Chico e os processados

Por Michel Amary

ilustração - chico e os processadosO primeiro sentimento ao ler que o Ministério Público Estadual movia uma ação contra os estudantes que na greve de 2011 invadiram a reitoria foi de raiva. Uma daquelas raivas pegajosas que partem do coração e grudam na mente nos trazendo a lembrança dos retratos calados que fizeram de nós. Esse desconforto pedia uma cabeça fria que  evitasse os perigos da ambiguidade que a raiva suscita. Quando direcionada a raiva pode produzir uma reação imediata à causa que a incita, transformando-a; por outro lado, quando potencializada ela toma caminho oposto, volta-se contra aquele que a sente, destruindo-o por confundi-lo com a própria causa que a inflama. De uma explosão de raiva podemos destruir máquinas e derrubar presidentes; sistemas inteiros podem vir abaixo quando nossa raiva não se transforma na própria arma do oponente, o ódio. Ódio é diferente da raiva, sua passagem é temporal. Enquanto a raiva aparece por um afeto negativo, ela logo se vai quando o novo chega com outras afecções. O ódio, por sua vez, se perpetua na escravidão e no racismo, na inquisição e na homofobia, no elitismo e na meritocracia, nos porões de antigamente e nas vielas de hoje. A raiva tem o poder de se colocar como uma mola para mudança, enquanto o ódio se impõe como um pouco mais do mesmo, do ontem e do hoje, do sempre. Mas de um jeito estranho, ao mesmo tempo em que da perpetuação da raiva nasce o ódio, o ódio pode se tornar motivo de raiva. O segundo momento é aquele ao qual nós respondemos; o primeiro é o que tentamos evitar. Quando eliminamos o outro apenas por ser diferente, por desejo, ou por um simples destruir, deixamos nossa raiva bater na porta do mundo daqueles que nos odeiam, por isso é necessário direcioná-la, em músicas, palavras ou ideias. Como diria Machado de Assis, é assim que fazemos um livro, um governo ou uma revolução.

Um pouco mais calmo, os resquícios dessa raiva primeira, que pura, nasce do âmago, persistiam como incômodo e inquietude; foi então que, antes de escrever, optei pela terapia da música. Deu-me vontade de escutar Chico Buarque. A referência era óbvia para um fefelechento que costuma ver ‘estado de exceção’ em tudo. Não preciso detalhar a biografia de Chico, cantor mediano, mas brilhante letrista que tomou uma posição importante na luta contra a ditadura Civil Militar. Música vai, música vem e escuto-o falar de nossos colegas processados. A música era Hino de Duran1 ! “Sem tostão”, trazíamos no “bolso apenas muambas e baganas”, que viraram “contravenção” após abordagem de policiais à paisana no morrinho (cf. Chico Buarque – Hino de Duran¹). Arapongagem que se tornou comum na USP, hoje nós vemos com tranquilidade a mensagem posta na demolição do Canil Espaço Fluxus de Cultura: “essa obra está sendo monitorada”. Vigiados pelo COSEAS no CRUSP, no Bandeijão, em nossos espaços deliberativos, e até mesmo no conforto de nossas casas com perfis falsos em redes sociais, começamos a cobrir o rosto  e a falar “palavras sutis, por senhas, sussurros, ardis” (id, ibid). Não demorou, para em uma polêmica Assembleia, estarmos “redondamente enganados” (id. ibid). De um jeito Rodas, rodamos. No calor do momento, “pensávamos que pensávamos” (id. ibid) e a reitoria foi ocupada. O que se seguiu foi “desprezo e o horror da sociedade”, ‘terroristas’, ‘vândalos’, ‘vagabundos’, viramos “um estorvo, um tumor” (id. ibid) para a opinião pública. “Bandidos infelizes”, nos “pregaram na cruz” (id. ibid). Logo em seguida, vieram “os urubus” e “os dobermans” (id. ibid) para nos levar das “pedras de nosso próprio lar” (id. ibid). De lá para cá, alguns de nós – os classificados como processados – passaram por maus bocados. Tensão, perseguição política, falta de apoio, despejo, perca de emprego, risco de expulsão. Passaram a
viver “sobre a sombra dos porões” (id. ibid) até que “a lei viesse abraçá-los com seus braços de estivador” (id. ibid). Como reagimos a isso? A raiva que em mim a notícia despertou, foi estado de choque para outros tantos.  Pasmos, silenciosos, de férias, me parecem essas as respostas. Frente a nossa apatia, caiu a ficha daquela frequente impressão de que os processados sempre são aqueles ‘mais radicais’ que “insuflas agitas e gritas de mais” (id. ibid). Bateu-me o desespero de ver que Juntos, estamos mais preocupados em combinar camisas e nos promover entre nós mesmos. De que nos adianta achar que se venceu “o PSDB no começo do ano e o PT no fim do ano”² enquanto quem realmente importa Rodas, manda e desmanda.

