Fumer ou ne pas fumer… Ce n’est pas la question

Por Siddhartha

ilustração - fumer ou nes pas fumer

Não, eu não estou fumando um beck. Estou, sim, contemplando a simplicidade dos pássaros e sua segurança em somente se preocupar com o carregar de seu corpo e com a proteção de sua liberdade de voar à vontade, no percorrer de uma vida em busca exclusivamente do que se conforta em seu próprio bico .

Não, eu não estou fumando um beck. Mas refletindo sobre quanto tempo mais os brasileiros gastarão vivendo à sombra dos discursos retóricos e inflamados, sob a fantasia do Autor divinizado pela eterna “vontade de servir”(1).

Não, eu não estou fumando um beck, pois a profissão de filósofo, eterno estudante, me condena a sempre justificar perante a mim mesmo sobre o valor de minha própria vida.

Não que eu não fumasse um beck, porém me preocupo demasiadamente com o alimento de minha alma, “uma coisa que colocas muito acima de teu corpo… de que depende toda tua sorte, porquanto serás feliz ou desgraçado conforme tua alma for boa ou má”(2). Afinal, sob julgo de tão grande sabedoria, o pequeno universitário de filosofia se encontra eternamente “escravo do escolher”(3), isso ainda mais se tudo não passar de um “eterno retorno”(4).

Pois, por mais que respeite a opinião do vulgo calcada na manutenção da tradição de sua própria cultura, este “pródigo filho”(5), como é tomado constantemente pela mídia de sua própria pátria, acaba por ter a responsabilidade de construir as bases do que será a cultura nacional de sua geração e posteriores, conforme a função social do debate acadêmico universitário que, por isso, não pode ser vigiado panotipicamente por um poder executivo cuja função social deveria constituir-se, exclusivamente, no acatamento das decisões dialeticamente perpetradas por aquela instituição democrática.

Para aquele que discute a razão de ser e o âmago que promove e institui a essência daquilo que posteriormente se formalizará enquanto lei, a compreensão desta somente se realizará de forma hermenêutica (interpretativa), à qual todo significado de qualquer sentença linguística está fadado.

Para este jovem, inserido constantemente num “ócio social”, uma vez que para o vulgo nada produz de funcional ou prático, a prática constitui-se nesse próprio refletir que fundamenta não somente suas próprias ações, mas também a de todos os cidadãos contemplados pelas discussões originadas no cerne acadêmico. E assim, para ele já não há mais sentido em falar das leis que regem a sociedade pelas Leis presentes nos lucrativos vade-mécuns que se reeditam semestralmente para o ganho da dispersão capitalista do humano; já não mais se pode permitir a entificação de um ser que somente pôde vir a ser pela ação do ser do homem no mundo, enquanto agente de transformação e de interpretação inventiva das verdades essenciais através do desbravamento dos fluxos de estímulos extrassensórios que abarcam seus sentimentos mais internos, colapsando sua realidade numa determinação que focaliza a atenção numa determinada camada de seres intramundanos. Ou seja… as Leis somente são leis porque os homens lhes deram algum valor de significação que lhes permitiu ser algo no mundo.

Para este jovem, que toma a autorreflexão objetivo mais primoroso para a constituição do sentido da vida, a principal questão já não é se deve-se ou não reduzir a maioridade penal, ou se deve-se instituir um tribunal de  condenação sumária, mas, sim, questionar até quando os brasileiros se trilharão acorrentados ante ao muro,  baseando-se nas sombras da discussão retórica pessoalista destituída de sua essência humana. Até quando os brasileiros errarão a esmo escravos do θυμος (impulso irracional) pelo poder e da imaturidade em lidar com ele.

Obviamente, para este jovem fumar ou não fumar um beck não é a verdadeira questão, conquanto a opinião pública se satisfaça com apenas isso!

Notas

1. Étienne de La Boétie. Discours de la Servitude Volontaire.
2. Πλάτων. Πρωταγόρας.
3. Jean-Paul Sartre. L’existentialisme est un Humanisme. Friedrich Nietzsche. Die Fröhliche Wissenschaft, § 341.
4. Bíblia. Lucas 15:11-21.
5. Michel Foucault. Surveiller et Punir: Naissance de la Prison.

Março/abril de 2013

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