Atualidade da repressão

Por Mariana Luppi

Já é de alguns anos a tentativa de alguns setores do movimento estudantil na USP de colocar a repressão no centro das discussões na universidade. A necessidade de tratar a questão apenas vem tornando-se mais candente com o crescimento da presença policial nos campi. Já em 2009 um célebre professor da casa começou a ver a necessidade de discutir o problema, segundo ele, no momento em que estava dando aula e sentiu o cheiro do gás lacrimogênio. Desde então, a gestão Rodas trouxe-nos um convênio com a PM, processos judiciais com acusações de formação de quadrilha, sem falar nos processos internos e nas expulsões com base em decretos da ditadura.

Também externamente à universidade, a repressão a movimentos políticos é crescente, vide a forte atuação da PM contra as manifestações de junho. Se é verdade que o mesmo governante controla a PM do estado e escolhe o reitor da USP, por outro lado é uma limitação relacionar os processos repressivos ao projeto de um partido político específico. Em julho houve ação policial em todo o Brasil, e sabe-se também que o governo federal não se furtou no último período a reprimir greves nas obras da copa e em Belo Monte.

A repressão a todo tipo de contestação à ordem estabelecida é, então, generalizada, ao menos quando se esgotam as possibilidades de concessões e de controle de direções pelegas. O fato de a violência ser monopólio do Estado e, em última instância, da burguesia, dá a ela a possibilidade de controlar a insatisfação de diversos setores, calar-lhes a voz, mesmo em um regime que é considerado democrático. O crescimento de processos repressivos indica, então, uma cada vez maior impossibilidade de atender às reivindicações populares expressas pela luta. Mas não só.

A repressão atinge também os setores mais explorados da sociedade, sob a forma de violento controle social, antes mesmo de eles se organizarem, de forma preventiva, . Se o pinheirinho foi destruído por apresentar uma luta consciente contra a especulação imobiliária e pelo direito à moradia, os moradores da cracolândia foram expulsos violentamente porque sua própria existência atrapalhava a especulação. Se os líderes dos movimentos sociais são perseguidos por organizarem pessoas para reivindicar demandas sociais, Amarildo e Ricardo foram mortos apenas por existirem, por serem pobres e negros.

Uma luta contra a repressão deve ter em vista todos esses aspectos, não podendo nunca ser meramente estudantil, mas devendo articular os movimentos sociais, em particular o movimento negro, e os trabalhadores. Estudantes processados da USP, Unesp e Unifesp participaram no dia 15 de agosto de um ato que buscava ter esse caráter. A partir daí, formou-se um comitê estadual contra a repressão, que tem próxima reunião no dia 12 de setembro, no instituto de artes da Unesp, na Barra Funda.

Os setores majoritários do movimento estudantil da USP hoje discutem as eleições para reitor da USP, exigindo eleições diretas. Embora esteja claro que o questionamento à estrutura de poder seja importante para que haja algum espaço de debate sobre os rumos da universidade, para que se lute contra sua submissão à lógica do capital, essa pauta é incapaz de questionar as consequências dessa lógica para amplas camadas da população. A discussão sobre a repressão, as funções da polícia (seja militar ou civil) e o poder jurídico ao mesmo tempo são e não são pautas estudantis – e por isso mesmo são tão importantes para o avanço da nossa luta.

Setembro/outubro de 2013

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