teatro e sobretudo militante política cosmopolita, sentir os efeitos nefastos da repressão stalinista. Muito conhecida como a mulher que, segundo a dedicatória de Rua de Mão Única, na qualidade de engenheira, a abrira – a rua – no coração de Walter Benjamin, Lacis nunca escondeu ter sido uma das maiores entusiastas do ideal de liberdade que parecia ganhar forma quando os bolcheviques tomaram o Palácio de Inverno. Certamente, a  esperança na causa revolucionária fez com que a talentosa atriz, que começara sua vida política no interior da Letônia em um grupo conhecido como “teatro perseguido”, calasse quase que completamente a respeito de sua estadia em um Gulag: “Fui obrigada a passar dez anos em Kazajstán”, diz ela em sua autobiografia.

Haveria ainda centenas de capítulos a incluir nessa nossa pequena história. Porém, em um longo salto chegaremos a Dezembro de 2011. P assada uma grande guerra mundial, o apogeu e o declínio da guerra fria e finalmente a fragmentação da União Soviética após a queda do muro de Berlim, alguns milhares de pessoas são detidas em manifestações contra  possíveis fraudes nas eleições legislativas russas. A onda de protestos segue maciça após as declarações de observadores internacionais confirmarem a alta incidência de procedimentos suspeitos durante a apuração dos votos. Os opositores pedem a anulação do pleito e a queda de Vladimir Putin, presidente da Rússia entre 2000 e 2008 e primeiro ministro do presidente Medvedev (indicado por ele) desde 2009.

Em Março deste ano Putin foi reeleito presidente com 64% dos votos. Mais uma vez, no entanto, a oposição e os  observadores internacionais insistiram na existência deliberada de procedimentos fraudulentos. Uma ONG chegou a apontar que a votação real de Putin estaria na verdade na casa dos 50%. Uma nova onda de protestos se inicia pelas principais cidades do país. Mas, antes disso, em fevereiro deste ano, Yekaterina Samutsevich, Maria Alyokhina e Nadezhda Tolokonnikova foram presas sob as bizarras acusações de “hooliganismo” e incitação ao ódio religioso.  Integrantes de uma banda punk feminista chamada Pussy Riot, as três mulheres haviam adentrado a Catedral do Cristo Salvador, em Moscou e, embaladas pelo som estridente de suas guitarras, entoaram uma oração punk pedindo à Virgem Maria que se tornasse feminista e expulsasse Vladimir Putin da presidência.

Em política, há algumas décadas, conhecíamos este tipo de ato como ação direta. Em estética, Walter Benjamin fora muito feliz ao encontrar a expressão “experiência do choque”. Talvez não fosse por demais ousado reconhecer, na petulância e na irreverência com que as jovens saltavam sobre o altar da catedral ortodoxa, o abismo sem estrelas que Benjamin descobrira em Charles Baudelaire. Ciente de todo o peso do anacronismo em que nos arriscamos incorrer, defenderíamos que a ação direta das Pussy Riot, mais do que um novo capítulo de uma história que gostaríamos de dizer esgotada, retoma o aspecto político combativo de uma tradição artística que se autodenominou moderna. Não se trataria aqui obviamente de uma análise estética da música ou da famigerada “oração” realizada pelo grupo em meio a igreja, mas apenas de reconhecer uma nova possibilidade de imbricamento entre arte e política numa época em que isso já não parecia mais possível.

Sob o imperativo da brevidade, diríamos que, se a experiência do homem da metrópole na virada do XIX para XX fora marcada pela impossibilidade de caracterizar-se como uma experiência autêntica, o impasse que se colocou à dita era pós- moderna foi o da espetacularização desta mesma inautenticidade. Se o niilismo perpassava o espírito de uma época cuja experiência coletiva encontrava-se completamente arruinada, Baudelaire ainda podia recolher-se à meditação melancólica e transformar, pela reflexão, a experiência vivida do choque em uma imagem poética. No entanto, em um tempo em que a própria noção de reflexão já não pode ser afirmada sem os ares de uma ressuscitação impossível, a questão que se coloca é a da possibilidade mesma de uma experiência do choque. Se o decadentismo de Baudelaire se caracterizava pela busca inaudita por salvar os vestígios de uma experiência histórica, como podemos nos comportar em um mundo em que estes vestígios já há muito parecem perdidos? É a esta questão que as Pussy Riot parecem de alguma forma responder. Perante uma realidade em que o niilismo se mostra apenas mais uma teoria, um simples imaginário da catástrofe, as associações entre arte e política aparecem sob a forma do apoio de celebridades à questões como a ecologia, a defesa dos animais ou, na melhor das hipóteses, a luta contra a homofobia e o sexismo. Alguns veem nisso a vantagem da descentralização dos focos de luta por reconhecimento, outros constatam a desaparição da própria política.

