Ainda no caminho, ainda Maiakovski

Por Rafael Tubone

ilustração ainda no caminho

Uma canção para o meu tempo – o nosso – há muito se escreveu. Encontrei-a nas surpresas preparadas pela sequência de causalidades da vida, escolhas conscientes que me proveram de armas, armas para um combate árduo. Em tempo: para nós, que não pactuamos com os senhores do mundo, o combate é imperioso!

Vagando, tal como os vagabundos vagam em busca de um prazer fugaz num copo, num corpo, encontrei-me sem querer com Maiakovski impresso em páginas de livro, museu adornado no qual – por covardia – matamos imediatamente nossa intensa sede de justiça. Para minha surpresa, ele estava acompanhado.

Quem nunca ouviu a velha história? Do roubo da flor do jardim? Da morte do cão? Do  roubo da luz? Da descoberta do medo? Da voz arrancada da garganta? Do silêncio. Do silêncio. Do silêncio… ?

“(…)Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada(…)”

Foi caminhando com Maiakovski que Eduardo Alves da Costa entrou para a história da poesia contemporânea do Brasil. No entanto, por muito tempo, devido a um equívoco na epígrafe de um livro, em que era utilizado o trecho que acima está colacionado, atribuindo o excerto a Maiakovski, Eduardo Alves da Costa permaneceu como um dos poetas mais reproduzidos no Brasil, ainda que anonimamente. Coisa que dizem diverti-lo.

Poeta alheio a fama, formado em Direito no Mackenzie em 1962 – ressaltando que “já não estava lá quando o Mackenzie ‘ empastelou’ a Faculdade de filosofia, num retorno ao tempo dos hunos” -, compara a poesia com a alquimia: tal como esta, “a poesia é o aumento das vibrações”.

Se não acredita nesta comparação, faça um experimento: leia algum poema seu sem esboçar reação. Desafio quase impossível! Ou nos surge um aperto no peito, ou um riso debochado, ou um grito que há muito queria sair, mas não tínhamos coragem.

Como um alquimista, o poeta mistura um impactante cunho social – não aquele rasteiro de uma estética repetitiva, mas criativa, inventiva -, com uma linguagem que se associa ao conteúdo de maneira intrínseca. Afinal, “ seja qual o ‘conteúdo’ que o Poeta-Alquimista pretenda fazer chegar ao leitor ouvinte, deve necessariamente decorrer do trabalho exercido sobre a linguagem, ou seja, das associações, entrechoques, absorções, anulações, intensificações, enfim, todas as reações manifestadas pelas palavras em confronto durante o processo poético-alquímico”

E que maravilha não é ver o resultado a que chega nosso alquimista. Transita com facilidade do poema mais incisivo contra a ordem social burguesa, até um poeminha escatológico – que tira sarro do bom comportamento exigido do citoyen.

O golpe de misericórdia me parece ser dado num poema destinado ao seu tempo – mas que bem pode ser o nosso. O mundo não melhorou, ou melhor, as manifestações mais agudas da crise civilizatória do Capital se mostram cada vez mais explícitas. A social-democracia fracassou; a desregulamentação dos mercados, que se seguiu à grande crise do modelo econômico do pós-guerra, em 1973, produziu uma baixa da inflação ao custo de um aumento do desemprego e da miséria gigantesco; o mundo árabe se contorce ao cuspir e substituir déspotas mantidos pelo imperialismo. Agonizante, o mundo pede socorro e as condições objetivas o exigem. O que pode ser pedido ao poeta em tal situação?!

“Não peças ao poeta
uma canção discreta
num tempo de conquistas
e loucura.
Para a liberdade
ou para a morte
é que o mundo caminha:
e isto requer estrutura

Quanto te aproximas
segurando o copo, em pose estudada,
tenho vontade de te dar um murro
para que acordes no século vindouro
com a tua problemática suspirante.

Ah, meu pequeno, a tua vida!
Tua amada te traiu com teu melhor amigo,
não suportas o professor de estética
e teu pai não te deu o carro prometido.
Já não vais à Europa?
Tua vida é lixo
e teus dias se acrescentam à História
como o pipi que as crianças fazem na praia.
Queres um minuto de atenção para o teu soluço
e me agarras o braço
e insistes
e te aborreces quando não escuto

Espera… na tua agitação
deixaste cair uma gota de licor
na tua calça de flanela.

Aceitas um conselho?
Abandona de vez as festinhas de sábado
e lança teus nervos distendidos
até a outra margem
para que os outros,
os que vêm depois de ti,
encontrem passagem.”

(Eduardo Alves da Costa, Canção para o meu Tempo)

Sigo no caminho, com Maiakovski e Eduardo Alves da Costa.

(Leia outros trechos de No Caminho com Maiakóvski – Poesia Reunida aqui)

Junho/julho de 2013

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