Primeiro ano sem método

Editorial

ilustração a questão das leis - trad kafkaChegamos a mais um fim de semestre e este periódico completa o seu primeiro aniversário – a edição inaugural foi distribuída em junho de 2012, ainda sob o título de Jornal da Filosofia. Desde lá o Discurso Sem Método tem sido recebido com bastante entusiasmo pelos estudantes do curso, estimulando debates em nossos corredores e cada vez mais colaboradores têm se disposto a ajudar na elaboração deste jornal a serviço da dúvida.

Os dois primeiros textos desta edição, Machismo e Universidade e Onde estão os Negros? problematizam duas opressões presentes em nossa sociedade: o machismo e o racismo. Ambos defendem que essas opressões se reiteram não só em posturas cotidianas individuais e explícitas, mas também e principalmente na estrutura social em que estamos inseridos e que, portanto, a superação dessas opressões demanda uma luta coletiva, em última instância, política.

O texto seguinte é um informe importante para os estudantes e para o movimento político dentro e fora da universidade. Trata-se da sentença favorável às 72 pessoas presas na reintegração de posse da reitoria, ocorrida de maneira descabida em novembro de 2011, as quais haviam sido temerariamente acusados por formação de quadrilha, em denúncia do Ministério Público. Esperamos que Quadrilha agora só na festa junina.

Ser estudante é a condição que nos une. Mas, se esta condição é multifacetada, haveria uma ‘essência’ desse ser estudante, da qual todos nós compartilhamos? Nesta edição somos brindados com o Rascunho de uma Ontologia do Estudante, proposta bastante interessante para pensarmos a nossa unidade enquanto categoria dentro da universidade, a despeito de todas as diferenças de interesse, políticas e acadêmicas.

Em seguida temos outros dois textos que vêm dialogar com a ‘onda’ ideológica a favor da redução da maioridade penal, levantada depois do assassinato de um estudante em São Paulo. O primeiro deles, Sobre criminalidade, corruptos e corruptores, ressalta que os problemas sociais não são resolvidos quando se enfrente um ‘grande inimigo’, eleito pela opinião pública. Toda simplificação deste tipo nos impossibilita de compreender o problema em sua complexidade e até alimenta-o, na medida em que deixam intocadas suas origens. O segundo, como diz o nome, é uma Resposta a Contardo Calligaris, o qual surfou na ‘onda’ ideológica a favor da redução da maioridade penal – embora tenha alegado que já estava boiando há muito tempo esperando o hora certa. O autor da resposta busca evidenciar que o problema em questão é mais profundo do que qualquer ‘psicologia barata’ pode supor e que, se o texto de Calligaris tem por objetivo embasar teoricamente a redução, então ele expressa o autoritarismo do colunista da Folha, pois, em última instância, defende uma ‘justiça’ que recairá inevitavelmente sobre uma parcela bem específica da juventude, a saber, a negra e pobre.

O texto seguinte, Ainda no caminho, ainda Maiakóvski, é uma homenagem ao poeta contemporâneo brasileiro Eduardo Alves da Costa que, em diálogo com o poeta russo da revolução, Maiakóvski, canta sua época, nossa ainda. E a revolução também é tema do episódio 1 de Luta de Classes nas Estrelas. Acompanharemos nessa saga épica Len Kenobi e Jean-Luke Skytre em luta contra as forças da reação galáctica, para salvar a princesa Plebeia. A sequência dessas aventuras será publicada nas próximas edições!

As leis que organizam a nossa sociedade, mantidas pela nobreza e desconhecidas pelo povo, devem ser mantidas? A quem pertence a lei, ao povo ou à nobreza? Reivindicar mudanças radicais não seria perigoso e daninho para todos? Afinal, as leis foram formadas pela sabedoria ancestral e quem a questiona? Estas são questões que surgem da leitura de A questão das leis, de Franz Kafka, a tradução desta edição.

Mais um dízimo de uma existência miserável será recolhido em O Condenado. Com uma epígrafe também de Kafka, o conto nos apresenta um relato deixado de testamento, no qual são expressos os diferentes pontos de vista da sociedade – do povo, das autoridades, da mídia, dos presos, etc – acerca de uma condenação a pena capital. Poucos sabem algo sobre o condenado e nada é dito sobre o caso, apenas a pena é conhecida. E sobre ela é que girarão todas as discussões. Uma vez iniciado o texto, só nos resta “seguir em diante”. Xaveco Insano, O cotidiano e a ética em Espinosa e Pobres de Transversal são os outros contos dessa edição. O primeiro, através de um diálogo bem humorado, nos lembra a velha máxima, segundo a qual ‘intimidade é uma droga’. No segundo temos um relato da impaciência, bem fundamentada na experiência, com as pontuais, mas frequentes, manifestações palhaçais e intelectualóides – tudo isto no contexto do fim do semestre e da iminência da entrega dos trabalhos. O último deles, sobre as almas marginalizadas da sociedade, se baseia na opinião de que, sendo todos igualmente capazes, o que nos distingue é termos compasso e liberdade ou não.

A seção de Poesia desta edição, com uma quantidade inédita de contribuições, vem mostrar que produções literárias que tratam de diversos temas sempre têm espaço na nossa publicação. Fora isso, ela prova que muitos estudantes do nosso curso também são, nas horas mais ou menos vagas, artistas.

Por fim, fechamos a edição com mais uma homenagem às publicações do CAF de 1994. Nossa contracapa é o bem humorado merchandising filosófico dos óculos “RayBem”, item essencial para a sobrevivência no mundo das ideias que é nosso curso. Esperamos que todos aproveitem a leitura e convidamos todos a participar das próximas edições desse Discurso Sem Método.

Junho/julho de 2013

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