Bom, vamos considerar que somos impotentes à situação. Que enquanto movimento não podemos fazer nada. Que a Comissão Jurídica está nessa sozinha. Ou melhor, que estamos otimistas com a declaração do presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB e de juristas acadêmicos e atuantes que consideraram abusiva e exagerada a ação do MPE. Que não precisamos nos preocupar, afinal há um erro jurídico primário, o inquérito por formação de quadrilha tem por obrigação mostrar a responsabilidade de cada um nas acusações de depredação de patrimônio  público, crime ambiental, e até mesmo confecção de bombas. Que o Boletim de Ocorrência coletivo joga a nosso  favor, uma vez que é impossível descrever o que cada um dos 72 estudantes fez ou deixou de fazer. Que a Constituição lhes garante direito de não produzir provas contra si mesmo e que caso tivesse feito algo, ninguém irá se acusar. Que as penas institucionais, consideradas brandas, também sejam um indicio de absolvição nas esferas penais. Que todos serão absolvidos e que já podemos comemorar!

Dá-me a sensação que esquecemos quem é a quadrilha. Nesse jogo do contingente e do faz de conta, até poderíamos chamar Chico a testemunhar no tribunal. Ao caracterizar cada um, Chico diria que “Carlos amava Dora, que amava Lia, que amava Lea, que amava Paulo, que amava Juca, que amava Dora, que amava Rita, que amava Dito, que amava Rita, que amava Carlos, que amava Dora, que amava Pedro, que amava a filha, que amava Carlos, que amava Dora que amava tanto, que amava toda a quadrilha” (Chico Buarque – Flor da Idade). Foi tanto amor, tanto rosa e tantos rodopios que ficamos tontos, enquanto a ciranda Rodas sozinha. Infelizmente não é a música de Chico que faz a banda tocar. Enquanto acreditamos na boa fé e no ideal da justiça, ignoramos que o justo não está no direito, que a questão de fato que manda é o governador, seu escolhido e a “física paulista dos interesses que se coloca contra a metafísica daqueles que insistem em enxergar alternativas para a política que não seja o mercado” (cf. Arantes, p.18). Temos aqui um jogo político que vai muito além da encenação do judiciário. O que está em pauta é a democracia na nossa universidade. Ainda podemos ser condenados por um regimento de 1972 escrito por Gama e Silva, autor do AI-5. Ainda temos uma ‘democracia’ que legaliza um reitor escolhido em segundo lugar de uma lista tríplice, feita pela parte mínima dos nossos professores. Nosso ilegítimo reitor ainda é aquele quem condenou Zuzu Angel, que homenageou os golpistas de 64 e que a todo custo relutou para a instauração da Comissão da Verdade em nosso campus. Gerimos nossos problemas internos, disciplinares ou não, com a polícia. Não discutimos projetos, impomos. Fechamos nossos portões para uma cidade carente de área verde e arte. Queremos a favela que limpa nossa sujeira, prepara nossa comida, e dá nossa carona longe da vizinhança. E que seus filhos não nos visitem como iguais. Ainda somos a universidade que menos realiza inclusão social no país, e como não se bastasse ao invés de cotas botamos o Núcleo de Consciência Negra no chão. Achamos uma aberração a interferência externa à autonomia universitária (porque de fato o é), mas também fazemos parte da cidade e quando a democracia que falta tem dificuldade de ser debatida até mesmo dentro de nossos muros é que nos damos conta de como a realidade é tão cara aos nosso ideal de comunidade.

