Mulher, símbolo de amor, perseverança, desprendimento

Por Bruno Bernardo

Guerreira, amiga, emotiva, carinhosa, dedicada. Poderia escrever aqui milhares de adjetivos… Mas eles todos se traduzem em uma só palavra: Mulher. Parabéns pelo seu dia, você é muito especial. Dia das mulheres virou o dia do estado de ser feminino. A feminilidade do ser feminino. Um dia pra isso, é importante. E se o dia das mulheres é isso, por que não o dia do homem? Por que não um dia da masculinidade do masculino, onde não receberíamos flores, mas cerveja, ou qualquer outra bobagem nossa de homem macho? A mulher tem o dia dela e nós damos flores, somos supercavalheiros, elogiamos sua feminilidade, os mais sofisticados falarão sobre a pureza do ato de dar a luz. Se o dia da mulher é isso, quero o dia do homem. Falo brincando, claro.

Empresas fazem a propaganda dessa imagem do dia da mulher. Não sei se são a causa, mas têm sua culpa. Não só nas propagandas institucionais, onde se faz um cartãozinho com dizeres iguais aos que começaram esse texto, mas também, além dos clientes, mandam flores às funcionárias, as mesmas mensagens de guerreira, mãe, lutadora e flores, a cordialidade fabricada e vazia, como um programa de televisão.

Para quem não sabe, a data foi marcada para lembrar as operárias tecelãs de Nova Iorque que, em 1857, foram trancadas na fábrica que ocupavam que foi incendiada, matando todas. O dia é feminista, nasceu assim, e é esse seu sentido. A importância do dia é o reconhecimento do machismo e o reconhecimento de que é um problema, e, assim, necessita de solução. Por isso o dia do homem não é apenas não necessário, como é ultrajante. Um dia do  homem deveria ser o reconhecimento de um problema, mas qual o problema do homem, enquanto ser distinto da mulher, não enquanto ser humano? A resposta que encaixa é o feminismo. É ele que bota problemas para o homem, enquanto ser separado da mulher, dentro do machismo. Mas não, essas perguntas nem se colocam, pois o dia da mulher, como sabemos, é o dia de gratidão a todo ser que porte a feminilidade do feminino, a qual deve ser exaltada nas demonstrações de gratidão, que devem ser feitas.

O que seria a feminilidade do feminino? A resposta a essa pergunta já é machista em essência. Elenca-se uma série de adjetivos que comparam a ações historicamente desenvolvidas por homens, como ser guerreira, que no fundo só são adjetivos da mulher graças à sua condição na sociedade. Aguenta o tapa, o mau salário, mais baixo que o mau salário do marido, humilhações de estranhos, conhecidos, e outras injustiças e humilhações. Todo esse contexto é necessário, a priori, para poder chamar a mulher de guerreira, senão o adjetivo não faria sentido algum. Só sendo guerreira mesmo, depois de tudo o que eu faço.

Nessas flores, nestes obrigados, não seríamos nada sem você, sua guerreira, hoje eu lavo, estamos dizendo que sabemos dos privilégios, e muito obrigado. O dia da mulher se tornou o seu inverso. Inverso poderia ser o dia em que maltratasse a mulher mais, ou pelo puro maltratar. Esse seria o inverso do dia das mulheres como é comemorado hoje, o inverso do inverso, portanto. Não vamos falar da sua força e beleza e sim do choro e da celulite. Um inverso mais nefasto é o inverso do dia das mulheres como feminismo. Se torna então o dia em que a figura da mulher é lembrada pelo homem machista, que a embota de elogios pegados no google ou lidos num cartão de uma papelaria – e flores.

Mas se o dia das mulheres foi cooptado pelo machismo, o que resta ao feminismo? Abandonar o dia ou tentar  ressignificá-lo?

O boicote pode ser interessante por já estar ressignificando ao mesmo tempo em que nega. O ato do boicote ao dia gera a ressignificação automática como o dia do boicote ao dia internacional das mulheres, mesmo se o dia do boicote não for internacional e mesmo se o boicote se der no simples ignorar da data. Negar os parabéns é resistir à data machista. Desculpas também de nada servem. Temos que entender que o machismo é um pensamento, e impõe modos de vida a todos, homens de um jeito, mulheres de outro.

Ou talvez a ironia seja melhor e não deixa de ser uma forma de boicote. Ouvi no metrô duas mulheres conversando:

– Hoje é dia das mulheres, tinha esquecido!

– É, parabéns pra nós, as escravas…

Março/abril de 2012

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