Sobre o direito de ser – reflexões sobre o 8 de março

Por Monica Marques

Quando criança me disseram que era menina. O que é ser menina? Não ser portadora de pênis, não ser agressiva, não falar palavrão, não cuspir no chão, não brincar de carrinho, não usar roupa de menino, não ser grosseira.

Mais tarde, por uma série de reflexões, percebi que deveria ser mulher. O que é ser mulher? Não ver pornografia, não demostrar desejo, não falar sobre política, não beber até vomitar. Positivamente: ser passiva. Definitivamente não era mulher.

Muitas coisas mudaram. Muitas não. Algumas, quando postas inversamente servem como imperativos para meninos e homens: falar palavrão, ser portador de pênis, cuspir no chão, brincar de carrinho, ver pornografia, ser agressivo, cantar mulheres, querer dominar. Noutros termos: não ser emotivo, não brincar de boneca, não ser delicado, não usar cor-de-rosa, não receber flores, não chorar, sob a terrível acusação de ser ‘mulher ’.

As lutas ‘femininas’ passaram por diversos momentos: igualdade de direitos, igualdade de salários, o respeito, direito ao gozo e ao desejo, o direito ao corpo. Mas que a ‘mulher’ quer ser? Quer ser mulher? Ou quer simplesmente ser.

Antes de clamar pela igualdade de salários, visivelmente uma injustiça, ou pela divisão dos serviços domésticos entre outras coisas, é preciso questionar a própria constituição de gênero e sua legitimidade. Pensar como uma falácia impõe e nega gestos, obriga a comportamentos dementes ambos os ‘gêneros’ imaginariamente reais, e todo o resto é apenas uma consequência.

O conceito mulher é vazio, série de afirmações e negações frente ao conceito homem, assim como o conceito homem é vazio, afirmação e negação posto o conceito mulher, feminino. Fraqueza – força.

Conceitos vazios dão origem à disputa pelo poder. A igualdade exigida pelo feminismo é uma luta pelo poder, uma luta pelo poder igualitário. O direito de não ser agredida, seja como for. Uma lei tenta impedir a agressão à mulher com uma punição eficiente, e é importante na medida em que esses homens não deixarão de existir tão facilmente. Ela quer impor por meio da força ao conceito homem que não seja o que ele é. Entretanto, o conceito homem continua a ser fabricado e ela nunca será suficiente. É preciso informar ao conceito homem que ele não precisa mais ser ‘macho’.

Assim, talvez não se devesse pensar a própria relação de poder, o conceito homem e o conceito mulher? A desconstrução de gêneros e a criação de novas relações de poder parece ser mais libertária que luta pela identidade de ser ‘algo’ determinado que merece respeito.

A busca pelo direito de ser mulher, gay, negro, ciclista vai abrindo concessões na constituição estabelecida a partir de uma identidade. Todavia, perde-se a autenticidade no momento em que se adotam tais identidades pré-fabricadas, constituídas como modelos do que é ser mulher (feminista ou não), do que é ser gay etc. que podem se estabelecer interna ou externamente a esses movimentos que tentam representar as minorias.

O próprio pensamento ocidental condiciona a estabelecer modelos. Sempre surgirão novos bodes-expiatórios, quem deve ser ‘separado’ por uma certa condição, uma vez que as relações são determinadas precisamente por esse sistema classificatório normativo, tudo que não se ajusta à norma será apontado, desqualificado.

A luta por ‘direitos iguais’ passa pela desconstrução desses ‘gêneros’, dessas identidades que limitam e aprisionam. Não pelo direito de ser isso ou aquilo frente a certa norma. Não afirmando aquilo que é diferente enquanto separado, mas afirmando a diferença total pelo direito de ser o que se é criando novos modos de existência. Dissolver a própria norma.

Se já não era ‘mulher’, também não quero ser você, ‘homem’, nem coisa alguma. Descontruir o conceito ‘homem’, para que o conceito ‘mulher’ possa se desexistir, como todas as outras pseudo-oposições. A possibilidade de um mundo em que a classificação dos indivíduos de acordo com seu sexo, cor, sexualidade ou qualquer outro parâmetro seja irrelevante, sejam irredutíveis a conceitos identitário-normativos, onde o dia 8 de março já não faça nenhum sentido.

Março/abril de 2013

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