Descobrimos que, no sentido oposto ao que pensávamos, somos incapazes de ameaçar o mundo com novas ideias e propostas; ao contrário, é a nossa bolha que está ameaçada pela atmosfera que a cerca. Tão grave quanto a interferência externa na autonomia universitária é a vanguarda do judiciário paulista em criminalizar dos movimentos sociais; as bárbaras violações cometidas pela polícia militar contra grupos étnicos e sociais específicos, e a militarização da política. Apesar de aparentemente essas questões não dizerem a respeito a USP, elas tem tudo a ver com a situação em que nos deparamos e são nesses termos que precisamos discutir democracia. Ainda que conclamemos no coro a vitória (que sim, virá) como nós Juntos somos fortes, temo profundamente o futuro de nossa instituição enquanto os fundamentos da democracia não forem amplamente debatidos e vivenciados na esfera pública, não mudarem as estruturas e o exercício de poder da gestão universitária e os interesses governamentais que a acompanham, e a verdadeira quadrilha estiver solta: Alckmin, Rodas e Passarelli.

Essa quadrilha armou um incêndio na universidade, um espetáculo para a imprensa, um palco para o judiciário e um contrato para as empresas que nos quiserem. Não ser o primeiro na lista tríplice não impediu Rodas de encabeçar, em uma velocidade nunca antes vista, o projeto de privatização da universidade proposto pelo governo do Estado. As improbidades administrativas da reitoria compram prédios, tapetes e até servidores com o dinheiro público, terceiriza o que pode e nos faz de shopping. Na universidade classe mundial a iniciativa privada cobra a conta dos impostos pagos; interferem em nossas pesquisas para produzirmos algo realmente importante para a sociedade, bens de consumo. No meio de tudo isso, passou-se Univesp, extinção de cursos que não interessam ao mercado, proposta de cursos pagos, BUSP, catraca nas unidades e por aí vai. Enquanto reitor, João Grandino Rodas foi um dos poucos a usar a imprensa, que por sinal o recebe muito bem, para eliminar sua oposição interna na USP. Estratégia muito bem articulada para desmoralizar os estudantes que resistiam na reitoria contra os abusos de autoridade de uma gestão carente dela. O escracho moral que os órgãos da imprensa ofereceram aumentou a pressão sobre Geraldo Alckmin que resolveu nos dar aulas de democracia iguais às do Pinheirinho. Ao seu comando, a tropa de choque invadiu a reitoria e desrespeitou qualquer resquício de direitos que aqueles homo sacer universitários ainda tivessem. Saciado o sadismo de São Paulo, ainda faltava a cereja. A última cartada foi uma armação com a promotora Eliana Passarelli, orientada por uma das linhas mais duras e conservadoras do nosso judiciário, para que nos castigue e nos faça de exemplo.

Com um trio desses, é irônico acusar alguns alunos de formação de quadrilha. Às soltas, não é difícil que cada um em seu âmbito continue, com seus braços de ferro, mãos invisíveis e o poder que lhes é autorizado ou não, a nos fazer passar raiva. Apocalíptico, não tenho muitas esperanças. Mas, para não deixar uma mensagem pessimista é que finalizo como comecei: cantando Chico. Afinal, “apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia” (Chico Buarque,  Apesar de Você”).

Notas

1 – Recomendo a audição da música antes de continuar.
2 – Comentário feito em redes sociais por integrantes do MES
após eleições do DCE.

Referencias Bibliográficas

ARANTES, Paulo. Apagão. In Zero a Esquerda, São Paulo:
Conrad Editora: 2004
BUARQUE, Chico. Apesar de Você. 1970
_______. Flor da Idade. 1998
_______. Hino de Duran. 1978

Março/abril de 2013

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