Por um engajamento político amplamente social

Por Zé Calixto

Passados um ano e pouco da invasão da policia militar na USP e com a instauração do processo de acusação de formação de quadrilha por parte dos estudantes, urge repensar a atuação dos movimentos sociais envolvidos com esta pauta. Sendo assim, este texto é uma reflexão interna aos colegas do movimento estudantil, principalmente da USP, mas que pode servir de convite a diversos movimentos sociais progressistas.

O estopim da crise que segue até hoje não foi a morte de um estudante da filosofia ou da economia. O estopim do movimento foi a repressão policial ao consumo de maconha. É só a partir deste fato que todo o debate político e social se orienta. “São os maconheiros da USP querendo que a polícia saia de lá”, diz o senso comum.

Mesmo com grandes atos e grandes assembleias o que se seguiu foi um acúmulo de derrotas: estudantes expulsos, redução da circulação na USP, processos, destruição do canil (espaço cultural livre). Cabe então uma reorientação de perspectiva.

Primeiramente é preciso reconhecer realmente qual é a pauta que está inevitavelmente embutida neste movimento e ter coragem de assumi-la. A pauta dada pelos acontecimentos tem dois eixos centrais: a polícia e os entorpecentes. Toda vez que o debate vem à tona ambas as pautas são convocadas. O primeiro diz respeito à existência de uma policia Militar que atua sobre a esfera civil. A Polícia Militar é um instrumento de guerra que obedece ordens, incapaz de lidar com as ambiguidades e contradições no trato de policiamento da esfera civil e principalmente com os movimentos sociais, os quais trata sempre como inimigo. Desde que explodiu nosso movimento – contra a PM na USP – todos perceberam que o problema era a PM por toda parte, mas nosso movimento não conseguiu dar forma a esta percepção e transformá-la numa reivindicação real.

A outra pauta diretamente relacionada a esta era a dos entorpecentes. Vínhamos em 2011 de uma enorme vitória  política do movimento de legalização das drogas – antiproibicionista – que agora pode organizar suas manifestações livremente. A legalização dos entorpecentes é fundamental para diminuir a violência que tanto mata o povo como os próprios PMs. No entanto, fomos usados para cumprir os interesses do discurso conservador contra a legalização dos entorpecentes e a favor da Repressão. É preciso assumir que hoje este tema é amplamente defendido por todos, mas timidamente pautado na sociedade. Novamente recuamos. Saímos à rua falando: “Que vergonha achar que a greve é por causa da maconha”. Diante disto, o que fazer? O filme No retrata a construção da campanha publicitária vitoriosa do plebiscito que tiraria Pinochet do poder na ditadura chilena, uma vitória contraditória, mas que deixa uma lição. A mensagem central passada pelo publicitário para os militantes de esquerda que queriam derrotar a ditadura é a seguinte: “É preciso vencer, e para isso você deve saber vender a sua pauta”.

O movimento estudantil não soube levar sua pauta para a sociedade. Fechou-se em si mesmo na USP e foi derrotado. Mas é preciso vencer nestas duas pautas, pois elas são fundamentais para a emancipação da sociedade, como foi preciso vencer as ditaduras e hoje garantir que não voltem mais. A questão é: como vencer? Ainda mais agora que a luta é contra o poder público do Estado. O movimento estudantil está deveras acostumado a pautar pautas específicas internas: direitos de permanência, verbas para a educação, pautas diretas da universidade. No entanto, as pautas que tem diante de si – polícia e entorpecentes – são amplamente sociais. O movimento deixa de ser estudantil e passa a ser social. Vencer nestas pautas é assumir a capacidade de nosso movimento intervir na realidade de toda a sociedade para além da universidade, coisa que muitos da esquerda da USP sonham. Sendo assim, reconhecendo o caráter amplo da pauta penso que devemos ter as seguintes orientações para ampliar o apoio popular de nosso  movimento:

1- Convocar todos os movimentos sociais em solidariedade para nossas manifestações. Movimentos sociais, antiproibicionistas, partidos de esquerda, movimentos de moradia, movimentos rurais, etc. Todos os que sofrem com a repressão da Polícia Militar.

2- Passados um ano e pouco de reflexão já podemos afirmar (até a ONU afirma): queremos a extinção progressiva da Polícia Militar. Pelo fim da violência policial. Toda a população sente a opressão da PM, sabe que a PM é corrupta, truculenta e descontrolada. Afirmar esta pauta trará muitos para o nosso lado.

3- Queremos a legalização do consumo de entorpecentes como tem ocorrido até nos EUA. Nesta pauta temos amplo apoio de intelectuais e artistas. A população esta sentindo na pele o proibicionismo que se alastra por toda parte. Se os estudantes da USP convocarem a todos pela legalização já teremos mais uma enorme via de apoio  popular.

4- Isso deve ser pautado em paralelo à defesa de todos os que sofrem com processos e à democratização da universidade, pautas não menos importantes, mas que tendem a nos deixar isolados no interior da USP.

Penso que para vencermos é preciso ter coragem de focar estas questões. A democracia e defesa dos processados, a democratização da USP, a extinção da Polícia Militar, a legalização de entorpecentes. É preciso também ter coragem de reformulá-las de maneira que sejam positivas e atraentes, convidando a todos para o sonho de um mundo mais pacificado, mais livre, igualitário e amoroso, com menos armas, com uma universidade aberta à cidade e democrática.

Março/abril de 2013 

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