O condenado

Por Gabriel Bichir

“Dize-me”, diz o homem, “se todos desejam entrar na lei, como se explica que em tantos anos ninguém, além de mim, tenha pretendido fazê-lo?” O guarda percebe que o homem está já às portas da morte, de modo que para alcançar o seu ouvido moribundo ruge sobre ele: “Ninguém senão tu podia entrar aqui pois esta entrada estava destinada apenas para ti. Agora eu me vou e a fecho” (Kafka, O Processo).

ilustração conto o condenado

Há alguns dias deparei-me com um documento de natureza peculiar. Remexia em alguns livros e anotações de um velho amigo já falecido, quando um envelope chamou-me a atenção: ele continha um breve relato escrito a tinta sobre um sujeito condenado à pena capital. Deixo ao leitor a árdua tarefa de julgar até que ponto tal relato seria verídico ou não; conhecendo as propensões literárias de meu amigo, fico tentado a dizer que se trata de mera ficção. No entanto, vi-me demasiadas vezes assombrado por tais ficções para ousar negar-lhes realidade.

Multidões reuniam-se fora do presídio. O coro ressoava em uníssono: “inocente, inocente!”. Jornalistas amontoavam-se em meio à massa, atravessando um tortuoso caminho para alcançarem o palanque, onde o orador assim discursava:

– Um homem do povo, um trabalhador como qualquer um de vocês! Ficaremos aqui de mãos atadas? Ficaremos olhando enquanto um homem inocente é acusado injustamente e condenado à morte? Seremos indiferentes ao sofrimento do próximo como se não fosse a nossa própria chaga?

As autoridades apenas observavam. Os guardas do presídio miravam a multidão de longe, indiferentes a qualquer movimento, esperando pacientemente. Pelo quê? O discurso inflamava o espírito dos presentes, os gritos de muitos fundiam-se estranhamente ao silêncio que emanava do interior da cadeia, numa harmonia digna de ponderação metafísica:

– Assassinos! Corruptos!

Os presos ouviam a tudo completamente desorientados. Sequer conheciam a identidade do companheiro que incitava a compaixão do povo, mas já se sentiam entusiasmados com a perspectiva de dias menos monótonos, regozijando-se na escassa possibilidade de serem beneficiados por aquele movimento. Assim como um jovem enamorado que se angustia diante da perspectiva de rever a amada, gozando da espera como a mais sublime forma de desespero, os encarcerados mostravam-se extremamente agitados e punham-se a dialogar entre si e a elaborar teorias fantasiosas sobre quem seria o afortunado colega.

Mesmo entre os oficiais e suboficiais do estabelecimento, poucos conheciam a identidade do mártir. Alguns diziam que ele sequer existia, que houvera um engano por parte das autoridades e o verdadeiro homem já estaria morto. Aqueles de maior patente nada compartilhavam com os outros e quando questionados apenas diziam que tal indivíduo era, de fato, real.

Certo dia entreouviu-se a seguinte conversa em um dos corredores:

– Disseram-me que se ele não comparecer à audiência nada poderá ser feito. De onde vem tanta obstinação?

– Segundo me consta, e isso lhe digo em caráter estritamente extraoficial, o homem já foi removido daqui.

– Mas como? Conheço sua cela, já me comuniquei com ele, apesar de nunca vê-lo pessoalmente.

– Pois eu mesmo julguei vê-lo um dia desses perambulando pelos corredores; resolvi aproximar-me e, de repente, ele tomou a esquerda e desapareceu. Nunca mais o vi desde então.

– Parece-me muito curioso… Há algumas semanas fui encarregado de levar a comida para sua cela, e quando retornei a tigela estava vazia!

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Porque eis que hão de vir dias em que dirão: Bem-aventuradas as estéreis, e os ventres que não geraram, e os peitos que não amamentaram! (Lucas 23:29).

No dia da audiência informou-se que o acusado não compareceu à sessão e que, portanto, não poderia apelar da decisão proferida pelo juiz. Seria executado em duas semanas, por injeção letal. Alguns diziam que havia perdido a vontade de viver; afinal, não eram todos capazes de aguentar tanta pressão e permanecerem sãos. Outros, que tudo havia sido planejado de antemão e que o acusado fora impedido de comparecer ao fórum pelas próprias autoridades, pois temiam que ele revelasse a verdade por trás do caso. Os mais conservadores não hesitavam em ver uma confissão de culpa diante de tão singular proceder. A sociedade cada vez mais se mobilizava para evitar o desastre iminente: dezenas de artigos eram publicados diariamente nos jornais, manifestos com milhares de assinaturas eram enviados às autoridades competentes, buscavam-se por todos os lados parentes e amigos para darem depoimento. Nada. Aparentemente, o acusado recusou-se a dar qualquer entrevista e a falar em público, mesmo tendo aval do diretor do presídio.

