A Máquina

Por Gabriel Bichir

Once meek, and in a perilous path
The just man kept his course along
The vale of death

(William Blake)

ilustração a máquina 2Encontravam-se ambos imóveis. O guarda, em plena observância de seu dever, permanecia ereto ao lado da cela, privando-se de qualquer tipo de distração. Já era madrugada. Ele imaginava que a tal hora o prisioneiro estaria dormindo, até que notou um ruído proveniente do interior da cela:

– Por que você não dorme?

– Não quero dormir.

– Não dormiu nada até agora?

– Não.

– Pois deveria.

– Perdi o sono.

O guarda voltou-se ao prisioneiro e encontrou-o absorto em seus pensamentos. Espantou-se com tal atitude, mas nada disse, retornando ao seu posto.

– Diga-me, é você quem irá me matar?

– Não.

– Então quem?

– Ninguém.

– Como assim?

– É a máquina que o matará.

– Que máquina?

– É o novo equipamento da prisão.

– Como ela funciona?

– Não sei.

– Não sabe?

– Não é minha função saber.

– Mas você a opera.

– Evidente, mas isso não significa que conheça seu mecanismo.

O prisioneiro aproximou-se das grades e arriscou olhar em volta. Silêncio. O corredor estava vazio, o guarda era a única presença visível que se anunciava na fria madrugada.

– Resta-me quanto tempo?

– Quatro horas.

– É muito tempo.

– Ou muito pouco.

– Talvez. Conte-me sobre a máquina.

– O que você quer saber?

– Como ela funciona.

– Já lhe disse que isso não sei.

– E o que sabe?

– Que a máquina não é um simples mecanismo de tortura.

– Mas ela me matará?

– Deveras.

– Em quanto tempo?

– Impossível dizer. Isso depende apenas da máquina.

– Não compreendo.

Nesse momento ouviu-se um ruído proveniente do lado externo do presídio. A neve começara a cair suavemente, aglomerando-se em volta da pequena janela localizada próxima ao teto da cela. Mas o prisioneiro sequer percebera a brusca mudança de temperatura, pois já estava muito próximo ao guarda, com os ouvidos atravessando a grade. Após alguns minutos de silêncio, o guarda prosseguiu:

– A máquina determina o tempo necessário para a execução.

– Mas você não a comanda? Não pode ajustá-la conforme desejar?

– Eu apenas coloco-a em funcionamento. O mais correto seria dizer que é ela mesma que se opera.

– Isso significa que ela pode poupar-me a vida?

– Talvez.

– Isso já aconteceu antes?

– Não.

– Então como você sabe que ela pode fazê-lo?

– Porque tudo é possível para a máquina.

– E o que ela faz?

– Não sei.

– Você não a vê funcionando?

– A máquina está localizada em uma sala isolada, a qual nenhum de nós tem acesso. Durante as execuções, permanecemos do lado de fora e nada vemos do que se passa dentro.

– E quando sabem que ela concluiu a execução?

– Não há como ter certeza. Há um especialista no presídio designado especificamente para essa função.

– Deve ser perigoso.

– Sim, se o especialista adentra na sala no momento errado, ele fica preso com o prisioneiro, e raramente sai vivo.

– E o que dizem sobre a máquina?

– Que ela opera por turnos.

– E como são encontrados os prisioneiros?

– Nesse ponto não há consenso, a verdade é que os encontramos nos mais variados estados. Alguns são recuperados com ferimentos horríveis, que mal possibilitam seu reconhecimento. Outros são achados com o corpo intacto, embora estejam evidentemente mortos.

O prisioneiro afastou-se da grade e retornou ao fundo da sala, onde se sentou e tentou recuperar o sono por algum tempo. Esforçava-se para formar uma imagem da máquina, mas falhava a cada tentativa. Era como se ela se lhe escapasse a cada minuto, e sempre que tornava a alcançá-la algo dava errado e o forçava a recomeçar do zero a operação. Finalmente, desistiu e passou a olhar com interesse a janela que transbordava com os inúmeros flocos de neve.

– Você já viu a máquina?

– Nunca. Não temos permissão.

– Mas você já sonhou com ela?

– Sim. Inúmeras vezes.

– O que a máquina espera de mim?

– Você descobrirá.

– Sinto-me cansado. Preciso dormir.

Os primeiros raios de luz atravessavam a janela quando o prisioneiro acordou. Olhou em volta e contemplou toda a extensão de sua cela, que consistia apenas em uma cama, uma tigela de comida e um balde para suas necessidades. Levantou-se e dirigiu-se até a grade; o guarda não estava mais lá. Retornou e esperou alguns minutos, até ouvir o barulho de uma porta abrindo-se.

– Venha comigo, sua hora chegou – disse um guarda que abria a cela.

– Onde está o guarda com quem conversei de madrugada?

– Não havia guarda algum nessa ala.

Seguiram por um extenso corredor, até que o guarda indicou-lhe uma porta que se encontrava à esquerda. O prisioneiro entrou e viu-se diante de dois oficiais que o miravam com atenção. No centro, apenas uma cadeira e uma corda desgastada pendurada no teto.

– E a máquina? – bradou o prisioneiro

– Você não pode alcançá-la.

– Então nunca a deixarei?

– Não.

Nesse momento, o prisioneiro precipitou-se em direção à corda e, pouco antes de perder a consciência, pensou distinguir o guarda acenando-lhe no canto.

(Inspirado no conto “Na Colônia Penal”, de Franz Kafka.)

Setembro/outubro de 2013

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