Rascunho de uma ontologia do estudante

Por Duanne Ribeiro

Em alguma das discussões online nos dias posteriores ao 27 de outubro de 2011, em que ocorreu o confronto com a PM que desembocou em duas ocupações e em uma greve e continua tendo consequências até hoje, ganhei uma pergunta com a qual venho lidando mais ou menos desde então: o que é ser estudante?

As tentativas mais simplórias de dar uma definição não conseguem dar conta da multiplicidade identitária envolvida. Defini-lo por estudar, por sujeito que estuda, não evidencia o significado próprio que “estudo” assume em momentos variados do tempo. Defini-lo por formação profissional, sujeito formante em uma profissão, novamente, não traz qual o valor de “trabalho” para cada caso individual e nesse mesmo golpe os esvazia, digamos, de ser — na medida em que são caracterizados negativamente, pelo que não são, pelo que um dia virão a se tornar.

Essa complicação semântica me aperfeiçoa a pergunta em: como se compreende o estudante? A resposta individual a essa questão me aparenta ser a tensão latente em vários debates acadêmico-estudantis. É por visões diferentes do que é ser um estudante que centros acadêmicos propõem políticas distintas, que os alunos se envolvem ou não com atividades políticas. É por visões diferentes de para que o estudo serve e o quanto ele pode me fornecer, que se restrinjem ou expandem os campos de interesse universitário. É por visões diferentes do que a profissão que se terá exige que se formam não só características de grupo e de personalidade, mas expectativas em relação à forma como os que não são desse grupo pensam.

(Ainda mais, para quem se forma em Filosofia com a pretensão de ser professor, o conceito que ele forma do estudantado determina como lida com seus alunos, o que espera deles e dos demais professores. O que nossos professores acham que o estudante é? O que o reitor acha?)

Lendo coisas que me caem na mão, tenho uma ideia ou outra de debate sobre os elementos que estão em jogo nessa definição — eixos pelos quais se pode avaliar a problemática que eu esbocei acima. Minha ideia é fazer uma série de resenhas sobre esses textos eventuais cá pro Discurso, explorando vias de debate. Começo pelo O Poder Jovem: História da Participação Política dos Estudantes Brasileiros, de Arthur José Poerner. No final, quem sabe eu chego a responder:

— Como eu me compreendo como estudante?

Para a qual a resposta atual é:

— Não sei.

ilustração o que e estudante

O Novo Já Nasce Velho

O Poder Jovem tem duas partes principais: a primeira, um apanhado da atividade política realizadas por qualquer um que se encaixe no dilatado termo “jovem”, o que pressupõe uma oposição contra o que seja o “velho”; a segunda, a história da União Nacional dos Estudantes, a UNE. Além da UNE o que temos de informação sobre outros agrupamentos estudantis surge bastante resumido, de sobrevoo. A construção de uma articulação unitária e nacional, e, ao longo desse processo, as relações com o Estado (das proximidades maiores ou menores com o Estado, as alianças com o Exército na primeira metade do século XX e a oposição completa no período pós-1964), todos são temas curiosos, assim como é lembrar que José Genoíno e José Serra estiveram dentro do mesmo movimento, discutindo dentro das mesmas assembleias (onde estarão todos esses nossos conhecidos daqui a 30 anos? Explicando-se por desvios de verba? Implementando grandes ideais?).

São temas curiosos, mas quero me focar em apenas dois: o aspecto familiar como definidor do sentido dessa oposição jovem X velho; e as condições sociopolíticas variáveis desde a fundação da UNE até o período pós-1960. Esse último é sabido: na história da educação no Brasil, por muito tempo uma parcela insignificante da população tinha acesso ao  estudo, e de modo ainda mais restrito ao universitário. Isso implicava em formações identitárias ao redor do privilégio — de um lado os que se compreendiam como figuras de uma elite a que caberia a gestão nacional; e de outro os que se sentiam quase como missionários, a quem caberia ampliar o acesso, universalizar seus privilégios, torná-los direitos. Tratemos esses opostos não como inconciliáveis, e sim como pontos extremos em um continuum.

Já a oposição citada recebe uma feição singular nesse trecho:

“(…) os velhos – por tal designacão entendidos os pais, professores, autoridades, etc. – funcionem, as mais das vezes, como poderoso agente catalítico da revolta. (…) O adolescente ainda não sabe o que deseja ser, mas já tem a certeza de que não pretende ser aquele pai quadrado e tacanho, que tem por Deus o dinheiro e por diabo o comunismo. O pai que justifica, com um sorriso nos lábios, em nome da “civilização ocidental-cristã”, o assassinato, a napalm, de crianças e adolescentes vietnamitas, e que só lamenta as favelas como fator de perturbação da paisagem. O pai que é dado a súbitos e extemporâneos acessos de intimidade para com o filho, quando resolve, num rasgo de pseudogenerosidade, lhe transmitir a bagagem de “experiência” acumulada em astutas calhordices e velhacarias financeiras e mesmo – nos mais “moderninhos” – eróticas, mas que é incapaz de dar aos filhos uma orientação, que dirá uma educação sexual sadia, por considerar imoral o comentário e a consulta sobre essas coisas, quando partem de jovens.”

A dissociação em relação à figura dos pais é profissional, política, ética. Funda-se nessa ruptura a “revolta” novas posições éticas, políticas, profissionais. Supondo por óbvio o reverso dessa situação — aquela em que os pais são uma figura a ser alcançada — construímos um outro continuum.

O semelhante nos dois continuums é que eles são fatores de influência basilar na criação de identidades. Pensemos na nossa condição: onde estamos na escala elite X missionários? É sequer possível pensar nesses termos? Com a oferta muito maior (seja privada ou pública), o financiamento estudantil e as bolsas, a educação online, o potencial empregatício do técnico, a saturação dos formandos em algumas áreas — tudo isso esgarçou aqueles parâmetros de forma que estudar pode ser entendido (em nível mais intenso do que antes) como uma mera burocracia a mais, sem política ou ética relacionadas. Dizer hoje “Aumentar os recursos para a educação!” não tem o mesmo caráter evidente de eticidade, de saber que você só conseguiu aquilo por estar isolado da grande população. Você está, mas não no mesmo grau, não sob ingerência americana, é outra coisa.

E de que maneira nossos pais nos formam? É ainda, quiçá sempre, por aderência ou oposição que nos relacionaremos com eles. Mas me parece que a rigidez que o livro de Poerner descreve não existe mais com tanta força. Assim, o que é ser um estudante parece à deriva sem esses faróis de personalidade.

Nós temos, claro, a lembrança dessa história. E pode ser pela imagem dela que se criam identidades. Ser irmanado dos inconfidentes mineiros e dos opositores da Ditadura. Ser a continuidade, pelos tempos, de uma luta. Eis um farol  persistente.

Meu relato sobre os acontecimentos do 27/10/11:
http://bit.ly/tirospedras

Junho/julho de 2013

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