A nova resenha de “Se um viajante numa noite de inverno”, de Ítalo Calvino

Por André Scholz

Reflexioné que todas las cosas le suceden a uno precisamente, precisamente ahora. Siglos de siglos y sólo en el presente  ocuren los hechos; innumerables hombres en al aire, en la tierra, y el mar y todo lo que realmente pasa me pasa a mi… – Jorge Luis Borges

ilustração - resenha2Você está começando a ler a nova resenha de Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino. Relaxe. Pare de andar por alguns momentos. Sente-se, se for possível. Ajeite a coluna no espaldar da cadeira, se estiver sentado. Se estiver de pé no ônibus: cuidado! Evite reproduzir na leitura das linhas os sobressaltos do asfalto.

A resenha não é nada demais, a bem verdade. Não é muito comprida, nem muito pequena. Se você já leu o livro, sabe que a resenha é muito pretensiosa e talvez um pouco arrogante; trata-se sem dúvida de uma (tentativa de)  imitação barata que só empobrece o livro, desnecessária e banal. Se você já leu todas as obras daquele autor, ou talvez se for um pouco obsessivo, poderá desgostar dela ainda mais (e talvez julgá-la inconsistente). Se ainda não leu, talvez a resenha pareça um pouco estranha, mas ainda sim existe uma pequena possibilidade de você pegar o livro na biblioteca (que talvez esteja ao seu lado) e desistir de lê-la para lê-lo. E ainda existe a chance remota que você goste da resenha – ou diga que goste para agradar alguém, ou goste mesmo e diga que não goste para fazer birra, etc. Não importa muito, pois você continua lendo.

A resenha é decididamente nebulosa, vaga e incoerente. Faz uma longuíssima descrição do enredo do livro sem falar propriamente de sua história e perde-se em análises grotescas e superficiais. Você pensa que talvez o próprio livro seja  um fluxo irrelevante de histórias sem sentido (mas aí ou bem o livro pertence à sua categoria de Livros Que Você Não Gosta Porque Você É do Contra, ou bem a resenha foi tão mal escrita que é melhor ignorá-la).

O texto se perde por linhas e mais linhas sobre as dificuldades de tradução do italiano, das complexas variações da comida búlgara (que não se relacionam nem um pouco com o velho japonês e a sabedoria oriental que por tanto tempo ela discute). É uma grande mistura de porcarias pós-modernas, escritas por algum estudante sacal de filosofia, desses que você não conhece muito bem, mas tem certeza que se acha muito superior ao resto da humanidade, ou  aqueles falastrões de tudo que não sabem de nada, ou ainda um daqueles maconheiros revolucionários, ou dos reacionários malufistas, ou um dos fascistas de esquerda, ou dos fascistas de direita, etc. Não importa quem, mas você tem certeza que não foi alguém normal que escreveu aquilo. Você já está ficando desinteressado, talvez o tremulante mortor do ônibus comece a deixar a leitura irritante e desagradável.

Mas eis que no meio daquele texto mal escrito e pretensioso, eis que você, que já leu o livro, lê algo que lhe interessa; ou então você, que não o leu, lê algo que talvez lhe desperte o interesse para ler (e dependendo do interesse, o livro pode vir a ser um Daqueles Livros Que Você Tem Que Ler, ou dos que Vai Dizer Que Leu Porque Está no Jornal Que Ninguém (ou Que Todo Mundo) Lê, etc.). A certa altura o texto começa problematizar a relação de gênero Leitor-Leitora e as relações de dominação, e as conspirações contra a leitura; e logo o texto se encadeia numa reflexão mais atrativa, ou pelo menos é menos irritante e menos cacofonico e menos mal escrito. Fala sobre a  necessidade de ler sempre O livro (e ainda começa a falar até sobre Plotino, mas você não entende – ou entende – se é no livro resenhado, se é premissa de argumento), sobre os entrecruzamentos e entrelaçamentos da linguagem que formam a leitura, e sobre o leitor que corajosamente debruça-se sobre a rede formada pelo eterno começo das histórias-sem-fim e do eterno fim das histórias-que-só-começam. Lucrécio, Ovídio e Borges também aparecem na teia de citações da pseuda erudição aracnídea do autor.

A resenha fala algo sobre romances e pontes, sobre o romance que quer levar a algum lugar, e continua a se perguntar sobre os tipos de pontes e os tipos de romance. Ainda menciona alguns autores que você já ouviu falar (ou já leu, ou já ouviu falar e disse que já leu, etc.) e começa a falar sobre a morte. Pronto, agora ele te ganhou. Você está interessado (ou interessado por estar sendo mandado estar interessado)!