Baudelaire ressentia-se de não poder realizar uma experiência coletiva autêntica, por isso sua experiência com o social era uma forma de choque. Mas e nós, será que ainda podemos viver uma experiência de choque? Algum evento na vida social ainda preservaria a capacidade de nos chocar, de ofender, de desestabilizar nossa concepção de mundo? O breve  comentário que Slavoj Zizek dedicou ao episódio nos dá uma pista: “Elas são artistas conceituais no sentido mais nobre do termo: artistas que encarnam uma ideia. Este é o motivo de estarem mascaradas: máscaras de des-individualização,  liberadoras do anonimato. A mensagem de suas máscaras é a de que não importa quais delas foram presas – elas não são indivíduos, são uma idéia. E é por isso que são uma ameaça: é fácil aprisionar indivíduos, mas tente aprisionar uma ideia”.

O riso irônico que se insinuara no rosto de Nadezhda no momento da condenação das três mulheres a dois anos de prisão parece confirmar o diagnóstico do esloveno.

Há de se reconhecer que a Rússia de hoje, um país de dimensões continentais, possui uma enorme faixa de sua população fortemente ligada aos valores clericais e a uma política de costumes bastante conservadora. Por outro lado, a desintegração da URSS favoreceu a instalação de um capitalismo, de tal forma selvagem e aguerrido, que, em pouco mais de duas décadas, foi capaz de fazer brotar uma seleta casta de novos bilionários com significativo papel do mercado mundial. É entre esse processo avassalador de modernização e a manutenção de  estruturas sociais arcaizantes, que sequer parecem ter sofrido o impacto do apogeu e da queda do comunismo, que Putin equilibra-se habilmente. Inútil notar a extrema fragilidade de uma democracia erigida sob as condições apresentadas.

O culto personalista a Putin, apesar do forte apoio recebido da Igreja Ortodoxa, não chega a ser de uma natureza tão distinta daquele que outrora fora destinado a Stálin. Por isso não deveríamos nos admirar quando Nadezhda Tolokonnikova afirma corajosamente em seu discurso de defesa sentir-se diante de uma troika dos tempos soviéticos. Mais ainda, Nadezhda poderia reconhecer-se, como vimos, na pele de um Dostoiévski (o homem e não o criador. Como vimos, Dostoiévski foi perseguido por sua militância política e não diretamente por seus escritos.) as voltas com a ortodoxia cristã e o poder de fogo de Nicolau I. É agravada ainda a opressão pela sua situação feminina que lhe impinge a necessidade, muito bem observada por Simone de Beauvoir, de afirmar-se antes de tudo como um ser humano dotado de direitos.

De todo modo, o ponto que gostaríamos de enfatizar é que as Pussy Riot deixaram um lampejo sobre como podemos recuperar uma velha forma moderna de se fazer política: a forma do choque, da desestabilização. Elas foram capazes, em um único ato, de “reunificar” as pautas da emancipação social com a da emancipação das mulheres (um feminismo que combate as aparências do tecido político-social ao invés de contentar-se com a distribuição equitativa, entre os gêneros, das formas de opressão) e justamente por isso sofreram uma represália tão dura por parte do Estado. A política de Putin,  claramente apoiada pelo clero e pelas massas conservadoras, inseguras acerca de seus valores tão arcaicos quanto  incipientes, é incapaz de neutralizar cinicamente um ataque frontal como o das Pussy Riot. Como nos mostrou Zizek, sua performance tem o peso de uma Ideia.

A política de Putin é a do medo. Mas ela não é apenas dele. Como a pequena história que buscamos traçar desde a prisão de Dostoiévski nos mostrou, a política do medo é o espólio czarista que fortaleceu Stálin diante de Trotsky e que agora opõe Putin à democracia. Sua tentativa com a condenação é transformar a punição às Pussy Riot em exemplo de seu poder e, assim,  reprimir manifestações contrárias a seu governo. A política destas feministas, no entanto, é a da boutade, do deboche, da irreverência, enfim, da ironia. Putín monta sua farsa e as condena. Os ortodoxos vibram. A comunidade internacional horroriza-se. Nadezhda sabiamente esboça um sorriso sarcástico. Durante um dos dias do julgamento ela vestia uma camiseta estampada com a frase “No Pasarán!”, uma clara referência ao lema eternizado por Dolores Ibarruri (La Pasionaria) durante a guerra civil espanhola no cerco à Madrí, perpetrado pelas tropas nacionalistas. Como sabemos, eles, os franquistas, passaram. Mas não apenas pelos comunistas. A história lhes pregou uma bela peça, isto é, o seu vitorioso “passar”, no decurso do tempo, converteu-se em um lacônico “extinguir-se”. Assim, das profundezas de seu sorriso irônico, a bela Nadezhda deixa entrever a solidez de uma certeza: Putin e os ortodoxos também passarão!

Outubro/novembro de 2012

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