As pessoas recusavam-se a acreditar que o homem não quisesse ser salvo; não que a vida fosse assim tão digna de ser vivida, ponderavam alguns, mas isso não excluía o fato, exaustivamente provado pela ciência, de que estamos atados a ela por um inexplicável impulso de autoconservação. Ora, que solo infértil poderia abrigar a semente de tão profunda misantropia? Na televisão, psicólogos advogavam a tese de que o condenado sofresse de algum tipo de depressão ou distúrbio de comportamento originado de um trauma passado. Qual não foi a surpresa de todos quando descobriram que o homem perdera a filha dois anos antes! A pobre criatura padecera de uma enfermidade do coração pouco conhecida pela medicina e não fora tratada a tempo, falecendo a caminho do hospital.

Uma semana antes da execução, em uma transmissão ao vivo, o prefeito mostrou-se relativamente flexível em convocar um plebiscito sobre a revogação da pena de morte. Infelizmente, dizia ele, nada poderia ser feito com relação àquele caso específico, já que o acusado recusara-se a participar das audiências e a ser representado por um advogado. Os partidários dos Direitos Humanos reconheceram tal declaração como um relativo ganho social, mas asseguraram que aquilo não bastava para que se fizesse justiça, já que não houvera ocasião para o homem se manifestar publicamente sobre seu crime. Contudo, não deixavam de esboçar certo constrangimento quando especialistas alegavam que tal falta de oportunidade decorria de uma escolha do próprio réu que, em plena posse de suas faculdades mentais, tinha todo o direito de recusar defesa: “Agora iremos forçá-lo a falar e a se expor? Tratá-lo como uma besta? Digam-me, há violação maior dos direitos humanos do que obrigar alguém a fazer o que não deseja, justamente no que concerne à sua própria existência, seu bem mais valioso?” Um grupo ainda mais radical advogava o recém-criado conceito de “direito à morte”: “Vivemos em uma sociedade hipócrita, todos querem legislar sobre a vida de todos – escrevia um colunista – pois eu digo que se há direito à vida também deve haver direito à morte! Cada um que decida por conta própria se quer viver ou não. Já dizia Camus que o suicídio…”.

Um dia antes da execução toda a cidade só falava nesse assunto. Singular acontecimento! Não havia um único lugar que permitisse uma flanagem desinteressada; em todos os cantos encontrávamos invariavelmente um grupo discorrendo sobre a questão: os mais velhos diziam que no passado cada um podia morrer como bem entendesse, e não havia ninguém para ficar atazanando sua vida por isso. Os universitários reuniam-se em bares e ponderavam as consequências político-metafísicas da ultraexposição no interior da sociedade do espetáculo, vendo no pobre sujeito um símbolo de resistência contra a alienação do homem. Muitas passeatas em favor da paz e da abolição da pena capital foram promovidas nas principais avenidas da cidade; a atmosfera era hostil, mas para o alívio de todos não houve qualquer tipo de conflito com as autoridades. No fim da tarde reuniram-se alguns manifestantes diante do presídio, buscando numa tentativa desesperada o conforto de que fizeram todo o possível para evitar tamanha barbárie. Por mais revoltante que fosse o crime, diziam, ninguém merecia ter a própria vida ceifada sem antes ser julgado de maneira justa. A comoção gerada por tais manifestações foi grande, mas não o suficiente para cativar o apaixonado ceticismo das autoridades competentes; afinal, como bem lembrava o diretor do presídio, famoso por suas formulações tautológicas: “lei é lei”.

Já despontava o dia quando os guardas dirigiram-se à cela do acusado para recolher o dízimo daquela existência miserável, apenas…

Aqui se interrompe o manuscrito.

OBS: a seguinte passagem foi encontrada junto ao texto, em folha separada, mas não está claro a qual momento da história corresponde. Para não comprometer a integridade do relato, optei por publicá-la à parte, assim como se encontra no original:

“Permanecia imóvel diante da entrada. O prédio denotava um ar austero e intimidante; diziam que em breve seria demolido para dar lugar a um hospital, o que talvez reforçasse o efeito melancólico que provocava no espírito. Após descer dois lances de escada e percorrer um estreito corredor parcamente iluminado, chegava-se enfim ao destino em questão. Só restava seguir em diante.”

 Junho/julho de 2013

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