À última cachaça

Por Bruno Rosa

1. O filósofo fala:

O que o bêbado sempre quer
indo aos saltos de copo em copo
é chegar ao cálice extremo
onde a aufhebung se dissolve.

Num absoluto que se dá
como límpido copo d’água
sem mostrar os senões do
sotaque forte de cachaça.

Este absoluto que aqui
Tem-se forte, mas dissolvido,
Tem-se como quando o rio
Vem no estouro, rompendo dique.

2. O pintor fala:

O que o bêbado ainda quer
No afã de achar o último copo
De saciar sua sede extrema
De um rio retesado num gole.

É alçar, indo de copo em copo,
Àquela atmosfera limpa
(Sem o mórbido e excessivo)
Arrasada até sua caliça.

Chegar àquele aéreo solo
De uma paisagem em grau zero
Onde nada cerceie o voo
Desse corpo, nada ulcere-o.

3. O arquiteto fala:

E descendo desde essa aérea
Paisagem-zero frequentada
Vem aos saltos, vem aos tropeços
Dos bêbedos pelas calçadas.

Onde tudo fosse estranheza
Nesse mundo multiplicado
Por mil quinas, mil arestas
Mil cárceres à alma-alada.

Ei-lo de volta a este mundo
Sem coisa alguma que amorteça
O choque de quando entre coisas
Se vai aos trancos, sem leveza.

***

Talvez daí a nostalgia
que nos bêbados se advinha
nostalgia de um mundo leve
um mundo árido, mas alegre;

Nostalgia ainda de um mundo
que só o álcool prefigura
na atmosfera que ele cria
onde o álcool é travessia.

É atmosfera que se alcança
Quando se lava-se em cândida.
É atmosfera conquistada
quem não teme a última cachaça.

(São Paulo, 01/05/2013)

Junho/julho de 2013

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