Elogio do amor – Alain Badiou

Tradução de André Paes Leme

Alain Badiou nos mostra neste livro forte e límpido que o amor se encontra atualmente ameaçado: a potência do acontecimento incomensurável que ele constitui é negada, por um lado, por uma concepção comercial e securitária da vida íntima. O mercado parece cada dia mais nos ter convencido de que podemos amar sem correr riscos; de que podemos exorcizar a contingência do acaso, por exemplo, contratando um serviço on-line que realize o cruzamento de dados e preferências e nos mantenha distantes de mulheres (ou homens) que não façam nosso tipo. Por outro lado, persiste ainda a ameaça moral para a qual o amor não passa de uma figura a mais de nosso hedonismo. Na contramão deste cenário desalentador, Badiou rastreia na filosofia, na arte e na política as linhas de fuga pelas quais o amor se desenha como a instauração, na identidade do indivíduo, de uma diferença pura. Não mais a reunião do par em torno do uno, a submissão do múltiplo à identidade de um princípio unificador, como no romantismo. O desafio atual do amor, sua reinvenção, se caracteriza pela imperiosa necessidade de construir um mundo cujo obstinado nascimento, a partir de um ponto de vista descentrado, realize-se sob a “cena do dois”; um mundo que encontra sua potência superior na afirmação do acontecimento inaugural, na continua invenção de diferentes formas de de durar, de alcançar a venturosa duração desconhecida. É preciso, e esta é a lição maior do pequeno livro de Badiou, reabilitar, contra as ameaças da segurança e do conforto, as intermitências da aventura e do risco. 

“A proposição central do surrealismo foi aquela de que falávamos inicialmente, isto é, segundo o lema de Rimbaud, reinventar o amor. E esta reinvenção era indissociavelmente, para os surrealistas, um gesto artístico, um gesto existencial e um gesto político. Eles não estabeleciam separação entre os três. Há um ponto muito poderoso na arte, ela faz justiça ao acontecimento. Esta é mesmo uma de suas definições possíveis: a arte é aquilo que, na ordem do pensamento, faz completa justiça ao acontecimento. Em política, os acontecimentos são catalogados pela história retrospectivamente. Mas somente a arte restitui ou tenta restituir sua potência intensiva. Somente ela restitui a dimensão sensível disto que é um encontro, uma revolta, um motim. A arte, em todas as suas formas, é o grande pensamento do acontecimento enquanto tal. Uma grande pintura é a apreensão, pelos meios que lhe são próprios, de algo que permanece irredutível àquilo que é mostrado. O acontecimento latente vem, se assim se pode dizer, furar aquilo que é mostrado. Breton nos lembra que, deste ponto de vista, o vínculo com o amor é muito íntimo, uma vez que ele, no fundo, é o momento no qual um acontecimento vem furar a existência. É isso o que nos ensina “O Amor  Louco”. Porque o amor é irredutível a toda lei. Não há a lei do amor. Muito frequentemente, além disso, a arte tem representado o caráter antissocial do amor. Como diz o ditado popular, depois de tudo, “os amantes estão sozinhos no mundo”. São solitários guardiães da diferença a partir da qual experimentam o mundo. O surrealismo exalta o amor louco como potência acontecimental (événementielle) fora da lei. O pensamento do amor é aqui também esse pensamento que se exerce contra toda ordem, contra o poder ordinário da lei. Os surrealistas buscavam alimentar seu desejo de uma revolução poética na língua, mas também, insisto, na existência. Eles estão muito interessados, deste ponto de vista, no amor, na sexualidade, como princípio, como suporte possível de uma revolução na existência. Por outro lado, não estão muito interessados na duração. Propuseram sobretudo o amor como poema do encontro de modo magnífico. Por exemplo, em Nadja, que ilustra de maneira esplêndida a poética do encontro incerto e misterioso, daquilo que, no dobrar de uma esquina, vai ser um amor louco. Estamos aqui realmente nos antípodas do cálculo, no encontro puro. Mas não realmente no registro da duração, não na dimensão da eternidade. Certos filósofos, entretanto, sustentaram que a eternidade fosse o instante. Encontra-se esta ideia já no pensamento grego. A única dimensão temporal da eternidade seria o instante. Aquilo que daria razão a Breton. Evidentemente, o instante do encontro miraculoso promete a eternidade do amor. Mas tento propor uma concepção da eternidade menos  miraculosa e mais laboriosa, uma construção da eternidade temporal, da experiência do Dois, tenaz, passo a passo. Admito o milagre do encontro, mas penso que ele se perde da poética surrealista caso o isolemos, caso não o orientemos para o laborioso devir de uma verdade construída ponto por ponto. “Laborioso”, aqui, deve ser entendido positivamente. Há um trabalho do amor, e não apenas um milagre. É preciso estar em movimento, é preciso ter cuidado, é preciso se reunir, consigo mesmo e com o outro. É preciso pensar, agir, transformar. E então, sim, como a recompensa imanente do labor, há a felicidade.”

Março/abril de 2013

 

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