De repente, surge um enorme borrão no verso da página, onde a coluna continuaria. Você a vira verificando se é isso mesmo, se o texto está interrompido. É isso mesmo.

(Mas você folheia mais uma vez, só para ter certeza).

Nas últimas linhas o autor volta a falar qualquer bobagem e você está quase certo que o texto é irrelevante. Mas você fica bravo, algo despertou o seu interesse, e você não sabe bem o que. Parece-lhe que as únicas linhas que prestavam foram devoradas pela tinta. Mas você pensa que é tudo um ardil do autor, que tenta levantar uma névoa de mistério no texto, para tentar transformar os miasmas de suas pútridas ideias em perfumes de erudição e  autenticidade. Agora você quer desmascarar aquele salafrário do jornal, quer ler a íntegra do que ele escreveu, quer ler e comentar o texto dele linha por linha, quer aplicar minuciosamente o método socrático nos seus sofismas, quer mostrar que está tudo errado e que ele quer se fazer de resenhista, mas não sabe nem ajeitar os pontos, as vírgulas e quem dirá os acentos (se você está no ônibus de pé, pensar em acentos o faz virar a cabeça e procurar um lugar; mas hoje não é seu dia de sorte).

O grande problema é que você é sério. Você quer desmascarar o autor, mas para isso você precisa ler o livro  resenhado. Porém, você não é burro, e logo percebe que na verdade é tudo um plano para te deixar interessado em ler  o livro. E você não quer ser vencido. Com desprezo, decide descobrir as linhas perdidas para ter um julgamento mais seguro, para proceder com razão. Por um tempo você tenta esquecer. Vai para o quarto, começa a ler algo, algo melhor. O som da TV ligada te irrita, você grita que está lendo – mas, como sempre, o mundo não te deixa em paz. Quase sem pensar, você acessa o blog do jornal, mas o texto não está lá! Você vasculha na rede, mas ele não existe!

Você decide então que vai procurar uma versão correta do jornal, uma versão em que os textos pelo menos façam algum sentido. Você está decidido. Muda os seus planos imediatamente para ter outro exemplar do Jornal da Filosofia, custe o que custar. Você se levanta com pressa e quase esquece o guarda-chuva. Eventualmente você chega à faculdade e procura o jornal. Mas não há mais nenhum exemplar. Embora não queira se misturar à gentalha que frequenta o prédio, ainda assim você pergunta para um ou dois caras (a bela moça que passou te deixa envergonhado, e a ela você nada pergunta), mas nada do jornal. Algo te deixa desconfiado: aqueles dois parecem se divertir com a sua desgraça.

Mas ainda existe uma esperança. Você manda uma mensagem para o corpo editorial do Jornal, mas manda por email. Não quer conhecer o autor ou os editores do jornal antes de terminar de ler o texto na íntegra. Curiosamente os estudantes que organizam respondem com a seguinte mensagem: “Vá ler Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino. Inauê”.

Será a sua assinatura uma variante integralista? Embora a contragosto, você escreve para o próprio autor (usando um nome falso, claro), mas ele educadamente diz que, na verdade, o texto não é dele. Trata-se, ele explica, ou de um homônimo ou de alguém que quis publicar em seu nome para fazer piada (embora ele não pareça achar graça, você não deixa de suspeitar que ele esteja tirando onda da sua cara).

Agora o livro parece estar no centro de algo maior do que você supunha. Agora você quer ler ou reler o livro, quer descobrir se há algo que você deixou passar. Será que o borrão significa algo? Será um código? Ou uma pretensiosa obra de arte? Ou será que o autor da resenha foi censurado? Está o centro acadêmico organizando uma conspiração neointegralista contra o livro? Quem escreveu a resenha? Talvez o borrão tenha sido um atentado terrorista do próprio autor para evitar que suas palavras fossem publicadas, ou lidas, para que ele pudesse se isentar do conteúdo…

Muito tempo depois, Leitor, você reencontra a velha resenha em papel carcomido e corroído (cujo verdadeiro autor nunca foi encontrado). Agora você leu o livro (mas há muito pouco tempo, na sua nova perspectiva) e, lembrando-se do dia em que leu a resenha, arrepende-se. Pois você se lembra de ter percebido que a moça que passou por você era uma leitora, que carregava O livro sob os braços.

– Ah, você suspira, ah se eu tivesse lido os livros antes… Se tivesse ido direto à biblioteca…

Março/abril de 2013

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