Sobre criminalidade, corruptos e corruptores

Por Mariana Luppi

ilustração sobre criminalidade corruptos

A polêmica sobre a redução da maioridade penal após o assassinato de um estudante da Cásper Líbero ilustra como a sociedade, ou melhor, a opinião pública, tem facilidade de eleger grandes inimigos, acreditando que o combate a eles teria o potencial de resolver, de uma vez por todas, as mazelas sociais.

A “criminalidade” – entendida, aliás, bem restritamente, sempre como desrespeito violento à propriedade ou à vida (nesse senso comum em geral não se pensa em agressão à mulher, por exemplo) – é um desses inimigos, construído ideologicamente como se não tivesse origem histórica e fundamento social, como se se restringisse a um fenômeno moral de uma sociedade decadente. Como fenômeno moral, é claro, a única solução se baseia na repressão e punição – afinal, não há como prevenir que as pessoas sejam “más” e “cruéis” (exceto, em alguns discursos, pela via da religião).

É importante notar também, no entanto, que uma parcela da esquerda que tem clareza de que a espetacularização da violência é usada de forma ideológica, para sustentar medidas repressoras e antidemocráticas, ao mesmo tempo tem dificuldade (ou desinteresse) de identificar essa espetacularização em outro “inimigo” construído: a corrupção.

Vejam bem, não estou nem posso estar defendendo um “político corrupto”, considero que eles devam ser punidos, afastados dos cargos etc. e tal. Mas esse está longe de ser o problema do sistema político.  É bastante confortável para as mídias e em geral os grandes conglomerados que a toda a opinião pública gire em torno de casos de corrupção, criminalizando os corruptos e não os corruptores, os grandes proprietários que são favorecidos por decisões e ações “escusas”. Transformar os políticos em uma “classe” autônoma, com interesses próprios, só tem a função de confundir os conflitos sociais.

O problema é que justamente as posturas de combate à corrupção tendem a recair também no discurso da moralidade, como se os principais esquemas se baseassem na vontade de enriquecer de indivíduos “maus” e “sujos”, não na sustentação política de uma classe.

Na verdade, a ilegalidade de ações políticas sequer é o melhor critério para avaliar o que é mais deletério para a maioria da população. Tome-se como exemplo a bancada ruralista: mais de um terço do Senado é composto de parlamentares que representam menos de 1% da população: os grandes proprietários rurais. E eles foram eleitos democraticamente. Podem passar seus mandatos sem nenhum desvio de ética. Só de defenderem seus interesses já cometem uma violência e um desvio, já sustentam uma sociedade desigual e exploratória.

A luta contra a corrupção não pode ser o foco de um questionamento sério sobre a sociedade. Se observarmos os problemas sociais, a falta de serviços públicos, a desigualdade etc., como resultados da falta de vontade política baseada no egoísmo dos políticos, não temos nenhuma saída. As relações orgânicas entre o capital e o Estado devem ser expostas para que não haja a ilusão de que políticos “limpos” são suficientes para reformar o sistema político. Cabe questionar, inclusive, se o sistema é reformável.

Junho/julho de 2013

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