Bramidos dissensuais

Editorial do CAF

“Se é necessário o silêncio da razão para curar os monstros, basta que o silêncio esteja alerta, e eis que a separação permanece.”
(Foucault, Ordem do Discurso, p. 13).
BEM-VINDOS CALOUROS!!! Porque aqui na Filosofia ninguém é bixo, bixete ou bixano, estamos todos em devir-animal. E se o sono da razão produz monstros, o silêncio do discurso – com ou sem método – coaduna com a apoplexia política. O DISCURSO SEM MÉTODO – Um jornal a serviço da dúvida – começa o ano, então, soltando os monstros, que habitam os corredores de nosso departamento, para berrarem em altissonante insurgência a urgência de fazer política de nosso agora. JÁ! Lembrando sempre que nosso gritar, não é palavra de ordem, mas é um convite a você ingressante e a todos os ditos veteranos: VENHAM GRITAR CONOSCO!

Para tanto, neste impresso que você recebe e continuará recebendo gratuitamente e bimensalmente, conjugamos reflexões políticas, acadêmicas, estéticas, éticas, sociais, entendendo que estas áreas se permeiam  continuamente e que as questões de cada uma delas estão implicadas nas questões das outras, de forma que os  problemas estão sempre se interconectando e servindo de fermento uns para os outros. Talvez um gesto político emergencial esteja em afirmar a interdependência das áreas de reflexão filosófica. Uma forma de dizer que política da estética e estética política, ou política do sensível e sensibilidade política, são irredutíveis, mas também indissociáveis. Anima, então, nosso periódico, a ideia de dissenso (segunda opção mais votada para nome de nosso jornal – um possível codinome). “O que entendo por dissenso não é o conflito de ideias ou sentimentos. É o conflito de vários regimes de sensorialidade.” (Rancière, O espectador emancipado, p. 59) Perceber que o dissenso é o cerne da política, nos aponta para a irredutibilidade das sensibilidades dos sujeitos políticos, para a indecidibilidade de todo dispositivo consensual, enfim, para a necessidade de não silenciarmos frente à necessidade de renovação dos dispositivos políticos, reivindicando que esses possam abarcar o dissenso que constitui a multiplicidade de formas de vida em nossas sociedades. ONDE O CONSENSO E O SILÊNCIO SÃO UMA ORDEM, É PRECISO GRITAR COM PALAVRAS E FORMAS DISSENSUAIS!

É isso que faz nosso periódico ao trazer a premência do debate sobre o PIMESP – Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Público Paulista. A “Nota de Repúdio” da Frente Pró-Cotas vem dizer que o PIMESP, travestido de política meritocrática e de reforço aos alunos menos preparados, está solapando as reivindicações históricas dos movimentos negro e de esquerda. Argumento que é analisado detalhadamente por Inauê Taiguara em “Cotas em questão”. A urgência desse assunto deve envolver toda a comunidade uspiana: neste semestre será decidido a implementação ou não do PIMESP, os conselhos universitários serão consultados – é necessário que os alunos reflitam e se posicionem sobre o PIMESP, AGORA!

Outro assunto de urgência: a recente presepada do Ministério Público ao imputar como formação de quadrilha a ocupação do prédio da reitoria em 2011. A “Nota de Esclarecimento à Imprensa” da Comissão Jurídica dos processados vem mostrar como por trás dessa imputação está a crescente criminalização dos movimentos sociais e do fazer político. Michel Amary explode de raiva e vem nos inflamar para a questão: “Quem é realmente a quadrilha?”.  Mais que reconhecer o pífio aparato jurídico utilizado para a imputação, a insustentável acusação do Ministério Público e nos aliviarmos com a dissipação de tal imputação, Michel vem nos lembrar, com Chico Buarque, que existe uma LUTA política em jogo e que é inadiável nos movimentarmos para que o amanhã possa realmente ser outro dia.

Nessa direção “Trânsito e transporte na USP” de Inauê Taiguara e “Por um engajamento político amplamente social” de Zé Calixto, trazem-nos pautas tão emergenciais quanto – talvez até mais pelo perigo de esquecimento – o problema dos transportes relacionados ao BUSP e a delimitação da comunidade USP, a desmilitarização da polícia e a legalização das drogas. Poderá se perceber, lendo estes textos, que as questões políticas que animam a USP estão intimamente interconectadas e que um “engajamento político amplamente social” vê que a USP e a sociedade paulistana não estão separadas, e que eleger pautas que dizem respeito a USP é propor como queremos que funcione nossa sociedade para além de nossos muros.

