Trânsito e transporte na USP

Por Inauê Taiguara

Ninguém entra ou sai rápido da USP, nos horários de pico. O trânsito, principalmente no P1, em dias normais é lamentável, chega-se a demorar mais de uma hora entre a FFLCH e a Av. Alvarenga. Em dias de chuva então nem se fala. O entorno do campus já é um lugar com trânsito intenso de veículos, some-se a isso as 110.000 pessoas (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/818517-furto-de-carros-faz-usp-pedir-ajudaa-policia-militar.shtml) que passam pela Cidade Universitária diariamente e temos um quadro um pouco mais preciso do tamanho do problema.

Com o intuito de melhorar esta situação projetou-se a criação de duas estações de metrô dentro do campus, uma na praça do relógio e outra próxima ao Hospital Universitário (HU). Afinal, o metrô é um transporte assaz mais regular e, apesar da lotação de pessoas, é bastante eficiente na locomoção das massas. No entanto, estas estações não foram construídas dentro do campus, sob a alegação de que elas dificultariam o controle de quem entra e sai da USP e assim tornariam a segurança do campus comprometida. Por este motivo, o projeto foi adaptado e, sem a consulta da comunidade USP, foi construída a estação de metrô Butantã na Av. Vital Brasil.

ilustração - trânsito e transporte

Histórico da transição

Antes da inauguração do metro Butantã a integração do campus com o metrô era feita pela extinta Ponte Orca, trajeto feito por um micro-ônibus que partia do metrô Vila Madalena, opção de ir no contrafluxo do trânsito de São Paulo – detalhe que essa integração era gratuita a qualquer cidadão de São Paulo e não apenas à comunidade USP, pois ligava o metrô a CPTM. Este microônibus parava na frente da estação Cidade Universitária da CPTM e, portanto, não pegava todo o trânsito do P1 junto à Av. Alvarenga. Como o antigo circular não sai do campus, ele não pega o trânsito de fora da USP e passava regularmente, apesar dos poucos ônibus em circulação. Estes antigos circulares se tornaram cada vez mais escassos, pois quando a estação de metrô foi construída fora da USP e os novos circulares começaram a rodar, fazendo a integração, julgou-se que os antigos circulares não seriam mais tão necessários.

No entanto, vale lembrar que diferente dos antigos circulares, que eram utilizados livremente por qualquer cidadão, os novos possuem catracas e apenas quem possui o cartão BUSP pode utilizá-lo gratuitamente, o que inclui estudantes, professores e parte dos funcionários da USP – não, por exemplo, alguns terceirizados. Além disso, muitos moradores da São Remo, comunidade próxima ao P3 da USP, utilizavam os antigos circulares como meio de  transporte até a CPTM ou até o metrô na Av. Vital. Assim, as pessoas que não estão na USP devido ao critério distorcido da “meritocracia” tiveram o custo de sua condução consideravelmente aumentado. (Para conferir o debate mais pormenorizado: http://bit.ly/busp-beneficioouprivilegio).

Porém, voltemos ao tema em questão. Hoje a ligação entre o metrô e a Cidade Universitária é feita pelos novos Circulares, que partem da estação Butantã e passam pelo P1. Os novos circulares foram apresentados como mais uma opção de transporte entre o campus outros pontos da cidade de São Paulo. No entanto, em menos de um mês da inauguração destes novos circulares constatou-se que um ônibus parou de circular, o ônibus Cid. Universitária – Aclimação (274A). No final do ano passado mais algumas linhas de ônibus deixaram de passar no campus, como, por exemplo, a linha 107T (Cid. Universitária – Metrô Tucuruvi) e o 177P (idem – Metrô Santana). Ou seja, se ganha uma opção aparentemente muito boa, ligação direta com a rede do metrô, e perdem-se outras tantas.

A extinção destas linhas de ônibus faz com que a maioria daqueles que vêm à USP e dependem do transporte público fiquem totalmente dependentes dos Novos Circulares, que estão cada vez mais lotados e pegam o referido  trânsito para passar pelo P1. Na verdade, os antigos circulares também ficavam lotados, porém neles havia três portas do lado direito dos ônibus, que serviam para embarque e desembarque. Nos novos circulares existem apenas duas portas do lado direito, uma porta para embarque e uma para desembarque, e existem duas portas do lado esquerdo que ficam inutilizadas durante todo o trajeto dentro do campus, sendo às vezes usadas para o desembarque no ponto final no metrô Butantã.

E a opinião da comunidade USP, onde fica? 

Agora levantemos alguns pontos. Será que, de fato a segurança do campus ficaria comprometida se houvessem estações de metrô dentro da Cidade Universitária? Temos de perguntar que tipo de segurança está em questão. Muitos estudiosos das questões de  segurança pública alegam que quanto maior a circulação de pessoas em um local, maior a segurança do mesmo. Se pensarmos que os alunos de diversos cursos saem de suas aulas às 23h em um campus deserto e muito mal iluminado, a solução aparentemente mais cabível seria a de proporcionar uma maior circulação de pessoas e melhora da  iluminação E até, porque não, um percurso menor até o metrô. Outra coisa que deve ser dita é que a estação de metrô próxima ao H.U. facilitaria o acesso dos cidadãos de São Paulo aos serviços do Hospital Universitário, bem como seria uma boa opção de transportes para os moradores da São Remo.

Deste modo, no atual modelo, a nova estação de metrô e os seus circulares deixam a Cid. Universitária cada vez menos acessível aos cidadãos de São Paulo, que deixam de usufruir de uma das poucas áreas verdes da cidade.  Consequentemente, cada vez há menos circulação de pessoas e baixos investimentos para melhorar a iluminação dos espaços do campus, o que sem dúvida reforça o discurso da ‘necessidade de um policiamento militar ostensivo para garantir a segurança’.

Sugestões

Esses problemas tão presentes no nosso cotidiano parecem longe de estar sendo estudados para serem resolvidos. Entretanto, vez ou outra se ouve uma ideia do que poderia ser feito. Por exemplo criar um corredor de ônibus ligando a Cid. Universitária ao metrô, incluindo o trecho antes de se chegar ao P1, no qual amiúde há um trânsito desanimador. Isto aumentaria o trânsito dos veículos de passeio, mas estimularia o transporte público. Outra solução poderia ser mudar o trajeto de saída dos Circulares passando pela entrada do Instituto Butantã, o qual é bem menos movimentado.

Dado que o metrô Butantã está em funcionamento, outra opção de transporte seria a bicicleta. Há no metro Butantã um bicicletário, iniciativa privada, no qual se podem alugar bicicletas. Entretanto não se tem na USP pontos onde se poderia entregá-las, o que torna muito dispendiosa essa locação. Uma iniciativa partindo da própria USP na construção destes bicicletários poderia ser uma saída. É claro que, junto a tal iniciativa, poderia pensar-se em uma ciclovia passando, de repente, pelo caminho do Instituto Butantã e pelas paralelas da Av. Vital Brasil.

Em todo caso, estes são problemas gerados por se ter construído a estação de metrô fora do campus, enquanto que, penso eu, se a comunidade USP fosse consultada sobre a questão, a maioria esmagadora aprovaria a criação das estações de metrô dentro do campus. Mas como diversos outros temas que dizem respeito a todos nós, estas decisões são estabelecidas de cima para baixo, sem consulta alguma aos diretamente interessados: estudantes, professores e funcionários da USP, além dos moradores do entorno que deveriam poder desfrutar das dependências do espaço público que é a Cidade Universitária e da infraestrutura que o seu funcionamento demanda.

Março/abril de 2013

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