Ato sem palavras

Por Lucas Paolo

Chico Caruso

Carlos Latuff

As charges que ilustram este texto protagonizaram algumas discussões na entrada do mês de fevereiro em diversos blogs e redes sociais. Não sou atualmente adepto da interconexão intermitente, ou seja, não possuo mais Facebook e, portanto, não vivenciei o calor da discussão, a mobilização cibernética. Tomei conhecimento dos burburinhos da balbúrdia por comentário de um professor em um blog literário, e isso com uma boa distância do olho do furacão. Escusas apresentadas, tentarei  me posicionar nesta nota contra os diversos discursos, digamos, moralizantes, humanistas e, sobretudo, os exaltado-absolutistas.

Os muitos impropérios que li podem ser genericamente resumidos da seguinte forma: com vistas à elaboração de um intento antipetista, Caruso teria beirado as raias de uma atitude inominavelmente desrespeitosa, inumana – uma gracinha que poderia ser denominada como “infantilismo bestial”; já Latuff teria ironizado na medida certa o abominável posicionamento das autoridades antes e depois da tragédia ocorrida em Santa Maria (não foram poucos os que se regozijaram infinitamente com outra charge de Latuff sobre o comportamento insensível da imprensa).  Posiciono-me contra essas leituras que, a meu ver, estão enclausuradas no imediato de um discurso imagético que vem apenas confirmar concepções preconcebidas, vem afirmar a suficiência de um discurso crítico estabilizado que estagna politicamente tanto setores da dita esquerda, quanto da direita. Gostaria de sugerir que a partir da charge de Caruso é possível formular questões mais interessantes que as de Latuff que, para mim, só reiteram um discurso moralizante estacionário.

Comecemos pela charge de Latuff. Ela coloca em pauta a pergunta-de-um-milhão-de-dólares tão difundida: “A culpa é de quem?”. Essa citação à famigerada canção da banda Planet Hemp carrega consigo a necessidade postulada pelo ressentimento social de responder às dificuldades que assolam nossos modos de vida e de organização social com um apelo identitário. É preciso que haja uma teia coerente de causas e efeitos que, se bem analisada, nos encaminhe a um “Quem” ou “O que” que possa ser responsabilizado pelas lamúrias de uma felicidade social cada vez mais inalcançável. Na melhor das hipóteses, poderia se argumentar que a questão vem apenas reiterar uma indecidibilidade pessimista que gostaria de colocar, em última instância, o inescapável estado em que nos  encontramos, no qual essa pergunta não pode mais chegar nem perto de ser respondida. Todavia, a relação entre  imagem e texto parece querer sugerir que a pergunta seria de antemão inútil, dado que todos sempre estão se eximindo da responsabilidade e da culpa pelos fatos ocorridos. Talvez inclusive possamos optar por dizer que a pergunta é desde o início inútil, já que está tão disseminada no senso comum e não vem acrescentar muitas questões à imagem. Já a imagem apenas vem oferecer uma representação que coaduna com o que passa na maioria das cabeças que a olham. Ou seja, vem cumprir perfeitamente sua função de charge inócua ocupando de 2 a 3 segundos da vida de alguém com a possibilidade de se autoafirmar: “E não é o que eu sempre digo, na hora do vamos ver ninguém sabe, ninguém viu. É sempre a mesma coisa, ninguém leva a culpa nesse nosso paisinho e tudo acaba em pizza, mesmo!”. Para além da questão de que esse dizer não é inteiramente de se desprezar, o que importa aqui é que o sujeito se coloca na posição de suficiência estético-moral . Como se a verdade fosse por demais evidente e a falha  infligida a nosso ordenamento jurídico não nos permitisse efetuar a justiça social – pensamento que exime o sujeito  que se crê crítico de qualquer ato moral verdadeiro, imputando à falibilidade das leis, principalmente de seus executores, o soçobrar do Estado democrático de direito.

E em que a charge de Caruso difere disto? A charge de Latuff oferece signos que não mimetizam a realidade social – em verdade, afirmam um distanciamento irônico dela –, mas significam, no fim das contas, um discurso ordenado e crítico da realidade social. Já a charge de Caruso, oferece signos que mimetizam a realidade social, mas conforma um discurso incoerente, absurdo. Há algo de muito preciso em mostrar que a personagem da charge olha para a  enorme quantidade de fumaça e não para a boate pegando fogo – afinal, na maioria das vezes se reconhece um incêndio pela fumaça e não pelo fogo. Entretanto, essa personagem jamais se exaltaria com o calamitoso da situação, gritando: “Santa Maria!”. Digamos que Caruso quis sugerir a presidenta Dilma com a personagem, jamais ela pronunciaria tal infame trocadilho. Contudo, o discurso absurdo diz mais profundamente sobre nossa realidade social justamente ao postular o descompasso entre realidade e discurso. A irredutibilidade insinuada nesse descompasso já é altamente profícua ao sugerir que às vezes o real é demasiado para o discurso. Mas isso apenas aproximaria a charge de Caruso da indecidibilidade frente à pergunta “A culpa é de quem?”; ambas carregariam em seu bojo a consciência de que o discurso que quer pensar a realidade social sempre possui fundamentos insuficientes para a compreensão da totalidade de questões envolvidas nos fatos. Porém, mais que isso, a charge pode trazer uma questão suplementar ao sugerir que a impotência não é apenas moral. Podemos olhar para charge e pensar que o ordenamento jurídico e os dispositivos governamentais são incapazes de tematizar o ocorrido – exatamente por isso emitem um  discurso absurdo. Como se, anteriormente ao fato, os dispositivos que regulam nossa realidade social já fossem  incapazes de dar conta de uma tragédia dessa magnitude.

Mas em que diferem, então, as charges? A de Latuff carrega o pressuposto de que há uma suficiência do ordenamento jurídico e dos dispositivos governamentais para evitar ou julgar a situação, podendo-se, assim, identificar os responsáveis pelas falhas produzidas nessas instâncias. Já a de Caruso pode produzir um estranhamento – talvez até um estremecimento – frente à percepção de que há uma insuficiência imensa em nossos dispositivos governamentais e em nosso ordenamento jurídico. Não se trata de reduzir o ocorrido em Santa Maria à mera fatalidade, mas perceber que a tragédia, em última instância, não surge de uma falha ocorrida em nossa realidade social, mas provém justamente das estruturas que a conformam.

Março/abril de 2013

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