A nova condição humana

Por André Oliveira

ilustração - a nova condição humana

Movido por pruridos de esperança ou de estultice – ou até mesmo por mero senso prático –, quero deixar registrado o momento de grande tumulto espiritual por que passa a humanidade no tempo presente. Impressões e descrições tiradas ainda quentes das vicissitudes, embora não possam contar com a ponderação que o tempo concederá aos  pósteros, possuem a grande virtude da fidelidade empírica.

Um invulgar evento se deu nos dias correntes: nada menos que a matemática deixou de fazer sentido para os homens.  De início a peripécia não causou grande alvoroço. Tratava-se apenas de um burburinho oriundo de um grupo ativista o qual contestava e ridicularizava o método dedutivo dessa antiga ciência. Sim, tudo muito extravagante, como se pode perceber. Anunciou-se ali que “a transcendência e a constância da razão entre perímetro e diâmetro da circunferência são acidentes a denunciar um amplo sistema ardiloso, cujos fins são desconhecidos mas sem dúvida nebulosos; são como o rabo do gato que ficou a balançar do lado de fora do esconderijo”. Tais argumentos de repente encontraram assentimento na França, na Coreia do Sul, e logo descobriríamos não ser aquela uma simples teoria em busca de legitimação; era na verdade um fenômeno, pois em todas as nações observou-se o mesmo movimento silencioso de ceticismo e desencanto para com a matemática. Agora nem sequer conseguimos entender a mensagem que vai dentro dessas aspas… Desde os preceitos introdutórios, tudo passou a ser matéria de úvida, de gosto, de opinião. Vasculham-se os livros antigos, estudam-se as regras severas e as definições tão didáticas, mas quanto maior o didatismo, maior a estupefação. O horror de imaginar como a humanidade foi capaz de produzir tantos absurdos! Rumoreja-se que estávamos todos imersos em uma espécie de transe coletivo do qual despertamos por força da influência de um cometa adunco e misterioso que raspou a Terra. Mas não passam de lendas, evidentemente; saber de fato, ninguém sabe a razão para estranheza tamanha. O que temos em nossas mãos é a verdade crua e amarga de que desaprendemos a operar todos aqueles sistemas, catalogados antes por essas mesmas mãos. Alguns tentam amenizar o desconforto observando o fato pelo lado contrário: consideram que a ordenação dos  números era uma forma de ignorância da qual conseguimos nos libertar etc. Seja como for, doravante estamos todos às cegas – inclusive os próprios ativistas da causa –, e este fator é determinante para o estado calamitoso em que se encontram todas as nações do globo.

