O cotidiano e a “Ética” de Espinosa

Por Fernando Rondelli

“No mesmo sentido em que se diz que Deus é causa de si mesmo, também se deve dizer que é causa de todas as coisas.” Leio e releio a afirmação. Volto ao início da Ética, às anotações de aula. Já estou virando a cabeça diante do texto, como um daqueles cachorros curiosos que parecem não entender muito bem o que está acontecendo. Chega de Espinosa por hoje. Livro fechado, navegador aberto. Rede social e portal de notícias.

Na rede social, um palhaço um tanto assustador salta da tela em protesto: “Bolsa-crack? Talvez eu devesse me viciar também, assim a minha família ganha um dinheiro” Excesso de maquiagem, provavelmente. Deve ter entrado tinta nos olhos do palhacinho, que não conseguiu ler direito a notícia: o dinheiro não vai para o viciado, não vai para a família. Vai para a clínica de tratamento. Clínica particular, é claro, pois estamos em São Paulo. Escolho não falar nada. As últimas tentativas de discutir políticas sociais com “amigos” de internet não foram exatamente um sucesso. Fecho a página. Próximo.

Pior ainda. Doutorado em Filosofia, uma dezena de especializações, professor, colunista, comparando bandidos a frentistas. A comparação, na verdade, é entre aquilo que os defensores dos direitos humanos pensam dos “bandidos” e o que pensam dos trabalhadores, como o frentista. Segundo a lógica do colunista, se eu acho que quem rouba ou mata continua sendo um ser humano – o que não significa, nem de longe, defender a prática do roubo ou do assassinato – eu só posso estar me lixando para o trabalhador. “Ser bandido é, antes de tudo, um problema de caráter.”, afirma  categoricamente, dois parágrafos depois de escrever: “Hoje em dia, ‘causa social’ serve para tudo, como um dia foram os astros e noutro a vontade dos deuses.” Pergunto-me se a certeza do autor a respeito da causa da criminalidade é fruto da aparição de alguma divindade.

Levanto-me, alongo os braços e o pescoço. Espinosa continua lá, na estante, no mesmo lugar onde o deixei. Abro o livro novamente, juntamente com o caderninho de anotações de aula. “Preconceito é como uma consequência sem premissas.” A frase é uma entre muitas outras escritas com minha péssima caligrafia, mas parece destacar-se após a breve reflexão sobre o texto do colunista e sobre a imagem do palhaço revoltado.

Notas

1 – Espinosa, Ética, I, prop. 25, escólio
2- http://bit.ly/pondebandidofrentista

Junho/julho de 2013

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