Impressões sobre “O tempo”, de Henrique Bernardelli

Por Alberto Sartorelli

“O tempo”, de Henrique Bernardelli

“O Tempo” é um quadro de Henrique Bernardelli, datado de 1925, exposto na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Nele, são misturados elementos pagãos e cristãos. A obra apresenta seis personagens. A presente análise visa elucidar minhas impressões sobre o significado do quadro, sobre como a questão do tempo influencia diretamente a acepção da obra, que toma uma posição próxima do determinismo histórico.

Ao fundo, nus, estão Adão e Eva, personagens bíblicos, da cultura judaico-cristã. Javé, o deus supremo dessa tradição, havia concedido o paraíso para que Adão e Eva vivessem em felicidade plena, imortais, com todo o Jardim do Éden; porém, não poderiam eles dois tocar no fruto da árvore proibida, segundo lei imposta por Deus. Eis a primeira determinação presente no quadro: Deus, soberanamente bom e justo, impondo uma lei arbitrária à sua criatura, cuja moral repousa na obediência. No meio do paraíso, a fonte de todo o mal, a tentação do demônio travestido de serpente. Descartes diz que o homem nasce com a vontade maior que o entendimento, e cabe ao sujeito manter sua vontade nos limites do entendimento. Numa moral fundada na obediência, e quando na natureza humana a  vontade comumente ultrapassa as fronteiras do entendimento, é perigoso colocar a fonte do mal à vista dos homens, ainda que apenas dois deles, um homem e uma mulher. Adão e Eva também tinham a vontade infinita e o  entendimento finito. Na cena apresentada no quadro, Eva acaba de pegar da árvore proibida a maçã, e está prestes a oferecê-la a Adão. O ato de comer o fruto proibido, não resistindo à tentação do pecado, segundo a tradição, privou o gênero humano da vida eterna no Éden. Todo homem, a partir de então, nasceria impuro, com o pecado inato e manifesto em toda a sua existência. A ação de Eva pegar a maçã da árvore é o ato de fundação da cultura e da história, no âmbito do mortal, do mutável, do pecaminoso; a partir da desobediência de uma norma dada extrinsecamente ao ser.

Mais à frente na imagem, podemos ver três mulheres escrevendo. Elas são figuras pagãs, chamadas moiras pelos gregos, parcas pelos romanos, e, com uma pequena variação, podem-se identificar também às nornas da mitologia nórdica. A variação se dá pelo fato de as nornas representarem passado, presente e futuro, no universo cíclico nórdico; e as moiras, início, meio e fim, na concepção temporal linear greco-romana. A ópera O Crepúsculo dos Deuses, de Richard Wagner, final da tetralogia O Anel dos Nibelungos, se inicia com as nornas tecendo os fios da vida de Sigfried e Brunhilde, os protagonistas, e dos deuses da Valhala, morada divina. Em certa medida, a norna Urd, guardiã do passado, exerce uma causalidade em Verdandi, entidade do movimento presente e contínuo, que culmina em Skuld, deusa do futuro e controladora do destino. Mas tratemos especificamente das moiras. As moiras são responsáveis por tecer o fio da vida de todos os indivíduos, e nem mesmo Zeus, o mais poderoso ser da última geração de deuses do Olimpo, pode contestar suas decisões. Uma delas, Cloto, que inicia o fio da vida, está na imagem em segundo plano ao lado direito, jovem; outra, Láquesis, é responsável por puxar o fio, e está na obra em primeiro plano do lado direito, adulta; e a última, Átropos, corta o fio e determina o fim da existência do indivíduo, está em segundo plano do lado esquerdo, velha, atrás do ancião. Elas tecem os fios na Roda da Fortuna, figura  conhecida na cultura popular por ser a décima carta entre os arcanos maiores do tarô e representar as determinações do destino. Mas na imagem as moiras estão escrevendo, e não tecendo. Acredito que o significado seja o mesmo. Um livro para cada indivíduo, o papel que tudo aceita e a tinta que não se apaga, até que seja escrita a última palavra antes do livro se fechar. Cloto ainda não empunha a caneta e  observa Láquesis escrevendo, por isso uma representa infância, o aprendizado, e outra a idade adulta, aparência de maturidade e saber. Átropos parece escrever  rapidamente, no estado febril que comumente toma conta dos escritores próximos do fim de seus livros. Quando fechado, pouco importa se o livro está em branco ou foram-lhe dedicados anos de atenção: estão fechados.

O último personagem, enfim. Um ancião segurando uma ampulheta, em primeiro plano, personificação do tempo. Atrás do tempo esconde-se a moira responsável pela morte. As outras duas, ao lado do velho. Tudo que as moiras de Henrique Bernardelli – que escrevem – fazem, realizam no tempo. As controladoras do destino se  subordinam ao tempo, ele sim a força-mor da natureza. O que seria, então, o tempo? Uma condição dada a priori para a existência dos fenômenos, diria Kant. Hegel fala de um movimento contínuo do espírito absoluto que se dá no tempo. Aristóteles diz que o mundo é eterno e tudo sempre existiu. Insuficiente. Agostinho, eu prefiro, é ele quem faz as perguntas. “Como são esses dois tempos, o passado e o futuro, quando o passado já não mais existe e o futuro ainda não existe? O presente, por sua vez, se sempre fosse presente, não iria para o passado; sequer seria tempo, mas eternidade”. Quanto a isso, pouco podemos dizer.

Por fim, estamos no tempo, efêmeros, matéria. Linear ou cíclico, o tempo passa. Não sabemos como, mas passa. Ele detém o poder, as leis. Antes mesmo de Javé impor sua moral de obediência a Adão e Eva, o tempo já lá estava. Seria o tempo o próprio deus? Seria ele tão poderoso que não só passa e transforma, como também cria? Não conhecemos a essência do tempo, só sabemos que ele passa, nos traz aqui e nos leva embora. Antes da cultura e da história, o tempo. Traz consigo a causalidade, a determinação, a força imponente da natureza, que é ela mesma tempo. O tempo é a quem tudo se submete. Correu de Marcel Proust por exatos sete volumes! Aquele velho senhor, em primeiro plano, que dá nome ao quadro, amigo de Nietzsche e Dostoievski. Para que uma moral no tempo, sem discutir de antemão o problema de liberdade e, o mais importante, resolvê-lo de vez? Javé e suas condições contingentes, arbitrárias. O velho senhor talvez risse, e continua rindo, de toda moral estabelecida. Depois, depois do ancião supremo dono das únicas leis válidas, aparecerem as moiras, que determinam as leis aos seres, no tempo, e por isso não totalmente livres. As moiras estão na sombra, escrevendo o destino dos homens discretamente. Por último, os determinados, meros mortais no tempo, nós. No entanto, as moiras escreveram um destino especial a Henrique Bernardelli. Elas o deixaram permanecer no tempo por mais tempo.

"A golden thread", de John Melhuish Strudwick

“A golden thread”, de John Melhuish Strudwick

 

Março/abril de 2013

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