A ninguém tem sido fácil convencer-se de que a dissolução da matemática foi um bem conquistado pelo homem; é que a vida tornou-se deveras mais difícil nessa nova civilização. Pegue-se o caso do comércio. O exemplo soará insólito e  simplório a alguns, mas, quando mais não seja, dá conta de expor nossos reveses. Vai-se hoje à padaria e logo se depara com a dúvida e a estranheza acerca de quantos pães levar. “Leve seis – adianta-se o padeiro, com ar satisfeito de quem já se acostumou a dar conselhos aos clientes sobre esse assunto –; eles estão frescos como nêsperas recém-colhidas!” Por acaso, era justamente esse o número que o sujeito rascunhava na imaginação, então ele assente e posta-se de través, para aguardar a preparação do embrulho. Mas eis que o conflito se dá. Divergem sobre a quantidade de pães que foram embrulhados. O padeiro argumenta que considera seis a quantidade de pães e de objetos em geral semelhante ao movimento de pegar os sapatos para calçar – pega-se um sapato, pega-se o outro, tem-se seis sapatos; ora, essa soma dá três! – argumenta por sua vez o sujeito, dizendo que seis pães equivalem, isto sim, ao total de bocas existentes em sua casa – a sua, a de sua esposa, a de sua sogra: seis bocas. Conflitos dessa natureza têm ocorrido o tempo todo, em todos os lugares. Cria-se uma teoria própria para o que é obscuro e raro é haver consenso sobre o significado dos números – com a honrosa exceção daquele que se disfarçou de artigo indefinido. Os mais desacreditados são os que insistem em seguir as regras dos velhos manuais. Naturalmente o maior problema tem sido a forma de efetuar os pagamentos, mas ao menos o nosso governo tomou uma medida sensata nesse sentido: decretou que as transações devem se basear nas cores das notas e no tamanho das moedas. Quando o cliente acha justo e fica satisfeito, paga com as notas de cor mais valiosa ou as maiores moedas; caso contrário, precisa entrar em comum acordo com o vendedor, e assim nós vamos caminhando. É paliativo, sim, mas que há de se fazer? Fomos todos pegos de calças curtas e arriadas… Uma ampla e penosa operação está em andamento agora mesmo, com o bravo intuito de tentar levantá-las, mas nada é simples: todos os aspectos  dessa nova realidade precisam ser recalculados, reorganizados, de modo que diversas camadas de obstâncias  permeiam entre a ideia e o ato. As obras arquitetônicas, por exemplo, tiveram de ser interditadas devido à imprecisão das formas e das medidas. Locais onde funcionavam as antigas bolsas de valores assemelham-se a zonas devastadas por acidentes nucleares. Alguns episódios de anarquismo têm ocorrido em diversos quadrantes, mas a polícia tem feito sua parte; a rotina dos ladrões, a propósito, é das poucas que não foram afetadas, visto que eles permanecem com a tática de levar a maior quantidade possível do objeto de seu intento. (Há quem questione também a denominação das grandezas, e considere o vocábulo “menor” mais apropriado para caracterizar a medida desse objeto, em lugar de “maior”; mas isso é pura intriga de ferrabrases a rir do circo pegando fogo… Ora, é a própria intuição que dimensiona grandezas e, a meu ver, não há nada demais em seguir chamando-as pelo nome com que sempre foram chamadas – o que infortunadamente não se aplica aos números; o fato de o sistema inteiro ter vindo abaixo causou tamanho choque que não se confia nem mesmo nas definições mais primárias.)

A despeito do riso desses embusteiros, são amaríssimas as dificuldades a nos castigar. Pegue-se outro exemplo, mais assombroso: ninguém sabe mais ao certo a própria idade. Constam dos registros hora e data dos nascimentos, mas que significam aqueles amontoados de números, aquelas combinações excêntricas? Nada senão a arbitrariedade impulsiva de um escrivão para determinar o significado de tais arranjos – mas quem há de dar crédito à volição de um ordinário burocrata? Penduram-se ainda em nossas geladeiras os exemplares da quimera a que costumávamos chamar “folhinha”, o tal e impenetrável Calendário; pois é grande o mistério de por que se perfilar os símbolos até determinado ponto para em seguida passar a repeti-los – com o acréscimo de se deixar à esquerda da nova sequência um dos símbolos utilizados antes, método a se perder de vista. Se pouco ou quase nada da oração anterior foi  compreendido, os pósteros não fiquem constrangidos: é exatamente essa a sensação, a nossa sensação. Temos  pranchetas que nos falam de anos, de dias, de conjuntos de dias que possuem até mesmo nomes próprios (“Janeiro”, “Fevereiro”). Mas todas essas coisas não passam de palpos de aranha que se desfazem ao menor esforço cognitivo, ao mais reles olhar que se detenha em seus terrosos fundamentos.

