O machismo e a universidade

Coluna do CAF

Frente a diversos casos de machismo que vêm sendo publicizados nos últimos meses dentro da universidade, nossa gestão considerou importante usar esse espaço para discutir o problema e levantar questões para a reflexão no curso.

ilustração machismo e a universidade

Primeiramente, é importante o reconhecimento do machismo como elemento subjacente a todas as nossas relações sociais. O caráter patriarcal da sociedade leva a que os homens sejam em geral considerados superiores ou mais capazes que as mulheres. Essa estrutura social não foi criada pelo sistema econômico contemporâneo, mas é reproduzida por ele, na medida em que legitima a maior exploração das mulheres enquanto um setor da classe trabalhadora (nesse sentido também o racismo é reproduzido). Essa maior exploração ocorre tanto porque os salários das mulheres ainda são menores para exercer a mesma função, quanto porque o trabalho doméstico, reprodutivo, também necessário à manutenção do sistema econômico, continua sendo feito mais pelas mulheres, mesmo que elas trabalhem fora.

As manifestações do machismo, no entanto, não se limitam às de caráter econômico. Os papéis de gênero construídos culturalmente (e dentro dos quais somos educados desde a infância), que definem mais ou menos quais são as características “femininas” e quais são as “masculinas”, são elementos de opressão sobre a mulher. As características ligadas à masculinidade tendem a ser mais valorizadas, ou seja, a ser consideradas mais importantes para a sociedade do que as características supostamente femininas. Destaca-se também que o “masculino” aparece em geral relacionado à intervenção no espaço público, enquanto o “feminino” liga-se ao espaço privado.

É importante ressaltar que uma das consequências da desvalorização da mulher nos espaços sociais é a violência machista. Enquanto não se reconhece a autonomia da mulher sobre o próprio corpo e sua independência enquanto indivíduo, o assédio, a violência verbal e física parecem justificados socialmente.

Nesse sentido, o machismo também se manifesta na universidade de diversas formas. Os casos de estupro e de todos os tipos de violência são o aspecto mais agudo desse fato. A existência de trotes que usam a mulher como objeto sexual, como no caso do concurso “miss bixete” de São Carlos, às vezes passa como brincadeira ou  infantilidade, mas devem na verdade ser considerada uma demonstração de violência sexista.

Deve-se entender também como machista o recorte de gênero dos cursos, ou seja, a existência de cursos considerados mais “femininos” e outros mais “masculinos”, sendo em geral as carreiras mais tradicionais e valorizadas também as mais relacionadas à masculinidade, como no caso dos cursos de engenharia, que têm mais homens que mulheres, e, do outro lado, cursos como enfermagem, em que há mais mulheres. Essas desproporções aumentam muito se considerarmos a pós-graduação.

Se pensarmos em nosso próprio curso, há em geral mais homens nas salas de aula da graduação e da pós e há um número ridiculamente pequeno de mulheres professoras. Essa problemática não é apenas formal – as dificuldades que as mulheres passam para estar na universidade e para dar continuidade a uma carreira acadêmica são bem maiores que as dos homens.

Justamente porque se trata de um processo culturalmente desenvolvido, saber que o machismo é um problema social ou defender posições de esquerda não determina que um homem deixe de ter atitudes machistas ou uma mulher deixe de aceitar o machismo e reproduzi-lo. Não basta ter consciência do problema, mas estar em luta cotidiana contra suas consequências e a favor de medidas sociais que o combatam. No caso das mulheres, a auto-organização para o combate das manifestações do machismo e para a formação política é fundamental. O movimento de mulheres na USP tem avançado nesse sentido, e hoje há coletivos feministas em diversos cursos, além de uma frente feminista auto- organizada. As estudantes de Filosofia e Ciências Sociais se organizam no Coletivo Feminista Lélia González.

Se quiser saber mais:
http://bit.ly/leliagonzalez
http://bit.ly/leliagonzalez2

Junho/julho de 2013

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