Os mortos e zumbis

Por Gabriel Philipson

ilustração - mortos e zumbis

Tudo acaba por dar nos zumbis.

… Aos poucos os estudantes vão se acostumando com os mortos. Passam a examiná-los, dissecá-los, recortá-los, de modo naturalizado: os mortos tornam-se habituados. A força do hábito, porém, acaba por gerar diversas anomalias. Poucos são aqueles que se mantêm rigorosos em sua inabalada fé no sentido de tal atividade, e, mesmo esses, tornam-se demasiado ranzinzas, quando não esquizofrênicos e inquisidores: é que a loucura predomina a volta deles, e eles agem loucamente para combatê-la. Para bloqueá-la de também perecem nessa peste negra, agem com os loucos, como se fossem empesteados, seres que devem ser banidos do convívio social apenas porque possuem loucura diferente da deles.

Assim, enquanto alguns abusam da racionalidade tentando compreender a constituição anormal do 3º osso do dedo mindinho do pé, outros assumem outros métodos de interação com os mortos. Já discorri sobre o vegetariano e o canibal, neste texto apresento-lhes o espiritista e o necrófilo.

Mantido afastado do departamento por longos períodos por meio de fogueiras públicas que perduram até hoje, tem-se visto nos últimos tempos uma santa cruzada que visa rever a condenação do espiritismo, tornando-o, se não liberado, ao menos regulamentado. À semelhança da maconha, droga muito mais cool, o principal baluarte é um professor aposentado da faculdade que, ao invés de participar de um documentário, diz estar escrevendo um livro sobre o assunto. Trata-se aqui de uma operação que visa fazer ecoar, no sentido de eco, redizer, por meio de uma exegese fenomenológica-hermenêutica, o que ficou não-dito pelo morto. Quem odeia essa atividade são os ávidos pela carne do morto. Aqui, a vaca, ou o morto, é sagrado, e através de um obscuro paralelismo entre ele e eu, ao remugir eu mujo o que havia sido mujado apenas nas entrelinhas do mugido.

A necrofilia é apenas uma interpretação livre do redizer o não-dito que incorpora – a contragosto dos mesmos – elementos também livremente apropriados dos carnívoros: eles redizem na medida em que coadunam sexualmente com o morto. Eles dobram a dobra de todas as tradições. Simbolizam o morto enquanto lagosta e literalmente comem seu rabo. A exceção, que confirma a regra, como se diz, fica pelo primeiro morto carnívoro que se deixa ser comido apenas para o papar: Zaratustra é um zumbi.

O ideário dos zumbis surge juntamente com a utopia dos que interpretam o sobre-homem como o homem imortal. É de se notar a existência do Partido Comunista da Sociedade dos Imortais nos idos do clássico período stalinista russo. Essa sociedade defendia uma reforma nos direitos universais do homem, na medida em que só poderíamos ser de fato igualitários caso todos tivessem igualmente o mesmo direito à vida. Paralelamente, desassociada da esquerda, vemos ressurgir no coração do kitsch americano sociedades semelhantes que baseiam seus argumentos não mais no igualitarismo da vida, mas na sua liberdade plena. O resultado é o mesmo:

Tendemos a nos tornar zumbis, sagrados como as vacas na Índia, seres morto-vivos, nem vivos nem mortos. Para nos preparar, relacionamo-nos com os mortos com a maturidade de quem sabe que, em breve, estes se tornarão escassos, e que conversar com os mortos será conversar consigo mesmo, na medida em que a experiência da morte existencial será experienciada na própria vida. É o preparo para tal o secreto sentido de toda a história da filosofia e busca da verdade enquanto um se relacionar com os mortos: é curiosidade daquilo que deixaremos de nos tornar.

Março/abril de 2013

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