Sabemos tratar-se, o Calendário, de obra da Igreja, que  em algum momento decidiu sulcar no tempo um ponto referencial – o nascimento de Jesus Cristo – para melhor acomodar a História. Um propósito louvável, sem dúvida, mas assentado sobre essa ciência com a qual não podemos mais contar. Sem ela, tudo desmoronou feito um castelo de cartas, e o que se tem é escuridão e dúvida. Buliçosos franceses enxergaram nessa confusão toda uma oportunidade de reativar o calendário republicano – mas pelo fato óbvio de que as mesmas dificuldades permaneceriam, a ideia foi de pronto rejeitada, tendo o mesmo acontecido com as iniciativas de adoção dos calendários judeu e muçulmano. Enquanto isso, a outra tecnologia empregada na contagem do tempo, o relógio moderno, foi sumariamente tragada pelo abismo: a ninguém faz mais sentido as marcações esdrúxulas dos relógios digitais, áridas feito vaticínios em nogaico; só os relógios de ponteiros tem alguma utilidade, mesmo assim bastante limitada; sabemos que uma quantidade x de tempo passou quando os ponteiros se cruzam – mas vá saber que quantidade é essa! Será sempre a mesma? Melhor confiar na regularidade da sucessão de dias e noites, na posição dos astros no céu. Grandes ciências já foram erigidas com base nessa prática benfazeja. Cumpre ressaltar que a astronomia desde já está envolta em aura de grande suspeição, posto que seu conjunto de fábulas possui notória imbricação com a feitiçaria numenal. Quanto à astrologia, o prestígio de seu ordenamento lógico, honesto em sua sagacidade, só faz  aumentar. Está entre os campos mais promissores dessa nova era. Num mundo ávido por princípios apriorísticos, já não há quarteirão em que não seja encontrada alguma plaqueta de anúncio do tipo “Aqui jogam-se búzios”. As mais recentes especulações dão conta de que tudo não passou de obra de gênios malignos que habitaram a Terra na Antiguidade. Nomes como Euclides, Pitágoras, Zenão, Arquimedes, Apolônio, até mesmo de obscuros matemáticos indianos, estão todos a arder na fogueira. Tal asserção nos trouxe um assombro adicional e ainda mais impactante: quando ocorreu a Antiguidade? Ora, se os livros retratam a História como uma sucessão de temeridades, quanto tempo se passou entre elas? Por que esse conceito de sucessão, aliás, soa tão inconsistente? Por exemplo, quantas vezes o sol se pôs desde que os europeus desembarcaram no continente americano? Ou quantas vezes os ponteiros se cruzam ao longo da existência de um homem? E o assombro mor: não serão todas essas vezes uma única vez, uma prisão que encerra uma substância de nome Razão, a qual delira enquanto purga seus excessos em um movimento semelhante à trajetória de uma lágrima?

Contudo, assim como a certeza de que o resultado da soma 2 + 2 sempre será “escárnio”, ou de que o ócio é o único mínimo divisor comum possível, resplandece a confiança de que conseguiremos pôr termo a esses mistérios, num futuro que nem deve estar tão distante. Pois se algo nós sabemos ainda, é que a razão sempre consegue se reinventar e contornar as dificuldades que se lhe impõem. Se estávamos embrulhados na engenhosa armadilha da matemática, eis-nos de pé, rochosos, preparados para retomar a busca pela segurança. Nem sempre essa marcha tem sido serena; mesmo assim avançamos com novos saltos, novos instrumentos, novas tecnologias. É esse, afinal, o elemento que tem nos diferido das enguias e das cacatuas. De sorte que algo grandioso sem dúvida deve estar a caminho, trazendo a solidez que desejamos aos nossos alicerces.

Faço votos, por fim, de que este breve relato possa contribuir de alguma forma no restabelecimento da ordem, ainda  que os rumores apontem para a obliteração da própria escrita alfabética – certas sociedades já planejam abolir algumas das normas de seus idiomas (“matronas esclerosadas, traiçoeiras e cartesianas”). Talvez seja uma medida sensata, sim! Contanto que sirva para nos afastar da perfídia e para nos reconduzir ao caminho do esclarecimento. Para todos os efeitos, que este amaldiçoado magote de sintagmas cumpra seu destino. Que reste como emblema de um tempo em que nós, macacos geômetras e falastrões, despertamos para a formidável inexatidão do mundo.

Março/abril de 2013

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