Nesse sentido, “Ato sem palavras” de Lucas Paolo e “A Nova Condição Humana” de André Oliveira vem mostrar como as formas de pensar, olhar, sentir, são determinantes na constituição política de nossa sociedade. André Luiz Oliveira, em uma divertidíssima narrativa, nos propõe a reflexão: “O que aconteceria com nossos modos de vida se a matemática deixasse de fazer sentido para os homens?”, mais precisamente “Haveria alguma ordem possível se o quantitativo fosse abandonado em prol do qualitativamente sempre distinto?”. Lucas Paolo, polemizando com charges de Chico Caruso e Carlos Latuff, parece nos querer sugerir: “Olhou uma vez, olho de novo…”; para sugerir o gesto ético de que jamais afirmemos nossa suficiência estético-moral – o autêntico e o verdadeiro estão sempre escapando em nossos modos de sentir e agir.

Mas não acaba por aí! Gabriel Philipson continua sua voraz dissecação do fazer história da filosofia. Se na edição anterior de nosso jornal, ofereceu-nos os modelos “vegetariano” e “canibal”, nesta edição nos brinda com o “espiritista” e o “necrófilo”. Duvidamos que a leitura desse texto não propulsionará um apetite insaciável para que você leitor devore os livros que virão pelo curso – sem esquecer de regurgitar, aqui e ali, os empanturramentos de suas glutonices zumbismais. O que aconteceria se Platão e Aristóteles decidem jogar “Par ou Ímpar”, é o que Thiago Fonseca nos oferece em seu texto homônimo. Thiago nos ajuda a lidar melhor com nossos professores, mostrando que até nosso querido Ari teve problemas com o intransigente Platão. Brincadeira incluídas, ambos os textos não cessam de nos mostrar o quanto o fazer filosófico ou do historiador da filosofia mobilizam sensibilidades irredutíveis e muitas vezes incomunicáveis. Mas na contramão do reconhecimento impossível, André Paes Leme nos oferece um breve comentário e um fragmento traduzido do livro “Elogio do Amor” de Alan Badiou.  Trata-se de reivindicar o amor como um afeto dissensual, contra a sensualização crescente das formas de  manifestação do amor que o mercado vende como consensos a serem adquiridos e partilhados. Ali onde o amor efetua a despersonalização das subjetividades e afirma a irredutibilidade da alteridade, assim como sua necessidade na constituição de um sujeito não-identitário, o reconhecimento não só se torna possível, mais urgente.

Por fim, e com certeza não menos importante, nossa seção de resenhas e poesias. Ela começa com a profunda análise de Alberto Sartorelli sobre o quadro “O Tempo” de Henrique Bernardelli, quadro este que em sua análise nos faz despertar para o aspecto existencial e problemático do tempo ao configurar nossas experiências. Já “A nova resenha de Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino” nos coloca, editores, numa aporia temporal e de procedimento. Você está começando a ler o comentário da resenha de André Scholz e já sente a vertigem palimpséstica de estar lendo o fim pelo início, o procedimento literário por seu simulacro assaz imperfeito. Não nos delonguemos: leia a resenha! Não menos vertiginoso é o “FUMER OU NE PAS FUMER… CE N’EST PAS LA QUESTION” de Siddhartha Sacadura, que pela negação ultradeterminada determina: frente a tantas questões fundamentais não deve ser para opinião pública o fumar ou não baseado a verdadeira questão. Perpassemos o nevoeiro criado pela opinião pública e coloquemos que a verdadeira questão com relação à legalização dos entorpecentes possui uma amplitude bem maior do que gostariam aqueles que colocam o livre-arbítrio no cerne das problemáticas políticas e sociais. Por fim, não incorreremos no absurdo de comentar cada poesia – isso  automaticamente colocaria o editorial na seção de resenhas e nosso periódico estaria indo longe demais com a lógica aristotélica e talvez com boa parte da filosofia dita ocidental. Apenas fica o alerta: se você levou a sério a inseparabilidade de política e estética, leve a sério a possibilidade das poesias que trazemos para você serem uma maneira privilegiada de violentar sua própria sensibilidade.

Mais uma vez agradecemos àqueles que têm colaborado para que este Jornal esteja se firmando com um veículo de discussão em nosso curso. E convocamos a todos para participar contribuindo com um texto, ou mesmo com a sua leitura e reflexão, a promover a dúvida, o debate, o engendrar de novas sensibilidades e novas possibilidades políticas e com a força de nosso grito.

Março/abril de 2013

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